Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de abril de 2020

O Amor NaturalO Amor Natural by Carlos Drummond de Andrade
My rating: 5 of 5 stars

Carlos Drummond de Andrade até permitiu que algumas pessoas lessem seus poemas eróticos quando ainda estava vivo. Alguns saíram em revistas masculinas nos anos 1970, mas a maior parte, a seu pedido, foi publicada apenas após a sua morte.

"O Amor Natural" é uma obra surpreendente de Drummond. Fala de sexo com leveza e sensibilidade, sem deixar de ser quase explícito em muitos versos. O livro tem belas ilustrações de Milton Dacosta, e um posfácio em que Affonso Romano de Sant'Anna discute a tênue linha entre o erótico e o pornográfico.

Se era esse o receio de Drummond de ver a obra publica em vida, não precisava. Trata-se apenas de amor natural.


View all my reviews

domingo, 15 de março de 2020

Juncos ao ventoJuncos ao vento by Grazia Deledda
My rating: 5 of 5 stars

Grazia Deledda nasceu e viveu na Sardenha, Itália, nos primeiros anos de sua vida, fim do século 19. E é de lá, no momento em que essa ilha vivia um período decadente, que a autora traz a inspiração para sua principal obra, vencedora do Prêmio Nobel de 1926.

O romance gira em torno da vida de Efix, servo dedicado a uma família empobrecida, amargurado com dramas do passado. É fascinante o retrato que a autora faz de uma sociedade profundamente religiosa e ao mesmo tempo presa a antigas superstições. Camponeses, padres, benzedeiras, agiotas e mendigos convivem em uma trama com muito folclore e melancólica poesia. A narrativa é impregnada pelo relevo da Sardenha, imagens do Sol poente, o movimento dos juncos que dão título à obra.

Li o livro em edição da antiga Editora Opera Mundi, de 1971. A curiosidade é que "Canne al vento" foi traduzido para o português por Mario Mossa De Murtas, também nascido na Sardenha, e amigo de Grazia Delleda. Murtas, que viveu e morreu no Brasil, também escreveu a introdução e criou as belas ilustrações do livro.

A obra ganhou nova tradução para o Brasil feita por Maria Augusta Mattos para a Editora Carambaia, agora com o título de "Juncos ao vento". Caniços ou juncos, vale muito a leitura.


View all my reviews

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A fúriaA fúria by Silvina Ocampo
My rating: 5 of 5 stars

O insólito e o fantástico lapidados em 34 contos curtos, cuja leitura causa desde perturbação até um estado de surpresa e maravilhamento. A crueldade pode surgir de situações triviais, em meio a uma narrativa serena, pelas mãos de personagens banais e insuspeitos, ou mesmo crianças.


View all my reviews

sábado, 30 de novembro de 2019

Sobre os ossos dos mortosSobre os ossos dos mortos by Olga Tokarczuk
My rating: 5 of 5 stars

Janina Dusheiko vive na companhia de duas cadelas em área afastada de uma pequena cidade, em um recanto gelado da Polônia. Divide seu tempo entre cuidar das casas de veranistas durante o inverno, dar aulas de inglês para crianças, estudar astrologia, fazer mapas astrais, traduzir poemas de William Blake e protestar contra caçadores.

É própria senhora Dusheiko - ela detesta seu pré-nome - quem narra a história em primeira pessoa. Vamos conhecendo seu passado profissional, suas rotinas, problemas de saúde, amigos e reflexões sobre a vida e a natureza. Ninguém leva muito a sério seus discursos em defesa dos animais. São apenas ideias excêntricas de uma mulher solitária a caminho da velhice. Até que a rotina da cidade é quebrada por uma sequência de mortes misteriosas.

Ganhadora do Nobel de Literatura 2018/2019, a polonesa Olga Tokarczuk escreveu “Sobre os ossos dos mortos” como um quebra-cabeças que vai sendo montado pelo leitor com a ajuda da senhora Dusheiko. O romance passeia por gêneros como literatura policial, existencialismo, ecologia e uma sugestão de sobrenatural. Com boa tradução do polonês feita por Olga Baginska -Shinzato, a leitura é daquelas difíceis de interromper. Se o mistério instiga, a intrigante personagem Janina Dusheiko cativa o leitor desde a primeira linha.

