Mostrando postagens com marcador Intrínseca. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Intrínseca. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de janeiro de 2020

Review: A Visita Cruel do Tempo

A Visita Cruel do Tempo A Visita Cruel do Tempo by Jennifer Egan
My rating: 4 of 5 stars

O fascínio de "A cruel visita do tempo" vai além da melancólica narrativa que gira em torno da vida de músicos e pessoas ligadas ao universo da indústria fonográfica.

Jennifer Egan brinca com o leitor, instigado a montar um quebra-cabeças pela leitura que alterna primeira, terceira e mesmo a segunda pessoa ao longo dos 13 capítulos da obra. E a narrativa ainda se desenrola por anos, através do ponto de vista de diferentes personagens e em períodos não lineares de tempo. As histórias vão se conectando, relacionamentos se formam e terminam até o desfecho que se articula ao início da obra.

Uma curiosidade na boa tradução de Fernanda Abreu é a escolha do termo console para tablet. Não conheço ninguém que use essa palavra para equipamentos como iPads. O termo é mais comum para aparelhos de videogame. Estranho também o uso da letra T no lugar de e-mail ou mensagem.
Sem prejuízo para o resultado que, aliás, ficou com o belo título em português, superior ao original.

A citação do Los Angeles Times na capa - "O melhor livro que você terá nas mãos"- é exagerada. Mas ainda assim "A cruel visita do tempo" é uma excelente leitura.

View all my reviews

domingo, 29 de julho de 2018

Mitologia nórdica

Os personagens foram apropriados pela cultura pop
O talento de Stan Lee e seus parceiros na criação de super-heróis para a Marvel é inegável. Mas, ao menos no caso de Thor e seu indefectível martelo, já estava tudo pronto para a turma das HQs adaptar. É o que fica nítido na leitura de "Mitologia Nórdica", de Neil Gaiman, ele mesmo um declarado admirador do Deus do Trovão, seu pai Odin, o irmão Loki e toda os habitantes de Asgard.

As relações entre deuses, gigantes, anões e outros personagens mitológicos se sucedem ao longo das crônicas da obra. Chama a atenção a sequência de engodos, tramoias e ardis com que as nobres divindades tentam passar para trás umas às outras o tempo todo.

Não raro, o assunto acaba em pancadaria. O ardiloso Loki tem a capacidade de sempre piorar as coisas. E há passagens surpreendentes e de humor impagável, como Thor ter de se vestir de mulher para enganar o ladrão que roubou seu martelo Mjolnir para tentar recuperá-lo.

O estelionato é frequente, mas há também muitos códigos de honra. E respeito à mulher, que tem espaço para recusa ao desempenho de alguns papéis menos nobres. Estamos falando de uma obra que reúne lendas anteriores ao cristianismo. As walkírias eram divindades encarregadas de recolher as almas dos guerreiros e conduzi-las até Valhalla, o salão dos mortos.

Não se surpreenda em encontrar personagens muito familiares em obras como "Senhor dos Anéis" ou "Harry Potter". J. R. R. Tolkien e J. K. Rowling beberam à vontade das fontes escandinavas. Se quiser saciar sua sede também, "Mitologia Nórdica" tem edição em português da Intrínseca. Na versão em áudio, a locução é do próprio Neil Gaiman, um deleite extra.



segunda-feira, 30 de abril de 2018

"Aniquilação": entre livros e filme, fique com ambos


A versão para o cinema explica mais, e conta com sequências assustadoras

Convergência dos dois primeiros livros, "Aniquilação" e "Autoridade", a trama de "Aceitação" envolve mais personagens e se passa em várias lugares. O problema nesse livro que encerra a trilogia é que Jeff Vandermeer dá muitas voltas, perde muito tempo na descrição de sequências que pouco acrescentam à história.

O leitor é convidado a testemunhar o desfecho do mistério através de um texto sinestésico, em que o autor vai nos conduzindo nas mesmas situações desconcertantes que envolvem os personagens. Nós, leitores, sabemos tanto quanto os protagonistas principais, eventualmente alguns detalhes a menos. Como eles, não somos poupados da rede perturbadora formada por fenômenos biológicos, genéticos, seres improváveis, alucinações e mesmo espionagem presente nos três livros.

Apesar das quase mil páginas da trilogia, no entanto, o leitor não vai escapar de uma sensação de estranheza após sua jornada através da Área X. Como os personagens que saem de lá, os leitores também vão deixar para trás muitas perguntas sem resposta.

O filme "Aniquilação" é muito bom, pena que reduza a menos de duas horas a sucessão de episódios descritos nos livros. Poderia facilmente justificar a produção de uma série de televisão, e ser tudo aquilo que "Lost" perdeu a chance de concretizar. Difícil será não se impressionar com uma sequência assustadora que não é descrita nos livros.


Um detalhe que pode passar despercebido por muita gente é o livro que a bióloga interpretada por Natalie Portman aparece lendo junto ao marido. Em "A vida imortal de Henrietta Lacks", como foi lançado em português pela Companhia das Letras, Rebecca Skloot relata a vida de Loretta Pleasant. Descendente de escravos, em 1950, aos 30 anos de idade, descobriu um câncer no útero, que logo se espalhou pelo corpo.

Loretta morreu no ano seguinte no Hospital Johns Hopkins onde, sem seu conhecimento ou de sua família, teve uma amostra do colo do útero extraída pela equipe de George Gey, chefe da cultura de tecidos do hospital. Com a amostra, Gey demonstrou que as células cancerígenas continuavam se multiplicando, tornando-se na prática imortais.

