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domingo, 17 de dezembro de 2017

Stephen King não ficou bom em HQ

Histórias viraram um filme de George Romero

Os roteiros são assinados por Stephen King, mas apenas duas das seis histórias são razoáveis. Como passatempo vale uma horinha por conta dos desenhos de Bernie Wrightson, nos estilo dos clássicos quadrinhos de horror dos anos 1950 e 1960.


sábado, 16 de julho de 2016

Crime, culpa e castigo

O livro tem uma bela - e muito adequada - edição
Um livro todo negro, um título que remete à ausência de luz e quatro contos que falam sobre crime e culpa. Um pacote bem feitinho para os fãs de Stephen King, mas vale saber que de sobrenatural essa obra tem pouco, e esse pouco é justamente a narrativa mais fraca de Escuridão total sem estrelas

O melhor conto é o primeiro, 1922. O título se refere à data em que se passam os episódios envolvendo uma família de agricultores - mãe, pai e filho. O cenário é  uma propriedade rural que a mulher deseja deixar para trás, à revelia de seu marido, que acaba levando o filho à cumplicidade em um plano criminoso.

O que se desenrola é um crescendo de alucinação e culpa, que resulta em uma espiral de mais crimes e remorso. King sugere o sobrenatural, mas o horror está no mundo real, no interior da mente dos personagens.

Gigante do volante também é um bom conto, mas o autor cai no seu defeito de se enrolar um pouco na narrativa. Perdendo fluidez em alguns momentos, a leitura ainda assim se segura porque King consegue manter a expectativa pelo que virá a seguir. Como os personagens vão agir, quais serão as transformações no comportamento das pessoas. E, claro, o leitor se pega pensando no que faria no lugar dos envolvidos na trama.

A narrativa de vingança resvala um tanto para o inverossímil, mas funciona. King só abusa do cacoete de contrapor, com algumas palavras após o que seria o ponto final, o que acaba de afirmar nas últimas linhas. É um recurso de estilo que torna o texto um tanto chato e previsível. Você sabe que ao final de quase todo parágrafo ele vem com esse contraponto.

Extensão justa é o conto mais curto, o único de conteúdo sobrenatural e destoa do livro. Não chega a comprometer muito a experiência da leitura, uma vez que também é a narrativa mais curta. Mas é um conto que qualquer fã bem treinado do autor poderia ter escrito.

Em Um bom casamento King também não recorre ao sobrenatural e volta ao tema de violência contra a mulher. No posfácio do livro, o autor fala de onde tirou inspiração para os quatro contos, esse último deles praticamente a reprodução de um caso real. King faz uma crítica nada velada que poderia muito bem ter sido inspirada nos recentes fatos ocorridos no brasil, em que a mulher é a primeira suspeita de uma violência que sofreu. Mas o autor está falando de seu próprio pais, os Estados Unidos, e o livro foi lançado em 2009.

Escuridão total sem estrelas tem 390 página e tradução de Viviane Diniz. Foi lançado em edição muito bem feita da Suma de Letras: o título é impresso em verniz cinza-escuro sobre a capa preta, mesma cor das lombadas. Nada mais apropriado ao autor e ao título do livro.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Se você é impressionável, não leia sozinho

Entre outras obras, livro inspirou de Arquivo X a Prometheus

Nem todo texto de Howard Phillips Lovecraft seduz o leitor que se dispõe a conhecer sua obra, que passou por fases bem oníricas. A fim de apreciar melhor as “viagens” do autor, vale começar por um título como Nas montanhas da loucura, publicado em fascículos em revistas populares em 1931.

O livro traz o relato, feito em primeira pessoa, de uma expedição científica à Antártica. Bem ao estilo do autor, é um sobrevivente que relata os resultados da incursão a territórios antes inexplorados, e que, defende o narrador, devem se manter assim para o bem da humanidade.

O tom de alerta se justifica porque os pesquisadores que voaram em direção ao pólo sul se defrontam com montanhas gigantescas, guardiãs de segredos de civilizações que antecederam a humanidade em milhões de anos. Depois que os contatos por rádio silenciam, o narrador vai em busca do local do acampamento, onde encontra morte e destruição em meio a montanhas e construções arquitetônicas titânicas.

