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domingo, 21 de abril de 2019

PollyannaPollyanna by Eleanor H. Porter
My rating: 2 of 5 stars

Ver-me sem nada para ler e com um livro gratuito no celular me levou a matar a curiosidade sobre a origem da expressão "ser Poliana". Bom, sabia que a origem era o livro "Pollyanna", nome de uma garotinha que exala otimismo. Mas ler o livro infantil de Eleanor H. Porter é diferente, uma experiência que não me agradou.
Gosto de vez ou outra ler um livro infantil ou infanto-juvenil, mas "Pollyanna" ficou abaixo de minhas expectativas. O "jogo" da menina órfã, de procurar o lado positivo nas piores situações e atitudes, mais do que justifica a fama da obra, a origem da expressão e as muitas adaptações feitas para TV, teatro e cinema. Mas achei o livro ruim. Pollyanna transita em um mundo de adultos amargurados e ressentidos, muitas vezes por se comportar de maneira mais infantil do que a menina. Com sua visão inocente, ela acaba sendo a mais madura em várias situações.
A autora emenda uma cena em outra para que Pollyanna chame as pessoas ao bom senso. Em mais de uma passagem, dá saltos de continuidade quando parece querer resolver logo uma situação e passar para outra. E termina a história de maneira abrupta.
Enfim, "Pollyanna" tem suas lições de moral e muita pieguice. Nada que minha avó não resumiria em uma frase quando eu não estava disposto a comer alguma coisa: "Pense em quantas crianças não tem nem isso para comer."


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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Olhar sem ver

Perturbadora fábula em que não se pode ver quem está ao lado  

Os verbos "desver", "desouvir" e "dessentir" são usados com frequência nessa obra do escritor e ativista político britânico China Tom Miéville. E querem dizer exatamente o que sugere sua leitura: você vê, mas não pode enxergar o que está vendo, escuta sem ouvir, sente, mas não apreende. Alguma familiaridade com relação ao motorista que "desvê" o pedinte tanto à janela de seu carro parado no semáforo?

Para não correr o risco de estragar a experiência da leitura de "A cidade e a cidade", isso é mais do que o bastante para falar da experiência de viver em Beszel ou Ul Qoma. As duas cidades que justificam o título do livro ocupam o mesmo espaço geográfico, mas são separadas por idiomas, culturas e administrações diferentes. Ver algo ou alguém da outra cidade é um grave delito.

O assassinato de uma jovem estudante envolve o inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Hediondos de Beszel. É o começo de uma trama policial com traços de distopia, no cenário desconcertante das cidades vigiadas pela misteriosa e onipresente Brecha, capaz de interferir ao mínimo deslize dos cidadãos. 

Adendo da editora Boitempo lembra que "A cidade e a cidade" foi publicado no Brasil em 2014, ano em que se celebrou o aniversário de 25 anos da queda do Muro de Berlim. E também fazia 20 anos que os EUA começaram a construir seu muro na fronteira do México e 12 que Israel fazia o mesmo na Cisjordânia, entre outras obras de separação física em curso no mundo.

Assim como as duas cidades imbricadas, a leitura desse livro oferece várias interpretações. Chamar de ficção científica ou distopia urbana é pouco, até porque a tecnologia retratada na obra é quase toda contemporânea. Miéville tem sido enquadrado na categoria de um autor de weird fiction, ou ficção estranha. Mas, querendo, basta pensar um pouco e olhar em volta para enxergar muitos paralelos na cidade onde você mesmo vive.

"A cidade e a cidade" foi lançado originalmente em 2009. Para chegar ao Brasil, passou pela tradução desafiadora e competente de Fábio Fernandes.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Aula magna de cidadania


Livro vai muito além de uma simples história de amor

Imaginava ter a mínima noção sobre a chamada "questão racial", e, ao fim da leitura de "Americanah", a conclusão foi que - sim - minha noção  era mínima. Do alto de suas tranças elaboradas, Chimamanda Ngozi Adichie dá uma aula sobre o tema, falando sobre cultura, culinária, música, política, trabalho, relacionamentos e... cabelos!

A jovem estudante Ifemelu parte de uma Nigéria envolta em tramoias políticas e corrupção para encarar uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Mas deve trabalhar e ganhar dinheiro para custear sua permanência, um desafio que se torna ainda maior por ela não querer abrir mão de suas convicções e raízes culturais. E por rapidamente perceber que, em questões básicas de cidadania, o negro africano é "diferente" do afro-americano, que por sua vez não é igual aos latinos e seus descendentes que convivem nos Estados Unidos.

"Americanah" retrata o período que antecede a primeira eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos. A sensação de quase incredulidade dos estrangeiros que, como Ifemelu, acompanham as etapas finais de sua chegada à Casa Branca. A vivência de Chimamanda resultou uma obra tocante e esclarecedora até para quem se dá por informado e bem intencionado.

Como estarão se sentido e o que vão escrever as "Ifemelus" vivendo hoje sob a era Trump?