Não se sabe em que momento Loretta passou a ser chamada de Loretta, mas o certo apurado pela autora do livro é que sua família não recebeu qualquer satisfação ou recompensa moral ou financeira por conta do que passou a ser conhecido como a linhagem HeLa de células. Uma linha de pesquisa determinante para, entre outros avanços da bilionária indústria farmacêutica, tratamentos contra o câncer e as vacinas contra poliomielite e HPV.

Em uma das primeiras cenas do filme a bióloga está dando uma aula em que demonstra a reprodução de células cancerígenas. A versão das telas revela mais, enquanto os livros fazem muito mistério. As respostas podem estar na genética, e não necessariamente da maneira mais favorável para a humanidade.



domingo, 24 de maio de 2015

O sombrio rei de amarelo

A leitura do texto da peça leva as pessoas à loucura

Uma das piores coisas que podem ocorrer a uma obra de arte é o esquecimento. As editoras podem deixar de investir em novas edições de um título, os lançamentos se sucedem e o livro perde espaço nas estantes mais visíveis das livrarias. Ao longo de décadas, ele desaparece, ou fica limitado a círculos restritos de leitores. Até que um "acaso" o resgata. Foi o que aconteceu com O rei de amarelo, do norte-americano Robert W. Chambers, lançado em 1895 e citado na festejada série de TV True detective.

O livro foi lançado no Brasil há um ano pela Intrínseca, com tradução de Edmundo Barreiros e ótima introdução de Carlos Orsi. O rei de amarelo na verdade é uma peça teatral cuja leitura leva as pessoas à loucura. Qualquer semelhança com o Necromicon, de H. P. Lovecraft não é merca coincidência: o escritor de Providence leu Chambers. Sua influência é reconhecida também por Raymond Chandler a Neil Gaiman, passando pelo onipresente Stephen King. Chambers, por sua vez, toma emprestado vários nomes e termos criados pelo escritor Ambrose Bierce.

O rei de amarelo é um "personagem" dos primeiros contos do livro, tramas distintas mas interligadas ao menos pela citação da obra maldita. As narrativas transitam entre o gótico, o fantástico, o romance e a ficção científica, numa intrigante atmosfera de mistério e viagens oníricas. O primeiro conto envolve um sr. Wilde, que remete diretamente a Oscar Wilde, como um "reparador de reputações".

Já na que pode ser considerada a segunda parte do livro, Chambers inspira-se livremente em seu passado como pintor de quadros, e ambienta suas narrativas em Paris, particularmente no Quartier Latin povoado de estrangeiros estudantes de arte. A vida libertina e amores impossíveis são tema recorrente, com um leve toque de fantasia e a influência da pintura: há momentos em que o autor "pinta" cenas em seus textos.

Esses contos também são interligados, com várias e repetidas referências internas. Em "A rua da primeira bomba", Chambers envolve o leitor na angústia de uma Paris sob cerco do exército da Prússia e no desespero de um personagem que se lança ao front de batalha.

Chambers morreu em 1933, rico e famoso por romances água-com-açúcar dos quais ninguém se lembra mais. Nem fazem falta. Mas a volta de O rei de amarelo para as prateleiras das livrarias é um verdadeiro prêmio para quem aprecia literatura fantástica.

sábado, 28 de março de 2015

A verdade no fundo da caverna

A obra é um misto de livro ilustrado e graphic novel
Um pai à procura da filha desaparecida há mais de dez anos, um ladrão e um tesouro oculto numa caverna misteriosa. Esses são os elementos quase simples que Neil Gaiman - autor inglês de romances e quadrinhos mais conhecido por Sandman - usou para compor A verdade é uma caverna nas montanhas negras. O conto, publicado em 2010 na antologia Stories, ganhou edição própria ilustrada por Eddie Campbell, artista consagrado por seu trabalho em From Hell, de Alan Moore.

A história se passa nas Black Cuillins, Ilha de Syke, paisagem que o escocês Campbell conhece muito bem e fascinou Gaiman. A obra é um misto de graphic novel e livro ilustrado, em que texto e imagens conversam muito bem para criar o clima sombrio da narrativa. 

O pai é um anão que contrata um ladrão como guia até a caverna onde espera encontrar a verdade sobre o desaparecimento da filha. Por não encontrar equivalente em português, Augusto Calil, tradutor do texto, optou por manter a expressão border reaver em inglês para o personagem que, há séculos, assaltava indistintamente ingleses e escoceses nas fronteiras entre os dois países. 

A viagem é úmida, sombria e perigosa. A relação entre os dois homens é tensa e desconfiada: um não está certo das respostas que vai encontrar, outro pensa no ouro guardado na caverna. Aqui Gaiman se apropria do modelo de jornada por territórios pouco conhecidos, envoltos em névoas e nuvens, reunindo uma dupla improvável de um anão cheio de segredos e um ladrão movido pela ambição.

O desfecho me lembrou o enredo das pulp fictions dos anos 1940 e 1950, reproduzidas em revistas como Weird Tales e Cripta, no Brasil. Mas a narrativa é boa, tanto o texto de Gaiman quanto o visual das ilustrações de Campbell. Vale a leitura.

Valeria mais ainda assistir a performance de Gaiman. Ele tem feito leituras do conto em teatros com projeção das ilustrações de Campbell (as do livro e outras inéditas), ao som do quarteto de cordas australiano FourPlay, que conta em seu repertório com o tema do seriado Doctor Who. Gaiman é um excelente narrador, como pude conferir em sua leitura de O oceano no fim do caminho.

A verdade é uma caverna nas montanhas negras foi lançado no Brasil pela Intrínseca em uma bem cuidada edição de 80 páginas com capa dura. Custa R$ 34,90 na versão impressa e R$ 19,90 na eletrônica.