A exploração de túneis colossais vai revelando vestígios de civilizações ancestrais. Enquanto a interpretação das obras arquitetônicas e esculturas vai revelando a terrível guerra entre alienígenas que chegaram ao planeta e se dividiram entre o fundo dos oceanos e a terra firme, odores e galerias misteriosas permitem descobrir o trágico destino dos exploradores desaparecidos.

O clima criado pela narrativa de Lovecraft mais do que justifica o fato de tantos autores de livros e filmes se inspirarem livremente em sua obra. No ambiente gelado e desértico das regiões mais remotas do continente antártico, surge boa parte da mitologia criada pelo autor. Criaturas de formas, tamanhos  e organismos desconcertantes como Mi-gos, Cthulhu, Celephais e Innsmouth são apresentados ao leitor.

Se você gosta de ficção científica e admira a obra de Lovecraft, não perca mais tempo. Essa história é um deleite. Se você é muito impressionável não deixe para ler Nas montanhas da loucura quando a família inteira viajou e está sozinho em casa.





segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Relatos de amargura

Leitura de preferência para quem não está em depressão

Escritora premiada, professora universitária de prestígio, cotada para o Nobel de Literatura, Joyce Carol Oates ainda encontra tempo para ser muito produtiva: publicou mais de 40 obras desde 1963, quando seu primeiro livro foi lançado. É também uma boa demonstração de que quantidade não equivale a qualidade.

Sourland foi lançado em 2010, e preserva as principais características de Oates: textos muito bem escritos que dissecam os sentimentos mais profundos dos personagens. Mas os 16 contos do livro não estão entre os melhores da autora.

Mais uma vez, os personagens centrais são mulheres, e as histórias envolvem violência sexual. Impossível não notar a inspiração na obra de Shilrley Jackson, autora, entre outros, do clássico The hounting of hill houseOates é admiradora confessa da escritora morta em 1964, e editora do seu volume na coleção The library of America

Oates é dona de um estilo mórbido, violento e chocante, como quando constrói o momento de um estupro, a transição de uma cena doméstica banal em torno de um copo de vinho para a violência despertando no comportamento psicótico do atacante.

Há muita criatividade envolvida nas histórias, como uma assustadora "aparição" de uma cabeça de abóbora. Mas as narrativas são repetitivas, e algumas tramas são pouco conclusivas.

Sourland é para aqueles fãs incondicionais que fazem questão de ler tudo de seu autor preferido. Mas há obras mais indicadas para quem ainda não conhece Joyce Carol Oates, como Mulher de barro e Descanse em paz, este reunindo relatos sobre os últimos dias de cinco grande escritores.

sábado, 22 de agosto de 2015

Decepção

A "nova obra" de Harper Lee ainda não tem título em português

55 anos após o lançamento de O Sol é para todos, Harper Lee anunciou o lançamento de sua sequência, que na verdade, conta a autora, havia sido escrita antes. Ao longo de todo esse tempo, To kill a mockingbird, título original da obra, ganhou um prêmio Pulitzer, foi transformada em filme de sucesso e nunca deixou de vender e emocionar de estudantes secundaristas ao público geral dos Estados Unidos.

O anúncio de Harper Lee despertou uma nova onda de interesse por sua obra de sucesso. O sol é para todos ganhou novas edições, inclusive no Brasil. Um livro tocante e de leitura deliciosa, embora incômoda pelo tema. Daí a decepção com Go set a watchman, título extraído de uma citação da Bíblia e ainda sem tradução para o português.

Segundo a autora, o novo título seria um rascunho de To kill a mockingbird. Como Go set a watchman se passa 20 anos após os episódios de O Sol é para todos, a comparação é inevitável, assim como a expectativa em relação aos personagens. Jean Louise, a travessa e voluntariosa Scout, reaparece com um verniz de Nova York, cidade onde passou a viver. Mas ainda é um personagem reconhecível.


