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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Crooked HouseCrooked House by Agatha Christie
My rating: 3 of 5 stars

Agatha Christie dizia que "A casa torta" era um de seus romances preferidos. É também o escolhido entre os melhores para alguns fãs da autora. Entre ouras curiosidades, não conta com a participação do célebre detetive belga Hercule Poirot, nem com Miss Marple.
Mas é uma novela policial com as principais características da autora. Um crime, um grupo de pessoas que podem tê-lo cometido. A originalidade, em "A casa torta", fica por conta de a investigação ficar a cargo da Scotland Yard, mas com participação especial de um dos envolvidos na trama - ainda que de forma indireta.
Todo cuidado nesse comentário é pouco para não estragar a surpresa dos leitores na leitura dessa trama, cuja publicação completa 70 anos agora em 2019. Mas praticamente todos que poderiam ter cometido o crime não tinham motivo para isso. Há toques de sarcasmo com relação a comunistas, católicos e mesmo Sherlock Holmes. E a solução do caso é ousada e surpreendente.


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domingo, 14 de outubro de 2018

Conan Doyle perdido no vale do terror

Sherlock Holmes é o caso típico do personagem que ficou maior do que seu criador

Como outras obras de Conan Doyle, O vale do terror foi publicado primeiro em folhetim na Strand Magazine, entre setembro de 1914 e maio de 1915. O lançamento em livro foi em fevereiro de 1915. É um dos últimos trabalhos envolvendo Sherlock Holmes e seu amigo doutor Watson. E uma das narrativas menos interessantes do famoso detetive.

Conan Doyle usa o mesmo recurso de Um estudo em vermelho, sua primeira obra, lançada em livro em 1888. A trama é dividida em duas partes. Na primeira, Sherlock Holmes desvenda o mistério que envolve um assassinato na Inglaterra. Na segunda, a narrativa migra para os Estados Unidos, onde os bastidores que levaram ao crime são esclarecidos.

Se em Um estudo em vermelho Conan Doyle usa a vida dos mórmons dos Estados Unidos como pano de fundo, em O vale do terror o foco são os maçons. Em sua obra, o autor recorre mais de uma vez a sociedades secretas a fim de construir suas tramas. Esse fato, além da repetição de enredos e técnicas de dedução de Holmes, vão levando as histórias a perder em vigor e originalidade.

As situações e o comportamento de personagens em O vale do terror são caricatos. Conan Doyle parece não se ter esforçado muito para construir essa narrativa. Sabemos que ele já não nutria grande motivação por Homes, desde que havia tentado matar o personagem, 21 anos antes. 

A leitura pode ser interessante para quem ainda não leu nenhuma aventura de Sherlock Holmes. Caso contrário, é indicada para os muito fãs do detetive.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Olhar sem ver

Perturbadora fábula em que não se pode ver quem está ao lado  

Os verbos "desver", "desouvir" e "dessentir" são usados com frequência nessa obra do escritor e ativista político britânico China Tom Miéville. E querem dizer exatamente o que sugere sua leitura: você vê, mas não pode enxergar o que está vendo, escuta sem ouvir, sente, mas não apreende. Alguma familiaridade com relação ao motorista que "desvê" o pedinte tanto à janela de seu carro parado no semáforo?

Para não correr o risco de estragar a experiência da leitura de "A cidade e a cidade", isso é mais do que o bastante para falar da experiência de viver em Beszel ou Ul Qoma. As duas cidades que justificam o título do livro ocupam o mesmo espaço geográfico, mas são separadas por idiomas, culturas e administrações diferentes. Ver algo ou alguém da outra cidade é um grave delito.

O assassinato de uma jovem estudante envolve o inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Hediondos de Beszel. É o começo de uma trama policial com traços de distopia, no cenário desconcertante das cidades vigiadas pela misteriosa e onipresente Brecha, capaz de interferir ao mínimo deslize dos cidadãos. 