“Sobre os ossos dos mortos” foi lançado pela Todavia e tem 256 páginas, com várias epígrafes de William Blake e até “Riders on the Storm”, do The Doors.


View all my reviews

domingo, 21 de abril de 2019

PollyannaPollyanna by Eleanor H. Porter
My rating: 2 of 5 stars

Ver-me sem nada para ler e com um livro gratuito no celular me levou a matar a curiosidade sobre a origem da expressão "ser Poliana". Bom, sabia que a origem era o livro "Pollyanna", nome de uma garotinha que exala otimismo. Mas ler o livro infantil de Eleanor H. Porter é diferente, uma experiência que não me agradou.
Gosto de vez ou outra ler um livro infantil ou infanto-juvenil, mas "Pollyanna" ficou abaixo de minhas expectativas. O "jogo" da menina órfã, de procurar o lado positivo nas piores situações e atitudes, mais do que justifica a fama da obra, a origem da expressão e as muitas adaptações feitas para TV, teatro e cinema. Mas achei o livro ruim. Pollyanna transita em um mundo de adultos amargurados e ressentidos, muitas vezes por se comportar de maneira mais infantil do que a menina. Com sua visão inocente, ela acaba sendo a mais madura em várias situações.
A autora emenda uma cena em outra para que Pollyanna chame as pessoas ao bom senso. Em mais de uma passagem, dá saltos de continuidade quando parece querer resolver logo uma situação e passar para outra. E termina a história de maneira abrupta.
Enfim, "Pollyanna" tem suas lições de moral e muita pieguice. Nada que minha avó não resumiria em uma frase quando eu não estava disposto a comer alguma coisa: "Pense em quantas crianças não tem nem isso para comer."


View all my reviews


sábado, 9 de março de 2019

Daughters of the Night SkyDaughters of the Night Sky by Aimie K. Runyan
My rating: 3 of 5 stars

Aimie K. Runyan só avisa no fim do livro, mas é muito transparente ao chamar a atenção para o fato de que não é especialista em Segunda Guerra Mundial ou aviação. Em "Daughters of the Night Sky", porém, oferece um relato muito fiel da participação das mulheres na resistência do Exército Vermelho durante o avanço das tropas nazistas sobre o território da antiga União Soviética.

Neste romance, o foco é a história de Katya Ivanova, uma jovem que se apaixona pela ideia de pilotar aviões. A resistência é grande, já a partir do momento em que a menina precisa ter contato na escola com matérias como física e matemática, reservadas aos garotos. A interferência da mãe de Katya é determinante, enquadrando o relutante professor no discurso de Stalin, favorável a condições iguais a homens e mulheres.

A questão dos direitos das mulheres perpassa toda a trama, em constantes conflitos com soldados e oficiais homens. Há relatos de assédio e estupro, mas também espaço para romance e momentos de grande amizade. Acredito que no intuito de pôr mais alguma dose de aventura na trama, Aimie K. Runyan escorrega ao criar um episódio que não condiz com o caráter da protagonista.

Apesar da ressalva da autora, a leitura deve agradar quem gosta de relatos sobre a Segunda Guerra. E não decepciona os admiradores da aviação. Desde a descrição do Polikarpov PO2, monomotor usado nos bombardeios em que Katya atua como navegadora, até as manobras em voo e atuação das equipes de mecânicas em terra, a narrativa é bem estimulante e fiel ao universo dos aviões.

"Daughters of the Night Sky" pode ser lido como complemento à "A guerra não tem rosto de mulher", de Svetlana Aleksiévitch, ainda a obra referência sobre a participação feminina no conflito.