Scout (Mary Badham) e Atticus, seu pai, vivido por Gregory Peck
Quanto aos demais, Harper Lee frusta com mudanças de crenças e valores. Destrói um herói que marcou gerações de leitores. Isso em uma trama confusa, que em muitos trechos se arrasta em diálogos quase incoerentes, e em outros expõe uma desconexão com O Sol é para todos. Afinal, rascunho ou não, ela está falando das mesmas pessoas e situações?

A leitura de Go set a watchman foi despertando um interesse crescente à medida que o fim do livro se aproximava. Fiquei aguardando uma virada na trama. Não posso falar muito, em respeito a quem ainda vai ler o livro. Mas minha experiência foi decepcionante.

domingo, 24 de maio de 2015

O sombrio rei de amarelo

A leitura do texto da peça leva as pessoas à loucura

Uma das piores coisas que podem ocorrer a uma obra de arte é o esquecimento. As editoras podem deixar de investir em novas edições de um título, os lançamentos se sucedem e o livro perde espaço nas estantes mais visíveis das livrarias. Ao longo de décadas, ele desaparece, ou fica limitado a círculos restritos de leitores. Até que um "acaso" o resgata. Foi o que aconteceu com O rei de amarelo, do norte-americano Robert W. Chambers, lançado em 1895 e citado na festejada série de TV True detective.

O livro foi lançado no Brasil há um ano pela Intrínseca, com tradução de Edmundo Barreiros e ótima introdução de Carlos Orsi. O rei de amarelo na verdade é uma peça teatral cuja leitura leva as pessoas à loucura. Qualquer semelhança com o Necromicon, de H. P. Lovecraft não é merca coincidência: o escritor de Providence leu Chambers. Sua influência é reconhecida também por Raymond Chandler a Neil Gaiman, passando pelo onipresente Stephen King. Chambers, por sua vez, toma emprestado vários nomes e termos criados pelo escritor Ambrose Bierce.

O rei de amarelo é um "personagem" dos primeiros contos do livro, tramas distintas mas interligadas ao menos pela citação da obra maldita. As narrativas transitam entre o gótico, o fantástico, o romance e a ficção científica, numa intrigante atmosfera de mistério e viagens oníricas. O primeiro conto envolve um sr. Wilde, que remete diretamente a Oscar Wilde, como um "reparador de reputações".

Já na que pode ser considerada a segunda parte do livro, Chambers inspira-se livremente em seu passado como pintor de quadros, e ambienta suas narrativas em Paris, particularmente no Quartier Latin povoado de estrangeiros estudantes de arte. A vida libertina e amores impossíveis são tema recorrente, com um leve toque de fantasia e a influência da pintura: há momentos em que o autor "pinta" cenas em seus textos.

Esses contos também são interligados, com várias e repetidas referências internas. Em "A rua da primeira bomba", Chambers envolve o leitor na angústia de uma Paris sob cerco do exército da Prússia e no desespero de um personagem que se lança ao front de batalha.

Chambers morreu em 1933, rico e famoso por romances água-com-açúcar dos quais ninguém se lembra mais. Nem fazem falta. Mas a volta de O rei de amarelo para as prateleiras das livrarias é um verdadeiro prêmio para quem aprecia literatura fantástica.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A volta de Tubarão

Capa dura, e assustadora
Não importa muito que, revisto hoje, Tubarão seja um filme com "defeitos visuais": o monstro mecânico já havia dado problemas nas filmagens, mas foi um sucesso. Steven Spielberg foi muito feliz na condução de um suspense inovador, mas a história havia sido publicada um ano antes, em 1974, pelo escritor norte-americano Peter Benchley.

A DarkSide está relançando Tubarão 40 anos após sua primeira edição. Vampiros, zumbis e outros monstros foram reinventandos e tiveram seu espaço na cultura pop nesse período. Os efeitos especiais para cinema e TV evoluíram muito, mas a narrativa do monstro marinho, ameaça invisível e imprevisível abaixo da linha d'água, continua assustadora.


Li Tubarão quando foi lançado em português, uma trama densa e angustiante que contrasta a quase impotência das pessoas, em um ambiente hostil, às voltas com uma fera que devora homens. Benchley deixou de lado o horror despertado por seres sobrenaturais ou a ameaça de alienígenas hostis para falar de uma criatura real. Por isso o livro é assustador, ainda mais que o filme.


