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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Eu Sou a LendaEu Sou a Lenda by Richard Matheson
My rating: 4 of 5 stars

Tinha curiosidade de conhecer a origem de um filme que vi na TV há muitos anos – "A última esperança da Terra". Gostei do filme, mas a cena final me desagradou. A trama ganhou uma terceira versão para o cinema com Will Smith e Alice Braga, em 2007, com o mesmo título do livro. Interessante.

"Eu sou a lenda" foi lançado em 1954 e mistura terror com ficção científica. Como é comum nesses gêneros, explora os medos mais profundos do ser humano, como a solidão e o desconhecido. Robert Neville é, aparentemente, o único sobrevivente de uma peste que transformou as pessoas em vampiros.

Neville vive em um casa fortificada e investe a luz do dia, período em que pode circular com segurança, na busca por explicações para a epidemia. É aí que a trama de Matheson se torna cansativa em muitas passagens, na tentativa de explicar aspectos do mito do vampiro, como o medo da cruz e a repulsa ao alho. O autor poderia ter deixado Drácula de lado para desenvolver sua própria narrativa.

Com uso do discurso indireto livre Matheson envolve o leitor na angústia da solidão e falta de perspectiva de Neville, o ponto alto da obra. O autor também é hábil ao criar uma tensão permanente nas passagens em que Neville está exposto – e pode ser enganado por um relógio quebrado quanto à hora de se proteger – ou mesmo dentro de sua casa.

A edição da Aleph teve tradução de Delfin, é ilustrada com vinhetas elegantes e conta com um bom artigo de Mathias Classen, professor da Universidade de Aarhus, Dinamarca. Há ainda uma breve entrevista concedida por Matheson na época de lançamento da última adaptação de sua novela para o cinema

Richard Matheson teve uma extensa obra como escritor de romances, contos e roteiros. São dele histórias conhecidas como "O incrível homem que encolheu", "Em algum lugar do passado", episódios de Além da Imaginação e Jornada nas Estrelas. "Hell House" ("A casa infernal", no Brasil) também foi levado ao cinema, mas em nada acrescenta a "The Haunting of Hill House" ("A Maldição da Residência Hill"), novela publicada por Shirley Jackson 12 anos antes.

Destaco o conto "Duel", que serviu de base para o roteiro de "Encurralado", primeiro filme feito por Steven Spielberg para a televisão. Mais uma vez, o tema da angústia de um homem sozinho diante da violência mortal e inexplicável.


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domingo, 26 de janeiro de 2020

Review: A Visita Cruel do Tempo

A Visita Cruel do Tempo A Visita Cruel do Tempo by Jennifer Egan
My rating: 4 of 5 stars

O fascínio de "A cruel visita do tempo" vai além da melancólica narrativa que gira em torno da vida de músicos e pessoas ligadas ao universo da indústria fonográfica.

Jennifer Egan brinca com o leitor, instigado a montar um quebra-cabeças pela leitura que alterna primeira, terceira e mesmo a segunda pessoa ao longo dos 13 capítulos da obra. E a narrativa ainda se desenrola por anos, através do ponto de vista de diferentes personagens e em períodos não lineares de tempo. As histórias vão se conectando, relacionamentos se formam e terminam até o desfecho que se articula ao início da obra.

Uma curiosidade na boa tradução de Fernanda Abreu é a escolha do termo console para tablet. Não conheço ninguém que use essa palavra para equipamentos como iPads. O termo é mais comum para aparelhos de videogame. Estranho também o uso da letra T no lugar de e-mail ou mensagem.
Sem prejuízo para o resultado que, aliás, ficou com o belo título em português, superior ao original.

A citação do Los Angeles Times na capa - "O melhor livro que você terá nas mãos"- é exagerada. Mas ainda assim "A cruel visita do tempo" é uma excelente leitura.

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domingo, 21 de abril de 2019

PollyannaPollyanna by Eleanor H. Porter
My rating: 2 of 5 stars

Ver-me sem nada para ler e com um livro gratuito no celular me levou a matar a curiosidade sobre a origem da expressão "ser Poliana". Bom, sabia que a origem era o livro "Pollyanna", nome de uma garotinha que exala otimismo. Mas ler o livro infantil de Eleanor H. Porter é diferente, uma experiência que não me agradou.
Gosto de vez ou outra ler um livro infantil ou infanto-juvenil, mas "Pollyanna" ficou abaixo de minhas expectativas. O "jogo" da menina órfã, de procurar o lado positivo nas piores situações e atitudes, mais do que justifica a fama da obra, a origem da expressão e as muitas adaptações feitas para TV, teatro e cinema. Mas achei o livro ruim. Pollyanna transita em um mundo de adultos amargurados e ressentidos, muitas vezes por se comportar de maneira mais infantil do que a menina. Com sua visão inocente, ela acaba sendo a mais madura em várias situações.
A autora emenda uma cena em outra para que Pollyanna chame as pessoas ao bom senso. Em mais de uma passagem, dá saltos de continuidade quando parece querer resolver logo uma situação e passar para outra. E termina a história de maneira abrupta.
Enfim, "Pollyanna" tem suas lições de moral e muita pieguice. Nada que minha avó não resumiria em uma frase quando eu não estava disposto a comer alguma coisa: "Pense em quantas crianças não tem nem isso para comer."