View all my reviews

sábado, 16 de fevereiro de 2019

A casa das sombrasA casa das sombras by Patricia Highsmith
My rating: 4 of 5 stars

Nos onze contos que formam a coletânea "A casa das sombras" há muito pouco espaço para o criminoso comum. Com doses variadas de melancolia, Patricia Highsmith revela nessas narrativas até onde pessoas ou grupos de pessoas são capazes de ir, levados por frustração, tristeza, desespero ou maldade. Cidadãos acima de qualquer suspeita, "gente de bem" que, sem empunhar uma faca ou puxar o gatilho de um revólver, e pelas razões mais fúteis, acaba sendo responsável pela morte de alguém.

Nem todos os contos envolvem crimes, o tema pelo qual a autora se tornou mais conhecida na literatura, adaptações para rádio, teatro e cinema. Há sugestões de fantástico, como em "Pavores da cestaria" e no comovente "A pipa". A fragilidade do ser humano é dissecada pela autora, que usa seu texto direto para levar o leitor a uma tensão crescente. Ainda que ninguém morra em alguns relatos, a leitura termina com um riso nervoso.


View all my reviews

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O Dia de ÂngeloO Dia de Ângelo by Frei Betto
My rating: 4 of 5 stars

Um romance quase didático do frade dominicano e escritor conhecido como Frei Betto. Didático porque retrata sob o manto da ficção o que se passava nas prisões políticas durante o período mais duro da ditadura militar no Brasil, nos anos 1970.
Privação da liberdade, tortura, a discordância entre as linhas de atuação da esquerda, a paranoia do anticomunismo, os acertos entre políticos e militares, os grupos econômicos de interesse. Todos esses aspectos são contemplados nesse romance curto publicado em 1987 pela extinta Brasiliense. Merece e precisa ser lido por sua atualidade.


View all my reviews

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Aventura juvenil, sofrimento adulto



Obra de Richard Adams é das mais populares na Inglaterra

É uma história parecida com a do seu conterrâneo J. R. R. Tolkien, autor de O Hobbit e O senhor dos anéis. Richard Adams começou a contar histórias envolvendo coelhos para suas filhas, e por insistência das meninas colocou os relatos no papel para se tornar um dos escritores mais populares da Grã Bretanha.

Sua obra de maior sucesso é Watership Down, traduzida no Brasil para A longa jornada. Um romance de aventura envolvendo um grupo de coelhos, obrigado a abandonar seu habitat pela interferência do homem. Sawyer, um dos sobreviventes do voo Oceanic 815, é visto lendo o livro na praia no seriado Lost. Publicado em 1972, após recusa de várias editoras, teve uma edição lançada no Brasil em 1976. Vai se tornar série na Netflix, em co-produção com a inglesa BBC.

The plague dogs traz o relato em tom de aventura e suspense em que dois cães escapam de um laboratório de pesquisas que usa animais: cães, gatos, macacos, ratos e outros. Como a saga dos coelhos, o livro lançado em 1977 é tratado como uma obra voltada ao leitor jovem, mas se de um lado os animais "falam" e têm atitudes e pensamentos humanos, por outro a narrativa é carregada com passagens de sofrimento animal.

Parte da história é reservada à descrição da indiferença dos pesquisadores à dor e angústia dos animais, em experiências que envolvem privação de alimentos, ar, companhia, administração de substâncias tóxicas, choques elétricos, correntes de ar, cirurgias sem anestesia, mutilações e outros horrores.

Rowf e Snitter são os protagonistas da aventura, que inclui ainda uma raposa batizada de Tod e muitos humanos, um deles repórter sensacionalista. Os fugitivos enfrentam medo, fome e frio, enquanto o cerco para eliminá-los vai se fechando.

Vejo The plague dogs mais como uma história triste do que juvenil. Em longos trechos, no laboratório ou nos campos em que os cães tentam se esconder, a narrativa desperta melancolia. Em outros, o diálogo entre os homens, quando o assunto é a utilização de animais em laboratório, é quase panfletário. No conjunto, leva a uma forte reflexão do uso que fazemos dos animais.

domingo, 14 de outubro de 2018

Conan Doyle perdido no vale do terror

Sherlock Holmes é o caso típico do personagem que ficou maior do que seu criador

Como outras obras de Conan Doyle, O vale do terror foi publicado primeiro em folhetim na Strand Magazine, entre setembro de 1914 e maio de 1915. O lançamento em livro foi em fevereiro de 1915. É um dos últimos trabalhos envolvendo Sherlock Holmes e seu amigo doutor Watson. E uma das narrativas menos interessantes do famoso detetive.