Tubarão - no papel e nas telas - vilanizou o animal de tal maneira que levou Benchley a tornar-se um ambientalista, comprometido inclusive com a defesa dos tubarões diante da matança indiscriminada que os animais sofrem. O autor morreu em 2006, quando a obra já somava mais de 20 milhões de exemplares vendidos. Tubarões continuam sendo capturados para ter a barbatana removida - é preparada como sopa - e devolvidos ao mar.


A sugestiva imagem do cartaz do filme está na capa de Tubarão 

Traduzido por Carla Madeira, Tubarão (Jaws, no original) tem preço sugerido de R$ 39,90 em brochura e R$ 59,90 na edição limitada com capa dura. São 280 páginas. Pegue o seu, acomode-se no lugar preferido e leia ao som da premiada e inesquecível trilha sonora de John Williams.





sábado, 21 de março de 2015

Big Sur, a angústia de Jack Kerouac

Edição da Penguin faz referência ao filme que não chegou ao Brasil

Jack Kerouac teve de esperar sete anos até que sua maior obra, On the road, fosse publicada, o que foi feito em 1957. Apenas três anos depois, o “rei dos beatniks” não era um autor realizado com o sucesso de seu livro, mas um homem de menos de 40 anos com a saúde destruída pelo alcoolismo e espírito atormentado. Foi nessa condição que aceitou o convite do amigo e poeta beat Lawrence Ferlinghetti para um período de descanso e retiro em sua cabana em Big Sur, área de beleza selvagem na costa da Califórnia, ao sul de São Francisco.

Da experiência resultou o livro considerado mais intimista de Kerouac, Big Sur. Escrito com o estilo que o autor chamava de prosa espontânea, que lembra a técnica do fluxo de consciência, narrativa e reflexões fluem sem muita elaboração, em meio a onomatopéias e pontuação caótica.

Big Sur é também um relato amargo e triste. Jack Duluoz (alter ego de Kerouac) passa pela cabana de Ferlinghetti (Lorenzo Monsanto no livro) em três ocasiões. A primeira, quando fica sozinho, resulta no terço da obra em que a força da natureza e a paisagem impressionante da região são marcantes.

De volta a São Francisco, Duluoz/Kerouac recebe uma notícia que o deixa arrasado. O trecho em que fala sobre a dor de sua perda é lancinante. Reencontra seu grande parceiro de estrada, Neal Cassady, que havia sido Dean Moriarty em On the road e é apresentado como Cody Pomeray em Big Sur. Ressurgem também outros amigos, velhos e novos amores: Carolyn Cassady (como Evelyn), Gary Snyder (Jarry Wagner), Philip Whalen (Ben Fagan), Michael McClure (Pat McLear), Lenore Kandel (Romana Swartz) e Robert La Vigne (Robert Browning).

Vários momentos “On the road” se sucedem, e a paixão pela liberdade de um carro na estrada é celebrada com manobras arrojadas e muita velocidade. E o atormentado autor bebe muito, bebidas de baixa qualidade em grandes quantidades. E antigas paixões são reacesas, e há sexo, e um porre contínuo. A decadência física de Duluoz/Kerouac é angustiante, com crises de delirium tremens e paranóia.

A LP&M oferece edição impressa e eletrônica

Por que ler um livro assim? Porque Kerouac é visceral, sua prosa é ágil, Big Sur é um lugar fascinante e Ferlinghetti foi um dos fundadores da livraria e editora City Lights Books, em São Francisco, responsável pelo impulso editorial da Geração Beat. O autor está se consumindo, mas escreve um livro emocionante e vertiginoso.

Big Sur foi lançado em 1962, e tem edição no Brasil pela L&PM, com tradução de Guilherme da Silva Braga e prefácio de Aram Saroyan. O livro é oferecido na edição impressa, com 192 páginas (R$ 17,90), e ebook (R$ 12,00).

A obra ganhou uma versão para o cinema em 2013. O filme foi recebido com alguma indiferença nos EUA, e não foi lançado no Brasil sequer em DVD. Mate a vontade com o trailer: