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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Eu Sou a LendaEu Sou a Lenda by Richard Matheson
My rating: 4 of 5 stars

Tinha curiosidade de conhecer a origem de um filme que vi na TV há muitos anos – "A última esperança da Terra". Gostei do filme, mas a cena final me desagradou. A trama ganhou uma terceira versão para o cinema com Will Smith e Alice Braga, em 2007, com o mesmo título do livro. Interessante.

"Eu sou a lenda" foi lançado em 1954 e mistura terror com ficção científica. Como é comum nesses gêneros, explora os medos mais profundos do ser humano, como a solidão e o desconhecido. Robert Neville é, aparentemente, o único sobrevivente de uma peste que transformou as pessoas em vampiros.

Neville vive em um casa fortificada e investe a luz do dia, período em que pode circular com segurança, na busca por explicações para a epidemia. É aí que a trama de Matheson se torna cansativa em muitas passagens, na tentativa de explicar aspectos do mito do vampiro, como o medo da cruz e a repulsa ao alho. O autor poderia ter deixado Drácula de lado para desenvolver sua própria narrativa.

Com uso do discurso indireto livre Matheson envolve o leitor na angústia da solidão e falta de perspectiva de Neville, o ponto alto da obra. O autor também é hábil ao criar uma tensão permanente nas passagens em que Neville está exposto – e pode ser enganado por um relógio quebrado quanto à hora de se proteger – ou mesmo dentro de sua casa.

A edição da Aleph teve tradução de Delfin, é ilustrada com vinhetas elegantes e conta com um bom artigo de Mathias Classen, professor da Universidade de Aarhus, Dinamarca. Há ainda uma breve entrevista concedida por Matheson na época de lançamento da última adaptação de sua novela para o cinema

Richard Matheson teve uma extensa obra como escritor de romances, contos e roteiros. São dele histórias conhecidas como "O incrível homem que encolheu", "Em algum lugar do passado", episódios de Além da Imaginação e Jornada nas Estrelas. "Hell House" ("A casa infernal", no Brasil) também foi levado ao cinema, mas em nada acrescenta a "The Haunting of Hill House" ("A Maldição da Residência Hill"), novela publicada por Shirley Jackson 12 anos antes.

Destaco o conto "Duel", que serviu de base para o roteiro de "Encurralado", primeiro filme feito por Steven Spielberg para a televisão. Mais uma vez, o tema da angústia de um homem sozinho diante da violência mortal e inexplicável.


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sábado, 5 de janeiro de 2019

Review: Natureza humana: justiça vs. poder - O debate entre Chomsky e Foucault

Natureza humana: justiça vs. poder - O debate entre Chomsky e Foucault Natureza humana: justiça vs. poder - O debate entre Chomsky e Foucault by Noam Chomsky
My rating: 4 of 5 stars

Profunda discussão entre os dois grandes pensadores sobre se há uma "natureza humana" nativa, mediada pelo filósofo holandês Fons Elders. O debate é denso, e evolui para uma discussão dinâmica sobre Justiça, Poder, legalidade e desobediência civil. Lembrando que o encontro entre os dois filósofos, em novembro de 1971, ocorreu no ápice da intervenção militar dos EUA no Vietnã, várias vezes lembrado durante o debate.

O encontro foi transmitido pela TV holandesa e está disponível com legendas em português no YouTube.



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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Crooked HouseCrooked House by Agatha Christie
My rating: 3 of 5 stars

Agatha Christie dizia que "A casa torta" era um de seus romances preferidos. É também o escolhido entre os melhores para alguns fãs da autora. Entre ouras curiosidades, não conta com a participação do célebre detetive belga Hercule Poirot, nem com Miss Marple.
Mas é uma novela policial com as principais características da autora. Um crime, um grupo de pessoas que podem tê-lo cometido. A originalidade, em "A casa torta", fica por conta de a investigação ficar a cargo da Scotland Yard, mas com participação especial de um dos envolvidos na trama - ainda que de forma indireta.
Todo cuidado nesse comentário é pouco para não estragar a surpresa dos leitores na leitura dessa trama, cuja publicação completa 70 anos agora em 2019. Mas praticamente todos que poderiam ter cometido o crime não tinham motivo para isso. Há toques de sarcasmo com relação a comunistas, católicos e mesmo Sherlock Holmes. E a solução do caso é ousada e surpreendente.


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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Olhar sem ver

Perturbadora fábula em que não se pode ver quem está ao lado  

Os verbos "desver", "desouvir" e "dessentir" são usados com frequência nessa obra do escritor e ativista político britânico China Tom Miéville. E querem dizer exatamente o que sugere sua leitura: você vê, mas não pode enxergar o que está vendo, escuta sem ouvir, sente, mas não apreende. Alguma familiaridade com relação ao motorista que "desvê" o pedinte tanto à janela de seu carro parado no semáforo?

Para não correr o risco de estragar a experiência da leitura de "A cidade e a cidade", isso é mais do que o bastante para falar da experiência de viver em Beszel ou Ul Qoma. As duas cidades que justificam o título do livro ocupam o mesmo espaço geográfico, mas são separadas por idiomas, culturas e administrações diferentes. Ver algo ou alguém da outra cidade é um grave delito.

O assassinato de uma jovem estudante envolve o inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Hediondos de Beszel. É o começo de uma trama policial com traços de distopia, no cenário desconcertante das cidades vigiadas pela misteriosa e onipresente Brecha, capaz de interferir ao mínimo deslize dos cidadãos. 

Adendo da editora Boitempo lembra que "A cidade e a cidade" foi publicado no Brasil em 2014, ano em que se celebrou o aniversário de 25 anos da queda do Muro de Berlim. E também fazia 20 anos que os EUA começaram a construir seu muro na fronteira do México e 12 que Israel fazia o mesmo na Cisjordânia, entre outras obras de separação física em curso no mundo.

Assim como as duas cidades imbricadas, a leitura desse livro oferece várias interpretações. Chamar de ficção científica ou distopia urbana é pouco, até porque a tecnologia retratada na obra é quase toda contemporânea. Miéville tem sido enquadrado na categoria de um autor de weird fiction, ou ficção estranha. Mas, querendo, basta pensar um pouco e olhar em volta para enxergar muitos paralelos na cidade onde você mesmo vive.

"A cidade e a cidade" foi lançado originalmente em 2009. Para chegar ao Brasil, passou pela tradução desafiadora e competente de Fábio Fernandes.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Waterloo

Waterloo: The True Story of Four Days, Three Armies and Three BattlesWaterloo: The True Story of Four Days, Three Armies and Three Battles by Bernard Cornwell
My rating: 5 of 5 stars

Excelente síntese da batalha que definiu a derrota de Napoleão. O autor ora descreve as decisões militares, a estratégia e os grandes movimentos táticos, ora coloca o leitor no centro dos combates, fechando o foco em detalhes e episódios do conflito.


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quarta-feira, 1 de março de 2017

Aula magna de cidadania


Livro vai muito além de uma simples história de amor

Imaginava ter a mínima noção sobre a chamada "questão racial", e, ao fim da leitura de "Americanah", a conclusão foi que - sim - minha noção  era mínima. Do alto de suas tranças elaboradas, Chimamanda Ngozi Adichie dá uma aula sobre o tema, falando sobre cultura, culinária, música, política, trabalho, relacionamentos e... cabelos!

A jovem estudante Ifemelu parte de uma Nigéria envolta em tramoias políticas e corrupção para encarar uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Mas deve trabalhar e ganhar dinheiro para custear sua permanência, um desafio que se torna ainda maior por ela não querer abrir mão de suas convicções e raízes culturais. E por rapidamente perceber que, em questões básicas de cidadania, o negro africano é "diferente" do afro-americano, que por sua vez não é igual aos latinos e seus descendentes que convivem nos Estados Unidos.

"Americanah" retrata o período que antecede a primeira eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos. A sensação de quase incredulidade dos estrangeiros que, como Ifemelu, acompanham as etapas finais de sua chegada à Casa Branca. A vivência de Chimamanda resultou uma obra tocante e esclarecedora até para quem se dá por informado e bem intencionado.

Como estarão se sentido e o que vão escrever as "Ifemelus" vivendo hoje sob a era Trump? 


domingo, 3 de julho de 2016

Poderia ser divertido

O conteúdo não entrega o que o título sugere
Marcado pela doença seguida de morte da mãe, o autor se refugia na adolescência no universo dos RPGs, ou jogos de representação. Já adulto, torna-se jornalista, escritor e poeta, mas não deixa para trás a dúvida se jogos do gênero seriam ou não uma forma de escapismo. E, já aos quarenta, parte para uma jornada de investigação que resulta em "Tudo que um geek deve saber". Participa de encontros que envolvem centenas de pessoas em fantasias e simulações, visita um castelo em construção, entrevista jogadores de videogames com milhões de jogadores, viaja à Nova Zelândia para conhecer os locais em que "O senhor dos anéis" foi filmado.

Assim como o próprio Ethan Gilsdorf, fica a impressão de que muitos dos jogadores são ou viciados ou apenas pessoas tristes, refugiadas em mundos de fantasia. A maior parte apenas de diverte, menos o leitor, que encara um livro chato. Pelo ambiente que se encontra em convenções de fantasia, HQs e ficção cientifica, com pessoas usando fantasias de heróis e personagens de fictícios, poderia ser um texto bem divertido. Mas é apenas desnecessariamente longo e repetitivo.

sábado, 2 de julho de 2016

Murphy é desconcertante

Humor negro tempera o romance do irlandês Samuel Beckett
Sem roupa, amarrado a uma cadeira de balanço, em busca da privação de sensações no interior de um pombal condenado. É assim que o leitor é recebido por Murphy, personagem-título do romance de Samuel Beckett. Desconcertante desde as primeiras linhas, o livro lançado em 1938 é uma boa porta de entrada para o fascinante universo literário do autor irlandês que se tornou mais conhecido pela peça Esperando Godot.

Sua obra, porém, vai muito além da dramaturgia, e Murphy é uma ótima mostra disso. A narrativa breve - o livro tem apenas 256 páginas na edição da Cosac Naify -, mas densa, retrata a vida do personagem-título, sua amante Celia e de um grupo de amigos em suas andanças e diálogos por Londres.

O texto nada convencional mescla erudição, jogos de palavras e muitas referências a filósofos, escritores e mesmo passagens da Bíblia. Beckett brinca com a atenção do leitor, com nomes de personagens clássicos - Romieta e Julieu - e com o som de palavras, como ex-mordomo, que soa algo como cerveja extra forte. Associação nada sutil com a Irlanda, terra de marcas como a Guinness.

Celia, uma prostituta, insiste para que Murphy consiga um trabalho. Ele acaba se empregando como auxiliar de enfermagem em um manicômio, onde rapidamente cria forte empatia com os internos. A crítica ao tratamento dispensado aos doentes é pouco velada, mas mesmo em meio a um ambiente de alienação mental, Beckett encontra espaço para toques de humor negro, como o homem que planeja o suicídio prendendo a respiração.

Murphy tem tradução e notas de Fábio de Souza Andrade. Essas notas ajudam - e muito - na compreensão do texto, que, pouco convencional, é um desafio e um estímulo à atenção do leitor. Só é preciso atentar para o fato de que elas estão reunidas no fim do livro, sem que as palavras, nomes e trechos a que fazem referência tenham qualquer destaque no texto.

Gravei uma conversa de 20 minutos sobre Beckett e Murphy com Bruno Andrade, estudante de Artes e fã do autor: podcast

domingo, 5 de julho de 2015

Jazz literário

Um livro para ser lido com jazz ao fundo
Várias editoras estão empenhadas na sobrevivência do livro físico, de papel. E é bom que seja assim: se a tecnologia e recursos de gráfica abrem espaço para a criatividade, o bom gosto é determinante. E bom gosto não falta à editora Cosac Naify. O perseguidor, de Julio Cortázar, é apenas um exemplo.
Conto-novela do escritor argentino, O perseguidor tem ilustrações de José Munõz, também nascido na Argentina. Seu traço explora as linhas fortes, o preto e branco contrastante, e influenciou artistas do calibre de um Frank Miller em Sin City, por exemplo.
Cortázar era um fã ardoroso do jazz: tocava trompete em casa apenas para seu deleite. E admirava a obra do saxofonista Charlie Parker, no livro retratado como o delirante e adoentado músico Johnny Carter. A vida caótica do músico em Paris, entre drogas, visões, fraqueza física, saxofones perdidos, surtos, mulheres, divagações e momentos de criatividade genial é acompanhada de perto por um jornalista que escreve sua biografia.
Como nas páginas em que se parece ouvir notas musicais em On the road, de Jack Kerouac, O perseguidor é um livro musical, sem que se veja uma mínima ou semínima impressa. 


José Muñoz retrata a cena do jazz em Paris com inspiração

terça-feira, 21 de abril de 2015

Um guia que ensina a ler mais e melhor

Um manual para extrair o melhor dos livros
Quem gosta de ler desfruta horas de entretenimento com o hábito, seja um texto de ficção, seja com obras de referência e estudo. Mas aproveita tudo o que pode da leitura? Depois de ler este "guia clássico para a leitura inteligente", você pode acabar concluindo que não.
Escrito por Mortimer Adler e Charles Van Doren na década de 1940, Como ler livros ganhou uma revisão e acréscimos 30 anos mais tarde. Quase 80 anos parece muita coisa, mas a obra mantém-se atual como uma longa e inspirada aula sobre como aproveitar melhor um livro, e avançar na compreensão dos textos mais desafiadores.
O nível de atenção do leitor é um dos primeiros pontos atacados pelos autores, ambos norte-americanos. Para isso, Adler e Doren dividem a leitura em quatro níveis: elementar, inspecional, analítica e sintópica. Identificar o propósito do autor é o primeiro passo para a compreensão de seu texto, seja um conto, seja uma teoria científica.
Mais do que um manual - função que cumpre muito bem - Como ler livros é uma declaração de amor à leitura e à função dos livros para a humanidade. O texto de Adler e Doren é apaixonado, um deleite para quem ama ter um livro nas mãos (ou num tablet, ou nos fones de ouvido).
A obra é complementada por uma extensa lista de sugestão de leituras, que inclui de escritores clássicos a autores de textos científicos, filosóficos e políticos, como Thomas Mann, James Joyce, Albert Einstein, Charles Darwin, Vladimir Lenin ou Franz Kafka. Se há uma crítica que se possa fazer à obra, seria a de que todos os títulos sugeridos referem-se à literatura ocidental.
O livro traz ainda outro apêndice com exercícios elaborados pelos autores para a prática dos quatro níveis de leitura. Com 432 páginas e publicado pela editora É Realizações, Como ler livros é uma obra cara, oferecida por entre R$ 67 até R$ 88. Vale procurar uma oferta.

Leitura essencial


domingo, 12 de abril de 2015

Aprender a se fazer perguntas

Um ótimo manual para aprender a se fazer perguntas
Este livro traz no título o que tem faltado nesses tempos de fórmulas prontas, soluções políticas superficiais, slogans rasos e bravatas. Pensar com mais profundidade, fazer perguntas, entender as razões por trás dos fatos, os valores. Enfim, pensar de maneira crítica.

Escrito por David William Carraher e publicado pela Editora Cengage Learning, Senso Crítico - do dia-a-dia às ciências humanas, é um livro que não foi nem será visto em listas dos mais vendidos. Lançada em 1983, com reimpressão em 2011, é uma obra de inspiração didática, voltada para estudantes das áreas de Ciências Sociais e Humanas. Suas 164 páginas incluem exercícios de reforço para compreensão e reflexão.

O livro é muito bom para quer quiser seguir - ou relembrar - um bom roteiro para evitar armadilhas que levam a conclusões equivocadas e fazer questionamentos adequados diante de fórmulas prontas. Há muitos exemplos colhidos na literatura, jornais e revistas. Por um lado, isso pode passar uma sensação de envelhecimento para a obra, mas por outro ressalta o incômodo pela constatação de que pouco mudou (piorou?) na opinião pública em 35 anos.

David William Carraher escreveu Senso Crítico quando professor adjunto do Curso de Mestrado em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Não é muito fácil de achar. Mas vale a pena ir atrás, caso você não tenha medo de questionamentos.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A volta de Tubarão

Capa dura, e assustadora
Não importa muito que, revisto hoje, Tubarão seja um filme com "defeitos visuais": o monstro mecânico já havia dado problemas nas filmagens, mas foi um sucesso. Steven Spielberg foi muito feliz na condução de um suspense inovador, mas a história havia sido publicada um ano antes, em 1974, pelo escritor norte-americano Peter Benchley.

A DarkSide está relançando Tubarão 40 anos após sua primeira edição. Vampiros, zumbis e outros monstros foram reinventandos e tiveram seu espaço na cultura pop nesse período. Os efeitos especiais para cinema e TV evoluíram muito, mas a narrativa do monstro marinho, ameaça invisível e imprevisível abaixo da linha d'água, continua assustadora.


Li Tubarão quando foi lançado em português, uma trama densa e angustiante que contrasta a quase impotência das pessoas, em um ambiente hostil, às voltas com uma fera que devora homens. Benchley deixou de lado o horror despertado por seres sobrenaturais ou a ameaça de alienígenas hostis para falar de uma criatura real. Por isso o livro é assustador, ainda mais que o filme.


Tubarão - no papel e nas telas - vilanizou o animal de tal maneira que levou Benchley a tornar-se um ambientalista, comprometido inclusive com a defesa dos tubarões diante da matança indiscriminada que os animais sofrem. O autor morreu em 2006, quando a obra já somava mais de 20 milhões de exemplares vendidos. Tubarões continuam sendo capturados para ter a barbatana removida - é preparada como sopa - e devolvidos ao mar.


A sugestiva imagem do cartaz do filme está na capa de Tubarão 

Traduzido por Carla Madeira, Tubarão (Jaws, no original) tem preço sugerido de R$ 39,90 em brochura e R$ 59,90 na edição limitada com capa dura. São 280 páginas. Pegue o seu, acomode-se no lugar preferido e leia ao som da premiada e inesquecível trilha sonora de John Williams.





sábado, 28 de março de 2015

A verdade no fundo da caverna

A obra é um misto de livro ilustrado e graphic novel
Um pai à procura da filha desaparecida há mais de dez anos, um ladrão e um tesouro oculto numa caverna misteriosa. Esses são os elementos quase simples que Neil Gaiman - autor inglês de romances e quadrinhos mais conhecido por Sandman - usou para compor A verdade é uma caverna nas montanhas negras. O conto, publicado em 2010 na antologia Stories, ganhou edição própria ilustrada por Eddie Campbell, artista consagrado por seu trabalho em From Hell, de Alan Moore.

A história se passa nas Black Cuillins, Ilha de Syke, paisagem que o escocês Campbell conhece muito bem e fascinou Gaiman. A obra é um misto de graphic novel e livro ilustrado, em que texto e imagens conversam muito bem para criar o clima sombrio da narrativa. 

O pai é um anão que contrata um ladrão como guia até a caverna onde espera encontrar a verdade sobre o desaparecimento da filha. Por não encontrar equivalente em português, Augusto Calil, tradutor do texto, optou por manter a expressão border reaver em inglês para o personagem que, há séculos, assaltava indistintamente ingleses e escoceses nas fronteiras entre os dois países. 

A viagem é úmida, sombria e perigosa. A relação entre os dois homens é tensa e desconfiada: um não está certo das respostas que vai encontrar, outro pensa no ouro guardado na caverna. Aqui Gaiman se apropria do modelo de jornada por territórios pouco conhecidos, envoltos em névoas e nuvens, reunindo uma dupla improvável de um anão cheio de segredos e um ladrão movido pela ambição.

O desfecho me lembrou o enredo das pulp fictions dos anos 1940 e 1950, reproduzidas em revistas como Weird Tales e Cripta, no Brasil. Mas a narrativa é boa, tanto o texto de Gaiman quanto o visual das ilustrações de Campbell. Vale a leitura.

Valeria mais ainda assistir a performance de Gaiman. Ele tem feito leituras do conto em teatros com projeção das ilustrações de Campbell (as do livro e outras inéditas), ao som do quarteto de cordas australiano FourPlay, que conta em seu repertório com o tema do seriado Doctor Who. Gaiman é um excelente narrador, como pude conferir em sua leitura de O oceano no fim do caminho.

A verdade é uma caverna nas montanhas negras foi lançado no Brasil pela Intrínseca em uma bem cuidada edição de 80 páginas com capa dura. Custa R$ 34,90 na versão impressa e R$ 19,90 na eletrônica.

sábado, 21 de março de 2015

Big Sur, a angústia de Jack Kerouac

Edição da Penguin faz referência ao filme que não chegou ao Brasil

Jack Kerouac teve de esperar sete anos até que sua maior obra, On the road, fosse publicada, o que foi feito em 1957. Apenas três anos depois, o “rei dos beatniks” não era um autor realizado com o sucesso de seu livro, mas um homem de menos de 40 anos com a saúde destruída pelo alcoolismo e espírito atormentado. Foi nessa condição que aceitou o convite do amigo e poeta beat Lawrence Ferlinghetti para um período de descanso e retiro em sua cabana em Big Sur, área de beleza selvagem na costa da Califórnia, ao sul de São Francisco.

Da experiência resultou o livro considerado mais intimista de Kerouac, Big Sur. Escrito com o estilo que o autor chamava de prosa espontânea, que lembra a técnica do fluxo de consciência, narrativa e reflexões fluem sem muita elaboração, em meio a onomatopéias e pontuação caótica.

Big Sur é também um relato amargo e triste. Jack Duluoz (alter ego de Kerouac) passa pela cabana de Ferlinghetti (Lorenzo Monsanto no livro) em três ocasiões. A primeira, quando fica sozinho, resulta no terço da obra em que a força da natureza e a paisagem impressionante da região são marcantes.

De volta a São Francisco, Duluoz/Kerouac recebe uma notícia que o deixa arrasado. O trecho em que fala sobre a dor de sua perda é lancinante. Reencontra seu grande parceiro de estrada, Neal Cassady, que havia sido Dean Moriarty em On the road e é apresentado como Cody Pomeray em Big Sur. Ressurgem também outros amigos, velhos e novos amores: Carolyn Cassady (como Evelyn), Gary Snyder (Jarry Wagner), Philip Whalen (Ben Fagan), Michael McClure (Pat McLear), Lenore Kandel (Romana Swartz) e Robert La Vigne (Robert Browning).

Vários momentos “On the road” se sucedem, e a paixão pela liberdade de um carro na estrada é celebrada com manobras arrojadas e muita velocidade. E o atormentado autor bebe muito, bebidas de baixa qualidade em grandes quantidades. E antigas paixões são reacesas, e há sexo, e um porre contínuo. A decadência física de Duluoz/Kerouac é angustiante, com crises de delirium tremens e paranóia.

A LP&M oferece edição impressa e eletrônica

Por que ler um livro assim? Porque Kerouac é visceral, sua prosa é ágil, Big Sur é um lugar fascinante e Ferlinghetti foi um dos fundadores da livraria e editora City Lights Books, em São Francisco, responsável pelo impulso editorial da Geração Beat. O autor está se consumindo, mas escreve um livro emocionante e vertiginoso.

Big Sur foi lançado em 1962, e tem edição no Brasil pela L&PM, com tradução de Guilherme da Silva Braga e prefácio de Aram Saroyan. O livro é oferecido na edição impressa, com 192 páginas (R$ 17,90), e ebook (R$ 12,00).

A obra ganhou uma versão para o cinema em 2013. O filme foi recebido com alguma indiferença nos EUA, e não foi lançado no Brasil sequer em DVD. Mate a vontade com o trailer:



quarta-feira, 11 de março de 2015

Fantástico circo mecânico

A capa é intrigante. A hisória também
Desconcertante é um adjetivo que traduz bem O circo mágico Tresaulti, romance de estreia da norte-americana Genevieve Valentine. A jovem escritora norte-americana (completa 34 anos em primeiro de julho) investe no tema steampunk em um universo pós-apocalíptico em que pessoas e mecanismos vivem uma relação, digamos, metálica e carnal.

A trama se desenvolve de maneira fragmentada, onde a magia do circo, a relação entre os artistas e Boss, sua chefe, salvadora e protetora, o público e a sugestão de uma misteriosa ameaça estão sempre envoltos em um clima fantástico. Os limites entre máquina e corpo podem se confundir e nem ser muito claros para o leitor, mas isso acaba não sendo importante. O humano é o que ainda move os personagens: ciúme, inveja, ansiedade, paixão e medo. Muito medo.

Como toda atração mambembe, o circo está sempre em movimento por estradas e cidades de um território não identificado, sob uma atmosfera opressiva. Mas em busca de novos públicos ou à fuga da ameaça invisível? A dúvida e a tensão se mantêm ao longo da narrativa até o desfecho que pode até não surpreender, mas é melhor que você não chegue nesse trecho se precisa acordar cedo no dia seguinte. O final é garantia de só largar o livro na última página.

O circo mágico Tresaulti foi lançado no Brasil em 2013 pela Dark Side Books, com a mesma capa da edição original dos EUA, e que atraiu minha atenção na livraria. Os leitores brasileiros da tradução feita por Dalton Caldas, no entanto, tiveram como bônus as belas ilustrações do quadrinista e animador Wesley Rodrigues.

Mitologia de duas culturas em uma embalagem atraente
A editora anuncia para abril mais um romance fantástico de outra norte-americana. Golem e o Gênio, de Helene Wecker, é uma fantasia histórica na Nova York da virada do século XX, envolvendo seres mitológicos das culturas árabe e judaica. A criatura feita de barro e o gênio liberado de uma antiga garrafa de cobre dão título ao livro de capa dura com 460 páginas.

Golem e o Gênio tem recebido elogios no exterior. Vale conferir se a trama e o textos serão tão atraentes em português quanto a capa. O desafio da tradução ficou para Cláudia Guimarães.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Quer mesmo ir para Marte?

Vida de astronauta está longe de ser fácil
Mais de 10 mil brasileiros se inscreveram para uma viagem sem volta. O destino é o planeta Marte, distante no mínimo 60 milhões de km da Terra. No total, mais de 200 mil pessoas de 140 países se candidataram a uma vaga no projeto de colonização organizado pela empresa Mars One, da Holanda. A partida da viagem de sete meses está prevista para 2022. Os 24 voluntários escolhidos terão como missão colonizar o planeta, onde até hoje chegaram apenas sondas robotizadas.

Não sei quantas dessas pessoas leram Packing for Mars: The Curious Science of Life in the Void, publicado no Brasil pela Editora Paralela como Próxima parada: Marte - curiosidades sobre a vida no espaço, de Mary Roach. Jornalista dos Estados Unidos, a autora explora abordagens originais sobre temas científicos. Apura muitas informações, se envolve pessoalmente, escreve bem e com humor.


O título em português chegou em 2013, três anos depois do original

Para Packing for Mars, Mary entrevistou astronautas, agências espaciais, estudiosos da vida em ambientes sem gravidade e participou de simulações de convívio em isolamento. O texto mostra um lado pouco explorado dos super-heróis espaciais, elite que, no fim das contas, continua sendo formada por seres humanos: enjoam, reclamam de comida que não varia e tem de ir ao banheiro.

Você fica sabendo, entre outras coisas, que roncar ou ter mau hálito são nota de corte para quem sonha ser astronauta. Ou como a sensação de "queda" constante, a mais de 28 mil km/h, mexe com a cabeça das pessoas em órbita durante os "passeios espaciais". E como uma viagem longa, como ir para Marte, vai acrescentar novos desafios psicológicos. Afinal, estando em órbita os astronautas estão vendo a Terra. Ao se afastar, vão mergulhar na escuridão.

Ainda menino, ficava fascinado com as imagens de astronautas semideitados em suas diminutas cápsulas, depois quando eram recolhidos pelo resgate em mares revoltos. Eu desenhava os foguetes, e fazia de um armário embutido minha cápsula: punha as pernas sobre o gaveteiro, fechava a porta e viajava pela galáxia. Boa fantasia de criança, mas não tão criativa que me fizesse chegar nem remotamente perto dos desconfortos descritos em Packing for Mars. Que bom.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Viva nós

O autor e sua grande obra

Vez ou outra me dou conta de estar em falta com algum autor ou obra importante. Aconteceu em julho, por ocasião da morte de João Ubaldo Ribeiro. Apesar de ter algumas obras suas na estante e ter lido várias crônicas em jornais, ainda não havia lido um livro seu. Viva o povo brasileiro foi eleito para corrigir essa falta.

A minha foi uma viagem no tempo de 30 anos, pois o livro foi publicado em 1984. Já a obra de João Ubaldo cobre mais de 400 anos da história do Brasil com seus personagens "fictícios" que você a cada página vai reconhecendo nas esquinas ou noticiários dos jornais e TV.

Viva o povo brasileiro faz uso de uma sutil ironia para expor como era o relacionamento entre proprietários de terras e escravos, políticos e empresários, polícia e cidadãos. Eu disse era? Ao fim da leitura, a sensação que fica é de que pouco ou quase nada mudou no país. E é possível entender um pouco melhor o que somos e porque somos como somos, e as razões do "debate" que começou durante a campanha eleitoral e continua nas chamadas redes sociais.  

Encerrei as leituras de 2014 com chave de ouro com Viva o povo brasileiro. São quase 700 páginas, mas sua leitura deveria ser obrigatória, ao menos como reflexão, antes de fazer ou postar um comentário sobre o povo brasileiro.