Conan Doyle usa o mesmo recurso de Um estudo em vermelho, sua primeira obra, lançada em livro em 1888. A trama é dividida em duas partes. Na primeira, Sherlock Holmes desvenda o mistério que envolve um assassinato na Inglaterra. Na segunda, a narrativa migra para os Estados Unidos, onde os bastidores que levaram ao crime são esclarecidos.

Se em Um estudo em vermelho Conan Doyle usa a vida dos mórmons dos Estados Unidos como pano de fundo, em O vale do terror o foco são os maçons. Em sua obra, o autor recorre mais de uma vez a sociedades secretas a fim de construir suas tramas. Esse fato, além da repetição de enredos e técnicas de dedução de Holmes, vão levando as histórias a perder em vigor e originalidade.

As situações e o comportamento de personagens em O vale do terror são caricatos. Conan Doyle parece não se ter esforçado muito para construir essa narrativa. Sabemos que ele já não nutria grande motivação por Homes, desde que havia tentado matar o personagem, 21 anos antes. 

A leitura pode ser interessante para quem ainda não leu nenhuma aventura de Sherlock Holmes. Caso contrário, é indicada para os muito fãs do detetive.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Proust egoísta e manipulador

Obra revela a estranha maneira do autor se relacionar com as mulheres

Marcel Proust não poderia ter escolhido um título mais honesto para o quinto volume de seu Em busca do tempo perdido. Ao decidir levar sua paixão de férias Albertine para sua casa em Paris, o autor faz da moça uma cativa de luxo, sujeita a seus caprichos e devaneios.

Este texto contém informações sobre o desenrolar da narrativa que podem comprometer o prazer pela leitura desse livro. Por essa razão, se você prefere ser totalmente surpreendido antes de ler meus comentários, melhor voltar para cá depois.

A prisioneira nos traz um Proust egoísta e manipulador. Albertine, com quem cogita casar, é mantida em um quarto de sua casa, algo que não agrada sua mãe, que está ausente. A relação entre os dois é asfixiante, pois a moça só pode sair sob supervisão e aprovação de Marcel.

A questão do homossexualismo, muito presente no título anterior, Sodoma e Gomorra, é retomada e aprofundada neste livro. Envolve as angústias que o autor alimenta em relação a Albertine, e também um dos personagens recorrentes de Em busca do tempo perdido, o senhor de Charlus.

O barão acaba vítima de uma intriga que beira o grotesco. Em paralelo a uma apresentação musical encantadora de um septeto, o narrador relata uma conspiração cujo objetivo é humilhar e isolar o nobre. Esse, por sua vez, não se preocupa ao promover uma enorme desfeita à dona da casa, senhora respeitável na sociedade.

O desfecho é melancólico, um episódio - mais um na obra de Proust - que retrata o pior da aristocracia francesa. Há outros, como o desafio de desvirginar e depois abandonar moças ingênuas ou viver de favores.

O texto poético de Proust, porém, não falta às páginas de A prisioneira. O autor retoma suas memórias sensoriais, como a cena emblemática da madalena molhada no chá. As associações auditivas também estão sempre presentes nas reflexões, e a narrativa baseia-se muito na obra do compositor Vinteuil.

Há um momento delicioso no livro quando, deitado em sua cama, Proust fala das pessoas que passam pela ruas apregoando frutos do mar, vegetais frescos e produtos da estação, como se Paris tivesse sua própria música. Ao menos no bairro aristocrata habitado pela família do autor, onde o mercado vai até os moradores.

Embora compartilhe esses momentos poéticos, Albertine é mantida "presa" por ciúme. Proust deseja muito conhecer Veneza, e entende que a moça é um empecilho. Egoísta e manipulador, o autor se dá conta de nem sequer gostar mais dela, mas sofre com a suspeita de que a moça tenha tido amantes - homens e mulheres - no passado. E não tolera a ideia de uma traição, ou de vê-la com outras pessoas mesmo após uma separação.