Adendo da editora Boitempo lembra que "A cidade e a cidade" foi publicado no Brasil em 2014, ano em que se celebrou o aniversário de 25 anos da queda do Muro de Berlim. E também fazia 20 anos que os EUA começaram a construir seu muro na fronteira do México e 12 que Israel fazia o mesmo na Cisjordânia, entre outras obras de separação física em curso no mundo.

Assim como as duas cidades imbricadas, a leitura desse livro oferece várias interpretações. Chamar de ficção científica ou distopia urbana é pouco, até porque a tecnologia retratada na obra é quase toda contemporânea. Miéville tem sido enquadrado na categoria de um autor de weird fiction, ou ficção estranha. Mas, querendo, basta pensar um pouco e olhar em volta para enxergar muitos paralelos na cidade onde você mesmo vive.

"A cidade e a cidade" foi lançado originalmente em 2009. Para chegar ao Brasil, passou pela tradução desafiadora e competente de Fábio Fernandes.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Crenças e descrenças

Leitura rápida, divertida. E que faz pensar

Deuses dependem de pessoas que acreditem neles. Essa é a essência de "Pequenos Deuses", obra que com muito humor questiona as motivações das crenças da pessoas, como elas podem ser manipuladas e o que move as religiões (algumas, todas?). Leitura rápida, divertida e capaz de despertar muitas reflexões, desde que o leitor esteja aberto a questionamentos.


sábado, 20 de agosto de 2016

A antologia reúne 22 contos escolhidos pelo autor


Trinta anos da obra do autor britânico são cobertos pela antologia Man in his time: the best science fiction stories of Brian W. Aldiss, que reúne 22 contos escolhidos pelo próprio escritor. A seleção cobre vários temas visitados por Aldiss, da ciência presente ao futuro, distopias, alienígenas e até um toque de humor.

A qualidade das tramas é desigual, a começar de Super-toys las all summer long, conto que Stanley Kubrick programou fazer mas foi executado por Steven Spielberg. O filme Inteligência artificial é melhor do que o texto.

Entre outras narrativas, gostei de All the World's Tears, mas minha história preferida nessa antologia é Last orders. Divertidíssimo, o conto acompanha um policial encarregado de evacuar uma cidade - Londres? - diante da iminência do fim do planeta Terra, que será atingida por um fragmento desprendido da Lua. Encontra um casal bebendo tranquilamente em um bar, e a urgente retirada é a todo momento adiada em um diálogo intercalado por "mais uma dose".

Curiosamente, Arthur Dent e o alienígena Ford Prefect, de Guia do mochileiro das galáxias, dedicam os últimos minutos de sua permanência na Terra - antes de sua destruição - em um pub. A famosa obra de Douglas Adams foi veiculada primeiro como série transmitida pela rádio BBC 4, em 1978. No ano seguinte, foi publicada como livro, transformado em filme em 2005. O conto Last orders foi publicado em 1977.

Minha opção por conhecer a antologia por audiolivro não foi muito boa: a dicção, clareza, entonação e ritmo do narrador Arthur Blake não são dos melhores. Há suspiros no meio da leitura, vazamento de ruídos de páginas viradas e até de Blake engolindo.

domingo, 29 de maio de 2016

Leitura de férias

Duas caras bem conhecidas do público nerd


Até entre as pessoas que não gostam de livros e leitura, Sherlock Holmes é um nome e uma imagem: o detetive sabichão, de cachimbo na boca e o amigo e auxiliar que vivia ouvindo a afirmação pouco modesta: “Elementar, meu caro Watson!”.

O fato é que o médico e companheiro John Watson – narrador das aventuras de Holmes - jamais ouviu essa frase, que se tornou tão popular quanto o detetive. Não importa: ao resolver cada caso com seu método de observação e dedução, o detetive sempre fazia quem estava acompanhando as investigações se sentir “menos”.

Afinal, a solução sempre era óbvia, desde o princípio; testemunhas, Watson e a própria Scotland Yard é que não enxergavam. Elementar.

Arthur Conan Doyle criou Sherlock Holmes no fim do século 19, e o detetive protagonizou romances e aventuras por décadas. Algumas resvalaram pelas fronteiras do sobrenatural, como a ótima O Cão dos Baskervilles.