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sábado, 9 de março de 2019

O Coração é um Caçador SolitárioO Coração é um Caçador Solitário by Carson McCullers
My rating: 5 of 5 stars

Cinco personagens protagonizam uma história capaz de despertar múltiplas emoções no leitor, da indignação com as injustiças sociais à identificação com atitudes de amizade e solidariedade. A narrativa em terceira pessoa traz o ponto de vista de quatro homens e uma pré-adolescente, pessoas que interagem em vários momentos do livro.

O surdo John Singer é o homem trabalhador e solitário resignado a "ouvir" pacientemente a todos, característica que faz dele figura central no romance, admirado e querido na cidade. Frequentador do restaurante do observador Biff Brannon, é no estabelecimento que Singer "resgata" o pregador marxista Jake Blount de uma bebedeira suicida. Leva-o para seu quarto na casa-pensão dos Kelly, onde a garota Mick vive a transição a caminho da adolescência entre os irmãos mais novos e os mais velhos. Benedict Copeland, um médico negro e idealista, completa o grupo de personagens principais.

Em comum, todos vivem a luta conta a pobreza em uma pequena cidade industrial do sul dos Estados Unidos. O país ainda está saindo da forte recessão, e chegam ecos da grande guerra na Europa e as atrocidades cometidas pelos nazistas em campos de concentração. Jake Blount é um andarilho determinado a despertar os trabalhadores de sua condição de explorados, enquanto o doutor Copeland vive em extrema modéstia oferecendo consultas gratuitas para os negros da cidade. O cenário geral é de miséria, e os discursos por justiça social são de deixar de cabelo em pé os leitores de pensamento mais conservador.

Se o enigmático John Singer cativa a atenção do leitor por sua aparente passividade silenciosa - um silêncio interrompido raras vezes por pequenos bilhetes - Mick é a personagem rebelde e adorável. Nela vemos muita da infância e puberdade da própria Carson McCullers. Nascida Lula Carson Smith, a autora foi ela mesma uma garota solitária e amante da música, dividida como Mick entre um "mundo de fora e um de dentro".

Título belíssimo tirado de um verso de William Sharp, "O coração é um caçador solitário" foi publicado quando Carson McCullers tinha apenas 23 anos de idade. É classificado como um romance gótico por seus personagens estranhos e rebeldes, mas esqueça qualquer associação desse adjetivo com a ideia de suspense ou sobrenatural. Muito embora o horror esteja presente em sua apresentação real, na forma de preconceito, violência racista, miséria e injustiça social.

De saúde frágil ao longo da vida, a autora morreria aos 50 anos. Sorte nossa leitores que sua obra não caia no esquecimento.


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sábado, 16 de fevereiro de 2019

A casa das sombrasA casa das sombras by Patricia Highsmith
My rating: 4 of 5 stars

Nos onze contos que formam a coletânea "A casa das sombras" há muito pouco espaço para o criminoso comum. Com doses variadas de melancolia, Patricia Highsmith revela nessas narrativas até onde pessoas ou grupos de pessoas são capazes de ir, levados por frustração, tristeza, desespero ou maldade. Cidadãos acima de qualquer suspeita, "gente de bem" que, sem empunhar uma faca ou puxar o gatilho de um revólver, e pelas razões mais fúteis, acaba sendo responsável pela morte de alguém.

Nem todos os contos envolvem crimes, o tema pelo qual a autora se tornou mais conhecida na literatura, adaptações para rádio, teatro e cinema. Há sugestões de fantástico, como em "Pavores da cestaria" e no comovente "A pipa". A fragilidade do ser humano é dissecada pela autora, que usa seu texto direto para levar o leitor a uma tensão crescente. Ainda que ninguém morra em alguns relatos, a leitura termina com um riso nervoso.


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sábado, 11 de agosto de 2018

A letra escarlate

O clássico lançado em 1850 teve adaptações para o cinema
Logo nas páginas iniciais de "A letra escarlate", Hester Prynne é indultada da pena de morte em troca de ser exposta por algumas horas à execração pública em um pelourinho, antes de ir para a cadeia na cidade de Salem, no século 17. O crime pelo qual é acusada é o adultério.

Hester, uma bela mulher, tem uma criança nos braços durante o interrogatório do clero da cidade, um assentamento de puritanos. Exigem que ela revele o nome do pai da menina, uma vez que seu marido está desaparecido há anos. A jovem recusa-se a dizer, e é 
presa.