Albertine é mantida sob vigilância, em um clima de paranóia que se torna ainda pior quando o autor acaba por ter certeza de que a moça mente a fim de se encontrar com outras pessoas. O episódio resulta em uma discussão nterço final do livro, em que Proust entra em conflito também consigo mesmo, sobre a conveniência de terminar o relacionamento, e quando tomar essa atitude. Deixa muito claro que quer isso, mas a decisão tem de ser sua.

Já na etapa de separação, nas páginas finais de A prisioneira, durante passeio com Albertine por Versailles, os dois ouvem um avião. O autor faz então considerações sobre o som que ouve com relação ao apito de um trem a dois quilômetros de distância. Curioso que, ao longo dos anos registrados por Proust em sua obra, vão surgindo o telefone, o automóvel e o avião, e o autor não deixa de falar algo sobre isso.

Deixo o desfecho de A prisioneira por conta de sua leitura. É um livro que desperta irritação por conta das atitudes do autor. Mas é um retrato fiel da alma humana, pintado com o talento de Marcel Proust.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A promessa

Volume traz uma novela e um conto do autor

É muito legal ser surpreendido por uma obra ou autor do qual nunca se ouviu falar. É o caso dos títulos de agosto do serviço de assinatura Tag Livros. Títulos porque a novela A Promessa e o conto A Pane foram reunidos em um só volume. 

As obras foram escritas por Friedrich Dürrenmatt, autor suíço que viveu de 1921 a 1990. Dürrenmatt é mais conhecido no Brasil como dramaturgo, autor de A visita da velha senhora, de 1956. A peça foi encenada no Brasil em várias montagens, a última delas com Denise Fraga. Foi também um dos últimos trabalhos de Tônia Carrero.

No mesmo ano de A visita da velha senhora, o autor escreveu A Pane, e em 1958, A PromessaDürrenmatt questiona a ideia do detetive infalível e certeiro em suas conclusões lógicas. debate a literatura policial dentro da trama de uma história que tem todos os elementos de um romance do gênero, fazendo metaliteratura.


Faz isso em A Promessa por meio de um escritor de romances policiais cujo nome não ficamos sabendo. O personagem narra em primeira pessoa seu encontro com um policial crítico de como sua atividade é retratada pela ficção.

A Promessa gira em torno da história do investigador Matthäi, que promete à mãe de uma menina assassinada punir o responsável pelo crime. Mesmo quando um suspeito é identificado, o velho policial segue com sua investigação obsessiva. 

É um romance de rápida leitura, não convencional para quem está habituado aos policiais mais conhecidos. Causa estranheza, por exemplo, o agressivo diálogo de adultos com uma criança, lembrando que a obra foi escrita há seis décadas. 

Questões como a justiça popular, violência policial e a própria infalibilidade da justiça estão presentes. E o autor inova ao tocar no tema do assassino serial, 60 anos atrás.


Dürrenmatt tem um texto seco, direto, enxuto. E uma ironia amarga. É a essência de A Pane, onde o autor volta a brincar com a soluções fáceis para os textos de ficção. Quando o vendedor Alfredo Traps vê-se retido em um vilarejo por conta de um defeito no carro, hospeda-se em uma grande casa. Lá é convidado para participar de um jantar muito singular, que vai simular um julgamento. O réu? Ele mesmo.

A sequência lembra o banquete de A festa de Babette, conto de Karen Blixen que virou filme premiado com o Oscar. O desfecho, bem, o desfecho não decepcionaria Edgar Allan Poe.






domingo, 29 de julho de 2018

Mitologia nórdica

Os personagens foram apropriados pela cultura pop
O talento de Stan Lee e seus parceiros na criação de super-heróis para a Marvel é inegável. Mas, ao menos no caso de Thor e seu indefectível martelo, já estava tudo pronto para a turma das HQs adaptar. É o que fica nítido na leitura de "Mitologia Nórdica", de Neil Gaiman, ele mesmo um declarado admirador do Deus do Trovão, seu pai Odin, o irmão Loki e toda os habitantes de Asgard.