Mas alguma coisa tornou-se quase repetitiva, como este As aventuras de Sherlock Holmes que me acompanhou em minhas últimas férias. O detetive sempre solicita a presença de Watson com o mesmo argumento, sempre resolve o mistério, mas nem sempre a trama é criativa.

Exceção nesse livro de 12 contos é Um escândalo na Boêmia. A narrativa é curta, mas cria e sustenta a intriga. Vale a leitura e depois conferir a versão produzida pela britânica BBC na série  Sherlock. A dupla principal é interpretada por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman. 

Holmes não é nem um grau menos arrogante nesta adaptação – uma de muitas feitas para o teatro, cinema e TV -, mas a interpretação do personagem e sua interação com o “doutor Watson” é impagável.

Desafio moleza para nerds: Cumberbatch e Freeman têm algo em comum na obra de outro inglês famosíssimo. Essa é mais fácil que resolver um dos mistérios de Sherlock Holms.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

"O cão é que morreu"

A obra foi adaptada três vezes para o cinema

O texto de Somerset Maugham é fluido e elegante. Adultério, mentiras, falsidade e amores frustrados cercam os personagens principais. As fortes emoções que envolvem Kitty Fane são descritas com apuro, e fazem do leitor um refém da angústia que afeta não só a protagonista da trama, mas todos que estão ao seu redor.

Em meio a decisões extremas e uma epidemia de cólera que dizima a população na China rural, a bondade – segundo o autor – parece sobreviver apenas em um convento de devotadas freiras que cuidam dos pobres chineses doentes.

O véu pintado é uma história de arrependimento, com passagens de folhetim que justificam o fato de ter sido adaptada três vezes para o cinema. Como pano de fundo para o drama, valem as descrições vívidas que o autor faz da paisagem e das pessoas. Já um escritor de sucesso, Maugham pôde viajar para o oriente, no momento em que o Império Britânico dominava a Índia e várias regiões da China, como Hong Kong. É lá que a trama começa, temperada com sexo de uma maneira que chocava a sociedade de 90 anos atrás, quando o livro foi lançado.

O véu pintado vale a leitura, especialmente para quem aprecia um bom drama. Mas está longe de ser a melhor obra do autor. Atente para a citação “The dog it was that died”, colocada com talento na boca de um personagem em um momento trágico. O melhor momento do livro.


Para quem optar pelo audiolivro, a narração de Sophie Ward é impecável. 

domingo, 31 de maio de 2015

Por onde andará Stephen Fry?

Zoe Deschanel, no papel de Trillian, e o robô depressivo Marvin

O guia do mochileiro das galáxias, a sarcástica “trilogia de cinco livros” do inglês Douglas Adams, surgiu como série na rádio BBC, em 1978. Depois vieram os livros, adaptações para teatro, TV, cinema, quadrinhos e vídeo games. Faltou algo? A volta às origens.

Quem ainda não conhece a história, vale a pena tentar. Quem já viu, leu ou jogou, vale ainda mais ouvir, e não só por tudo ter começado no áudio, mas porque o narrador da versão audiolivro é Stephen Fry, ator e comediante britânico, entre outras atividades artísticas.

Fry faz mais do que narrar com competência durante as quase seis horas de duração do audiolivro. Suas interpretações de personagens como o robô depressivo Marvin ou o computador descolado são hilárias, e enriquecem ainda mais a divertida trama.

Por onde andará Stephen Fry? é o título de um álbum de 1997 de Zeca Baleiro, cantor, compositor e cronista maranhense. Dois anos antes, ele havia lançado a canção Stephen Fry em homenagem ao inglês, que ficou sabendo e gostou.

Stephen Fry fez vários trabalhos com Hugh Laurie, que ficou muito conhecido como Dr. House, e anda por aí, atuando, escrevendo e emprestando sua voz e talento para o texto de Douglas Adams.  Produzido pela Penguin Random House, The hitchhiker’s guide to the galaxy é oferecido, entre outros canais, na iTunes Store e na Audible.