Recebe a visita de um médico na prisão, a quem também não revela o nome. O homem anuncia que vai descobrir quem é o responsável pelo adultério, e jura vingança. Hester e sua filha, que recebe o nome de Pearl, são liberadas da prisão meses depois, e banidas da cidade. A jovem ainda deve usar a letra A vermelha pregada sobre o peito.

"A letra escarlate" que dá nome à obra é um A vermelho que remete a adúltera. Hester torna-se exemplo do pecado, um comportamento a não ser seguido, vergonha a ser evitada, objeto de olhares de reprovação. Vive isolada com sua filha em uma casa abandonada e afastada, e costura para os habitantes da cidade como subsistência.

Pearl vai crescendo, apresenta sinais de grande talento para aprender e começa a questionar a mãe sobre o A vermelho no peito. Um dos momentos mais tensos da narrativa é quando os líderes políticos e religiosos da cidade querem tirar a guarda da menina de Hester. O reverendo Arthur Dimmesdale intervém com uma forte argumentação teológica, e mãe e filha voltam juntas para casa.

Discursos, teologia e moralismo, aliás, marcam esse livro lançado em 1850. Foi um enorme sucesso de vendas, considerado um clássico da literatura, para alguns a melhor obra dos Estados Unidos. Nathaniel Hawthorne, ele mesmo um puritano, era neto de um dos juízes que participaram do julgamento do caso que ficou conhecido como "As bruxas de Salem". Seu texto é típico da literatura norte-americana do século 19, com longas descrições e poucos diálogos.

Na obra, o autor elabora extensas reflexões sobre questões morais, filosóficas, religiosas e comportamentais. O tema central é sempre o pecado, a culpa. O clima é de melancolia, e os três principais personagens adultos sofrem com seus fantasmas. Pela profundidade  das ideias e dos protagonistas, "A letra escarlate" é considerado um livro precursor do romance psicológico.

Falar em fantasmas na obra de Hawthorne, aliás, não é mera figura de linguagem. Há um toque de fantástico na aparição de um meteoro com o formato da letra A, uma doença misteriosa, suspeitas de experiências demoníacas, mulheres com aspecto de bruxas e um homem de negro com um livro sob o braço que vaga pela floresta. Cenas noturnas e situações sombrias temperam a trama.

Hester fica à margem da sociedade entre 1642 e 1649, quando sua sina começa a caminhar para um desfecho. A história ganha um ritmo de aventura que precede a grande revelação.

Nathaniel Hawthorne foi autor também de muitos contos e romances, como "O fauno de mármore" e o gótico "A casa das sete torres". A edição mais recente de "A letra escarlate" no Brasil saiu pelo selo Penguin Companhia, da Companhia das Letras. Há também uma edição de bolso da Best Seller.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Jack London, autor de vida e obra intensas

Jack London age 9 - crop
Jack London aos 9 anos, com seu cão Rollo, em foto de 1885
Há quem diga que a ideia de viver grandes experiências, fazer longas viagens e conhecer muitos lugares não é essencial para alguém se tornar um bom escritor. Mas Jack London viajou muito, foi de trabalhador infantil a vagabundo viajante clandestino em trens, pirata, marinheiro e presidiário, militante socialista e apoiador da Lei Seca, ele mesmo vítima dos abusos do álcool.

Se essas experiências já não bastassem para inspirar muitas obras, London ainda participou da corrida do ouro no fim do século 19, foi correspondente de guerra no conflito entre a Rússia e o Japão, em 1904, teve dois casamentos. Uma vida tão intensa combinou-se com a inclinação para o estudo e o autoaprendizado e uma grande dose de talento para fazer dele um dos escritores mais importantes dos Estados Unidos. Se não é essencial viver intensamente para escrever, London fez de suas aventuras o ingrediente de uma obra extensa e palpitante. Ao longo dos apenas 40 anos que viveu.

Durante muito tempo sua obra foi reduzida pelos críticos a "livros sobre cachorros", referência a títulos como "O apelo da selva" e "Caninos brancos". Com  adaptações para o cinema, TV e quadrinhos, essas emocionantes obras que falam de lealdade e sobrevivência tornaram London conhecido no mundo inteiro.

Aventuras em situações e ambientes hostis são uma constante nos romances, contos e memórias do autor. Impossível não se sentir na pele de um homem que luta pela sobrevivência, tentando acender fogo no frio extremo do Ártico, sob as vistas de um lobo velho e faminto que o espreita, na narrativa breve "Fazer uma fogueira".

Em seu romance curto "A praga escarlate", já em 1912 London antecipa um gênero hoje muito popular, a ficção científica distópica. Em um futuro então distante, no século 21, um avô, o professor Smith, conta a seus três netos fatos sobre a vida que eles desconhecem, como a epidemia que dizimou a população do planeta.

Quando ele fala em bilhões de habitantes, e as crianças não sabem sequer o que é um milhão, o velho professor pega um punhado de areia na praia e faz a analogia. Pela voz do personagem, London dá uma aula às crianças sobre germes, doenças e epidemias. Elas têm dificuldade de compreender como é possível acreditar em algo que não se vê, como bactérias. Uma dificuldade que muitas pessoas ainda tinham há um século.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Gótico de primeira

Autora é mestre no gênero de fazer medo

Shirley Jackson prova em We Have Always Lived in the Castle que é possível construir uma boa narrativa de horror sem recorrer a criaturas sobrenaturais, possessões demoníacas ou casas mal-assombradas. Os três “sobreviventes” dos Blackwood vivem isolados num casarão retirado, hostilizados por toda uma comunidade por conta de um crime que vitimou a maior parte da família.

Não há barulhos noturnos de correntes sendo arrastadas ou sussurros atrás das paredes. A autora vai construindo uma história de psicopatia e loucura. O leitor vai sendo cuidadosamente levado a concluir uma verdade dura demais para ser aceita, mas que se confirma a crua solução do mistério no desfecho da história.

We Have Always Lived in the Castle não está disponível em português, mas vale o esforço de leitura mesmo para quem tem pouca familiaridade com o inglês. Trata-se de uma obra impecável para quem aprecia uma boa narrativa do gênero. Shirley Jackson (1916 – 1965) é a autora de A casa amaldiçoada, levada ao menos duas vezes às telas do cinema e inspiradora de várias obras similares.

Curiosidade (spoiler muito leve): difícil deixar de pensar que a leitura de We Have Always Lived in the Castle não tenha influenciado os roteiristas que criaram Hannah McKay, a viúva negra do seriado de TV Dexter.


sábado, 6 de agosto de 2016

Estímulo à criatividade

Leitura rápida e saborosa; e tem em português

Ray Bradbury transformou praticamente cada episódio de sua vida em um conto, romance, peça teatral ou roteiro. O resultado são dezenas de obras, com destaque para Fahrenheit 451, narrativa de um futuro distópico em que os livros foram banidos por estimular o pensamento crítico nos leitores. A obra foi levada ao cinema por François Truffaut.

Zen e a arte da escrita reúne ensaios em que o autor norte-americano fala de sua rotina de escritor desde a adolescência, de como transformava listas de palavras, acontecimentos banais, amores e ódios em ficção. Bradbury escreveu muito, principalmente ficção científica, mas era um artista versátil. Foi convidado por John Huston para escrever o roteiro da adaptação para o cinema do clássico Moby Dick, de Herman Melville.

Essa coleção de ensaios sobre criatividade é uma leitura rápida e saborosa, como a maior parte dos contos de Bradbury. E fazem pensar um bocado, como alguns títulos de sua obra. O risco desse estímulo ao pensamento crítico é o desejo de transformar experiências e ideias em textos.

Justamente o medo dos regimes fundamentalistas e totalitários que acabam preferindo resolver o “problema” pelo fogo, a 451 graus Fahrenheit.

sábado, 16 de julho de 2016

Crime, culpa e castigo

O livro tem uma bela - e muito adequada - edição
Um livro todo negro, um título que remete à ausência de luz e quatro contos que falam sobre crime e culpa. Um pacote bem feitinho para os fãs de Stephen King, mas vale saber que de sobrenatural essa obra tem pouco, e esse pouco é justamente a narrativa mais fraca de Escuridão total sem estrelas

O melhor conto é o primeiro, 1922. O título se refere à data em que se passam os episódios envolvendo uma família de agricultores - mãe, pai e filho. O cenário é  uma propriedade rural que a mulher deseja deixar para trás, à revelia de seu marido, que acaba levando o filho à cumplicidade em um plano criminoso.

O que se desenrola é um crescendo de alucinação e culpa, que resulta em uma espiral de mais crimes e remorso. King sugere o sobrenatural, mas o horror está no mundo real, no interior da mente dos personagens.

Gigante do volante também é um bom conto, mas o autor cai no seu defeito de se enrolar um pouco na narrativa. Perdendo fluidez em alguns momentos, a leitura ainda assim se segura porque King consegue manter a expectativa pelo que virá a seguir. Como os personagens vão agir, quais serão as transformações no comportamento das pessoas. E, claro, o leitor se pega pensando no que faria no lugar dos envolvidos na trama.

A narrativa de vingança resvala um tanto para o inverossímil, mas funciona. King só abusa do cacoete de contrapor, com algumas palavras após o que seria o ponto final, o que acaba de afirmar nas últimas linhas. É um recurso de estilo que torna o texto um tanto chato e previsível. Você sabe que ao final de quase todo parágrafo ele vem com esse contraponto.

Extensão justa é o conto mais curto, o único de conteúdo sobrenatural e destoa do livro. Não chega a comprometer muito a experiência da leitura, uma vez que também é a narrativa mais curta. Mas é um conto que qualquer fã bem treinado do autor poderia ter escrito.

Em Um bom casamento King também não recorre ao sobrenatural e volta ao tema de violência contra a mulher. No posfácio do livro, o autor fala de onde tirou inspiração para os quatro contos, esse último deles praticamente a reprodução de um caso real. King faz uma crítica nada velada que poderia muito bem ter sido inspirada nos recentes fatos ocorridos no brasil, em que a mulher é a primeira suspeita de uma violência que sofreu. Mas o autor está falando de seu próprio pais, os Estados Unidos, e o livro foi lançado em 2009.

Escuridão total sem estrelas tem 390 página e tradução de Viviane Diniz. Foi lançado em edição muito bem feita da Suma de Letras: o título é impresso em verniz cinza-escuro sobre a capa preta, mesma cor das lombadas. Nada mais apropriado ao autor e ao título do livro.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Terror real

Mergulho em águas subterrâneas, em busca da caverna mais profunda

Muita gente não gosta do escuro. A ideia de estar em lugares apertados é desconfortável para outros. Acrescente o fato de que sua respiração depende de um aparelho, um protótipo que pode falhar. Junte tudo à realidade de estar nadando em uma área alagada, sob a terra, sem saber ao certo o que vai encontrar pela frente. Uma saída ou um salão fechado.

Apavorante? Essa é a realidade enfrentada por exploradores de cavernas, especialmente os que elegem as supercavernas como objetivo de suas pesquisas. Ou conquistas. É também o tema de Blind descent - The quest to discover the deepest place on Earth, livro que beira o incrível de James M. Tabor, escritor e também praticamente de aventuras extremas.

Tabor coloca o leitor em cada situação que um espeleólogo - explorador de caverna - tem de enfrentar: a escuridão permanente, descidas por paredões sob água fria, mergulhos em canais subterrâneos, arrastar-se por túneis apertados. A descrição é precisa, pois o autor viveu várias dessas situações. Me senti tenso com frequência durante a leitura, talvez porque durante alguns anos vivi a emoção de passar horas dentro de cavernas no vale do Ribeira (SP).

Mas nunca cheguei perto dos desafios enfrentados pelos personagens de Blind descent, cuja meta é atingir o ponto mais profundo do planeta Terra. Tabor descreve uma história similar à de Scott e Amundsen, na corrida para quem chegava primeiro ao Pólo Sul do planeta, no começo do século passado. No livro, em lugar de um inglês contra um norueguês, é uma equipe norte-americana contra ucranianos. Uns exploram a caverna Cheve, no México, outros Krubera, na Geórgia.

A narrativa cobre um longo período, até o desfecho, em 2004. E é eletrizante. Pena que nenhuma editora brasileira tenha descoberto o potencial dessa aventura, disponível para ler - ou ouvir - em inglês.

sábado, 23 de abril de 2016

Fundação me conquistou

Surge a primeira mulher na trama

Não havia ficado muito impressionado com “Fundação”, o primeiro título da festejada trilogia de Isaac Asimov. Terminei a leitura com uma sensação de confusão, sentindo saudades dos dilemas sobre inteligência artificial apresentados nos contos do autor sobre robôs.

Mas gostei de “Fundação e Império”, onde a trama político-social que envolve a galáxia ganha corpo e sentido. As forças se movimentaram e o poder está em jogo, uma disputa que motiva à leitura do terceiro volume, “Segunda Fundação”.


Sim, e em “Fundação e Império” finalmente surge uma mulher, e ela tem um papel decisivo na trama. Mas ainda é preciso que ela cumpra tarefas domiciliares. Asimov previu muita coisa, mas ao contrário de seu profeta científico Hari Seldon, foi humanamente incapaz de antever todo o futuro.

terça-feira, 29 de março de 2016

Clima sombrio

O autor fica devendo um desfecho mais original


The Haunted, de Bentley Little, começa como uma novela sobrenatural comum mas promissora. Comum porque se apoia em elementos recorrentes em histórias do gênero, como a família composta por pai, mãe e um casal de filhos, que vai viver em uma pequena cidade.

Naturalmente, a casa é antiga e tem um porão, de onde emana um cheiro ruim. O autor consegue criar um clima sombrio e assustador, porém a trama vai se desenvolvendo sem muita coerência e criatividade. Por vezes, Bentley Little parece não saber muito bem como resolver e partir para um desfecho.





domingo, 20 de dezembro de 2015

Se você é impressionável, não leia sozinho

Entre outras obras, livro inspirou de Arquivo X a Prometheus

Nem todo texto de Howard Phillips Lovecraft seduz o leitor que se dispõe a conhecer sua obra, que passou por fases bem oníricas. A fim de apreciar melhor as “viagens” do autor, vale começar por um título como Nas montanhas da loucura, publicado em fascículos em revistas populares em 1931.

O livro traz o relato, feito em primeira pessoa, de uma expedição científica à Antártica. Bem ao estilo do autor, é um sobrevivente que relata os resultados da incursão a territórios antes inexplorados, e que, defende o narrador, devem se manter assim para o bem da humanidade.

O tom de alerta se justifica porque os pesquisadores que voaram em direção ao pólo sul se defrontam com montanhas gigantescas, guardiãs de segredos de civilizações que antecederam a humanidade em milhões de anos. Depois que os contatos por rádio silenciam, o narrador vai em busca do local do acampamento, onde encontra morte e destruição em meio a montanhas e construções arquitetônicas titânicas.

A exploração de túneis colossais vai revelando vestígios de civilizações ancestrais. Enquanto a interpretação das obras arquitetônicas e esculturas vai revelando a terrível guerra entre alienígenas que chegaram ao planeta e se dividiram entre o fundo dos oceanos e a terra firme, odores e galerias misteriosas permitem descobrir o trágico destino dos exploradores desaparecidos.

O clima criado pela narrativa de Lovecraft mais do que justifica o fato de tantos autores de livros e filmes se inspirarem livremente em sua obra. No ambiente gelado e desértico das regiões mais remotas do continente antártico, surge boa parte da mitologia criada pelo autor. Criaturas de formas, tamanhos  e organismos desconcertantes como Mi-gos, Cthulhu, Celephais e Innsmouth são apresentados ao leitor.

Se você gosta de ficção científica e admira a obra de Lovecraft, não perca mais tempo. Essa história é um deleite. Se você é muito impressionável não deixe para ler Nas montanhas da loucura quando a família inteira viajou e está sozinho em casa.





segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Relatos de amargura

Leitura de preferência para quem não está em depressão

Escritora premiada, professora universitária de prestígio, cotada para o Nobel de Literatura, Joyce Carol Oates ainda encontra tempo para ser muito produtiva: publicou mais de 40 obras desde 1963, quando seu primeiro livro foi lançado. É também uma boa demonstração de que quantidade não equivale a qualidade.

Sourland foi lançado em 2010, e preserva as principais características de Oates: textos muito bem escritos que dissecam os sentimentos mais profundos dos personagens. Mas os 16 contos do livro não estão entre os melhores da autora.

Mais uma vez, os personagens centrais são mulheres, e as histórias envolvem violência sexual. Impossível não notar a inspiração na obra de Shilrley Jackson, autora, entre outros, do clássico The hounting of hill houseOates é admiradora confessa da escritora morta em 1964, e editora do seu volume na coleção The library of America

Oates é dona de um estilo mórbido, violento e chocante, como quando constrói o momento de um estupro, a transição de uma cena doméstica banal em torno de um copo de vinho para a violência despertando no comportamento psicótico do atacante.

Há muita criatividade envolvida nas histórias, como uma assustadora "aparição" de uma cabeça de abóbora. Mas as narrativas são repetitivas, e algumas tramas são pouco conclusivas.

Sourland é para aqueles fãs incondicionais que fazem questão de ler tudo de seu autor preferido. Mas há obras mais indicadas para quem ainda não conhece Joyce Carol Oates, como Mulher de barro e Descanse em paz, este reunindo relatos sobre os últimos dias de cinco grande escritores.

sábado, 22 de agosto de 2015

Decepção

A "nova obra" de Harper Lee ainda não tem título em português

55 anos após o lançamento de O Sol é para todos, Harper Lee anunciou o lançamento de sua sequência, que na verdade, conta a autora, havia sido escrita antes. Ao longo de todo esse tempo, To kill a mockingbird, título original da obra, ganhou um prêmio Pulitzer, foi transformada em filme de sucesso e nunca deixou de vender e emocionar de estudantes secundaristas ao público geral dos Estados Unidos.

O anúncio de Harper Lee despertou uma nova onda de interesse por sua obra de sucesso. O sol é para todos ganhou novas edições, inclusive no Brasil. Um livro tocante e de leitura deliciosa, embora incômoda pelo tema. Daí a decepção com Go set a watchman, título extraído de uma citação da Bíblia e ainda sem tradução para o português.

Segundo a autora, o novo título seria um rascunho de To kill a mockingbird. Como Go set a watchman se passa 20 anos após os episódios de O Sol é para todos, a comparação é inevitável, assim como a expectativa em relação aos personagens. Jean Louise, a travessa e voluntariosa Scout, reaparece com um verniz de Nova York, cidade onde passou a viver. Mas ainda é um personagem reconhecível.


Scout (Mary Badham) e Atticus, seu pai, vivido por Gregory Peck
Quanto aos demais, Harper Lee frusta com mudanças de crenças e valores. Destrói um herói que marcou gerações de leitores. Isso em uma trama confusa, que em muitos trechos se arrasta em diálogos quase incoerentes, e em outros expõe uma desconexão com O Sol é para todos. Afinal, rascunho ou não, ela está falando das mesmas pessoas e situações?

A leitura de Go set a watchman foi despertando um interesse crescente à medida que o fim do livro se aproximava. Fiquei aguardando uma virada na trama. Não posso falar muito, em respeito a quem ainda vai ler o livro. Mas minha experiência foi decepcionante.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Fantasmas reais

A autora inspirou de Neil Gaiman a Stephen King

Shirley Jackson tornou-se conhecida por conta de sua novela The haunting of hill house, traduzida como Assombração da casa da colina. Publicada em 1959, foi adaptada para o cinema em 1963 e 1999. Narra a história de pessoas reunidas em uma casa com reputação sobrenatural por um pesquisar que quer investigar fenômenos aparentemente inexplicáveis, até que cosias começam a acontecer. Um roteiro explorado muitas vezes, em outros livros e filmes.

The lottery reúne 25 contos, incluindo o que dá título à antologia. São histórias sem fantasmas, monstros ou eventos sobrenaturais. Talvez por isso, mais assustadoras. O mal não vem de fora, está no próprio ser humano, capaz de atitudes cruéis. Não há violência física entre os personagens, mas opressão psicológica por vezes apenas sugerida, mas que cria uma atmosfera de opressão.

Uma curiosidade é que todos os contos giram em torno de mulheres. Solidão, abandono, dúvida, preconceito e machismo se revezam ao redor das protagonistas. Em um diálogo, a jovem grávida recém-casada argumenta: “Penso que um casamento bem-sucedido é responsabilidade da mulher.”

Em algum momento, as tramas são quase repetitivas, fazendo de Nova York um cenário que pode ser fascinante, mas também opressivo. Um dos contos, porém, até agora foi a melhor descrição de um ataque de síndrome do pânico que já li. A autora cria uma forte empatia com a personagem, mas você não pode fazer nada por ela.

Shirley Jackson morreu cedo, aos 48 anos, em 1965. The lottery, o conto mais perturbador dessa antologia, foi publicado originalmente na revista The New Yorker, em 1948. Causou uma repercussão enorme no público, o que levou a autora a publicar uma resposta, um mês depois:

“Explicar exatamente o que eu esperava com a história é muito difícil. Imagino que, definindo um rito antigo particularmente brutal no presente e em meu próprio vilarejo, chocaria os leitores com uma dramatização gráfica da violência sem sentido e desumanidade geral em suas próprias vidas.”

domingo, 31 de maio de 2015

Matar um rouxinol

Lançado em 1960, o livro ganha uma sequência este ano

Semanas antes de completar 89 anos (foi em 28 de abril), a escritora norte-americana Harper Lee reapareceu na mídia anunciando que a sequência de O sol é para todos, escrita há 60 anos, chegaria finalmente às livrarias ainda em 2015. Bastou para que uma nova onda de interesse promovesse sua obra lançada em 1960, premiada com o Pulitzer no ano seguinte e com o Oscar de melhor roteiro adaptado em 1962, ao ser levada para o cinema.

Em meados dos anos 1930, na pequena cidade fictícia de Maycomb, Alabama, sul dos Estados Unidos, Scout, uma garota de oito anos de idade, vive com seu irmão Jem e o pai viúvo, o advogado Atticus Finch, sob a tutela de Calpúrnia, uma empregada negra. A memória da Guerra da Secessão ainda é presente e o preconceito racial, muito forte.

Scout (na verdade, Jean Louise) narra sua visão do mundo, da pobreza, da velhice e da questão racial pelo olhos de uma criança. O sol é para todos começa leve, divertido, mas vai surgindo a impressão, a princípio sutil, de que a harmonia entre os habitantes não é boa.

Com a evolução da trama, questões como fazer justiça, dignidade humana e honra profissional se impõem aos irmãos. Muito da inocência vai ficando para trás, mas eles ainda são crianças, e o alívio cômico das travessuras faz um contraponto com os momentos de maior dramaticidade. O texto de Lee Harper faz sentir saudades da infância.

Após mais de meio século, O sol é para todos continua sendo uma obra incrivelmente atual. Especialmente no momento em que a questão racial volta à pauta nos Estados Unidos, a Europa se vê às voltas com o problema da imigração, a intolerância religiosa se converte em violência no mundo e temas como a criminalidade e a maioridade penal são discutidos no Brasil, abrindo espaço para propostas grotescas e medievais.

Ainda sem título em português, Go set a watchman foi oferecido pela autora às editoras antes até de To kill a mockinbird, nome original de O sol é para todos. A obra narra a vida pessoal de profissional de Scout cerca de 20 anos após os eventos que marcaram sua infância em Maycomb.

A versão em português do novo livro deve chegar ao Brasil no segundo semestre.

domingo, 24 de maio de 2015

O sombrio rei de amarelo

A leitura do texto da peça leva as pessoas à loucura

Uma das piores coisas que podem ocorrer a uma obra de arte é o esquecimento. As editoras podem deixar de investir em novas edições de um título, os lançamentos se sucedem e o livro perde espaço nas estantes mais visíveis das livrarias. Ao longo de décadas, ele desaparece, ou fica limitado a círculos restritos de leitores. Até que um "acaso" o resgata. Foi o que aconteceu com O rei de amarelo, do norte-americano Robert W. Chambers, lançado em 1895 e citado na festejada série de TV True detective.

O livro foi lançado no Brasil há um ano pela Intrínseca, com tradução de Edmundo Barreiros e ótima introdução de Carlos Orsi. O rei de amarelo na verdade é uma peça teatral cuja leitura leva as pessoas à loucura. Qualquer semelhança com o Necromicon, de H. P. Lovecraft não é merca coincidência: o escritor de Providence leu Chambers. Sua influência é reconhecida também por Raymond Chandler a Neil Gaiman, passando pelo onipresente Stephen King. Chambers, por sua vez, toma emprestado vários nomes e termos criados pelo escritor Ambrose Bierce.

O rei de amarelo é um "personagem" dos primeiros contos do livro, tramas distintas mas interligadas ao menos pela citação da obra maldita. As narrativas transitam entre o gótico, o fantástico, o romance e a ficção científica, numa intrigante atmosfera de mistério e viagens oníricas. O primeiro conto envolve um sr. Wilde, que remete diretamente a Oscar Wilde, como um "reparador de reputações".

Já na que pode ser considerada a segunda parte do livro, Chambers inspira-se livremente em seu passado como pintor de quadros, e ambienta suas narrativas em Paris, particularmente no Quartier Latin povoado de estrangeiros estudantes de arte. A vida libertina e amores impossíveis são tema recorrente, com um leve toque de fantasia e a influência da pintura: há momentos em que o autor "pinta" cenas em seus textos.

Esses contos também são interligados, com várias e repetidas referências internas. Em "A rua da primeira bomba", Chambers envolve o leitor na angústia de uma Paris sob cerco do exército da Prússia e no desespero de um personagem que se lança ao front de batalha.

Chambers morreu em 1933, rico e famoso por romances água-com-açúcar dos quais ninguém se lembra mais. Nem fazem falta. Mas a volta de O rei de amarelo para as prateleiras das livrarias é um verdadeiro prêmio para quem aprecia literatura fantástica.

domingo, 17 de maio de 2015

"Mais nojenta do que um purgante"

O autor gostava de balas e doces. Mas queria beber como os homens
Jack London é mais conhecido por Caninos brancos e O apelo da selva, obras que retratam parte das aventuras do autor na Corrida no Ouro, nos extremos gelados da América do Norte. Quem se dá ao trabalho de ler as poucas páginas - por vezes linhas - dedicadas a apresentar o autor nos livros, fica sabendo que London viveu pouco - 40 anos - e intensamente. Memórias alcoólicas é um relato em que fala de um personagem que o acompanha desde os 5 anos de idade, John Barleycorn. O "pé-de-cana", ou álcool.

É um livro em tom de confissão, em que o "poder social" das bebidas alcoólicas e dos ambientes e situações em que elas são consumidas são apresentados e comentados por London, que, curiosamente, afirma insistentemente não gostar das bebidas:  "O álcool tinha sido para mim ma coisa assás repugnante - mais nojenta do que um purgante. Até hoje não suporto o gosto."

Mas "a taverna era o lugar da congregação", onde London fazia amigos, arrumava trabalho, afirmava sua masculinidade, era aceito entre homens feitos, alimentava sua sede de aventura. E era ainda apenas um adolescente, que preferia correr secretamente para o quarto com um livro na mão e os bolsos cheios de "balas  de canhão", um puxa-puxa que podia durar uma hora.

Ainda criança, poucos anos antes do começo do século 20, Jack London trabalhava em fábricas insalubres, por longas jornadas de até 20 horas e salários minguados. Adolescente, voltou a enfrentar a mesma exploração como carvoeiro em uma empresa de eletricidade, fazendo o trabalho de dois homens por 29 dias seguidos, com um dia de folga por mês.

Em muitos momentos, John Barleycorn era uma fuga. A leitura de Memórias alcoólicas chega a cansar em alguns trechos com a repetição insistente desse nome. London se afasta da bebida por longos períodos, diz poder deixar de beber quando deseja, mas volta até uma fase melancólica de sua vida. Termina defendendo apaixonadamente a proibição do álcool, em discussão nos EUA na época. Isso justificou seu apoio ao direito das mulheres ao voto.

Autodidata, Jack London era dono de uma disciplina de ferro. Quando se determinou a viver de escrever, produzia religiosamente mil palavras por manhã. Escreveu muito, sobre suas aventuras, suas convicções políticas, prisões, sobre John Barleycorn, sobre o medo da morte. Até o dia em que ela levou a melhor.