As relações entre deuses, gigantes, anões e outros personagens mitológicos se sucedem ao longo das crônicas da obra. Chama a atenção a sequência de engodos, tramoias e ardis com que as nobres divindades tentam passar para trás umas às outras o tempo todo.

Não raro, o assunto acaba em pancadaria. O ardiloso Loki tem a capacidade de sempre piorar as coisas. E há passagens surpreendentes e de humor impagável, como Thor ter de se vestir de mulher para enganar o ladrão que roubou seu martelo Mjolnir para tentar recuperá-lo.

O estelionato é frequente, mas há também muitos códigos de honra. E respeito à mulher, que tem espaço para recusa ao desempenho de alguns papéis menos nobres. Estamos falando de uma obra que reúne lendas anteriores ao cristianismo. As walkírias eram divindades encarregadas de recolher as almas dos guerreiros e conduzi-las até Valhalla, o salão dos mortos.

Não se surpreenda em encontrar personagens muito familiares em obras como "Senhor dos Anéis" ou "Harry Potter". J. R. R. Tolkien e J. K. Rowling beberam à vontade das fontes escandinavas. Se quiser saciar sua sede também, "Mitologia Nórdica" tem edição em português da Intrínseca. Na versão em áudio, a locução é do próprio Neil Gaiman, um deleite extra.



quarta-feira, 27 de junho de 2018

Todos os fogos o fogo

Coletânea reúne oito contos do escritor argentino

Como a vida se reorganiza em um incrível e inexplicável congestionamento em uma rodovia francesa é o conto de abertura dessa coletânea lançada em 1966. Um ponto alto no trabalho de Julio Cortazar, "Todos os fogos o fogo" reúne em oito contos toda a habilidade com que o escritor entrecruza personagens e tramas em tempos e espaços distantes. De uma ilha caribenha que vive uma revolução - no relato literário-jornalístico "Reunião" - a uma trágica história de amor que perpassa os séculos e dá título ao livro.

Com ou sem pinceladas de realismo fantástico  Cortazar tem o enorme talento de deixar o leitor desconcertado, como nos contos "A ilha do meio dia" e "Instruções a John Howell". Melancolia e tristeza estão presentes em narrativas que falam de amor e morte, como "A saúde dos doentes", ou no dolorido "Senhorita Cora", meu conto preferido nessa coletânea. Cortazar dá uma aula sobre como transitar a narrativa em primeira pessoa de um personagem a outro.

Editado pela BestBolso, selo da Best Seller, do grupo Record, "Todos os fogos o fogo" tem tradução competente de Gloria Rodriguez. A edição de tamanho compacto, porém, é impressa em papel com alguma transparência. A vantagem é que o livro pode ser comprado pelo preço de uma revista na banca. 

domingo, 22 de abril de 2018

"Autoridade"

AutoridadeAutoridade by Jeff VanderMeer
My rating: 4 of 5 stars

Nesse segundo volume da trilogia "Comando Sul", Jeff VanderMeer muda o ponto de vista da bióloga de "Aniquilação" para o posto de observação externo à Área X. Mais personagens, mais fragmentos da história e poucas respostas. O autor consegue manter o clima de suspense e horror no melhor estilo de H. P. Lovecraft.
Com a estreia do filme "Aniquilação" no Netflix fui "obrigado"a partir para a leitura imediata de "Aceitação", que fecha a história intrigante da Área X. Será que fecha? O filme aparenta resumir a trilogia em apenas um longa de menos de duas horas. Tem imagens fascinantes, situações assustadoras e algumas alterações em relação aos livros. E não diminuiu em nada a vontade de lê-los, ao contrário.
Bela ficção cientifica!


View all my reviews

sábado, 13 de janeiro de 2018

Bom para matar saudade

Dança MacabraDança Macabra by Stephen King
My rating: 3 of 5 stars

Longa análise de Stephen King sobre como filmes, seriados e livros influenciaram sua obra. A questão do porquê escrever histórias de horror está sempre presente. É divertido lembrar e ler sobre seriados dos anos 1950 e 60, e os filmes do período da paranóia da ficção cientifica. Boas também as análises dos livros escolhidos como referência por King. O senão é o texto por vezes palavroso e repetitivo, um dos pecados do autor.


View all my reviews

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sodoma e Gomorra

Quarto volume de "Em busca do tempo perdido"
Sexo passa a ser mais presente na vida do narrador de "Em busca do tempo perdido", e ocupa boa parte do desenvolvimento desse quarto volume da extensa obra de Marcel Proust. E o título "Sodoma e Gomorra" é mais do que uma mera sugestão do conteúdo da narrativa, uma vez que o homossexualismo incorpora-se às preocupações sociais e existenciais do jovem protagonista, alter-ego do autor.

Mais uma vez, Proust divide a narrativa entre os salões aristocráticos de Paris e os cenários bucólicos da cidade litorânea de Balbec. O autor transmite fascínio pelas relações entre os nobres, mas não deixa de destilar uma mordacidade por vezes nada sutil para com as intrigas temperadas com altas doses de esnobismo.

Em um ato de extrema indiscrição, o herói constata o homossexualismo de um integrante da alta sociedade. Mas o tema vai afetá-lo visceralmente quando passa a suspeitar das tendências homossexuais de Albertine, com quem mantém uma amizade que resvala para o romance e permite cogitar um casamento.

Em um dos trechos mais tocantes da obra, o personagem extravasa o doloroso sofrimento pela perda da avó, fortemente associada ao cenário e rotina da cidade litorânea para onde costuma viajar com o propósito de cuidar da saúde frágil. É para essa região também que se desloca praticamente toda a corte de nobres e pretendentes à nobreza, com toda a rede de intrigas de quem está qualificado a frequentar os salões.

"Sodoma e Gomorra" também contempla o caso Dreyfuss, que dividiu a opinião pública na França e mesmo em outras partes do mundo - inclusive o Brasil - no debate sobre se um oficial do exército, de ascendência judaica, teria ou não cometido traição. Igreja, militares e direita de um lado, políticos progressistas, intelectuais - incluindo Proust e Émile Zola - de outro, promoveram uma polêmica que se arrastou por anos, até o oficial acusado ser "perdoado". A inocência de Dreyfus seria reconhecida apenas um século depois dos fatos, em 1995.

Nessa obra extensa - são mais de 600 páginas - Proust destila muita ironia e humor em seu texto rebuscado. Exemplos são a descrição de um prostíbulo de luxo que lembra um pregão de bolsa de valores ou situações como o empenho do gerente do hotel em trinchar pessoalmente um peru para agradar famílias ilustres.

Retrato da sociedade na virada do século 19 para o século 20, o autor relata situações que ressaltam o papel servil das mulheres e as atitudes machistas dos personagens masculinos. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Funeral de livros



Um livro bem pequeno, mas só no tamanho físico
No terceiro episódio da terceira temporada de Orange is the new black, A caminho da redenção, há referência a vários livros, cujos títulos são lidos diante das cinzas dos volumes queimados em uma ação contra a infestação de percevejos na prisão. Livros são, aliás, mencionados em vários episódios da série. Mas o fim da biblioteca por conta da praga dos insetos motiva o "funeral" em homenagem às obras sacrificadas.

Queima de livros por nazistas, pela Igreja ou seja lá quem for é sempre um episódio a se lamentar. Mas o destino de uma biblioteca de 20 mil títulos raros é o que surpreende em A casa de papel, livro do argentino Carlos María Domínguez. Em apenas 90 páginas, o autor consegue reunir a paixão pelos livros e pela leitura, erudição na medida certa em uma obra destinada ao grande público e doses de mistério e suspense com uma original história de amor.

A casa de papel, da Realejo Livros, tem tradução e posfácio de Joca Reiners Terron e ilustraçães de Helena Campos. Garantia de algumas horas de prazer para quem ama livros.