domingo, 17 de junho de 2018

Poeta da ciência


Um dos ideais do inventor era oferecer energia elétrica de graça para todos 

Procurei saber, mas não descobri se em algum momento o ilustrador Carl Barks contou qual foi sua inspiração para criar Gyro Gearloose para os estúdios Disney em 1952. Mas não ficaria surpreso de saber que, até por conta de Lampadinha, o companheiro do personagem que no Brasil ficou conhecido como Professor Pardal, Barks não teria levado em conta a vida de Nikola Tesla como referência para criar seu personagem inventor.

O fato é que, ouvindo a biografia escrita pela professora e matemática Margaret Cheney - "Tesla: Man out of Time" -, pensei no divertido, excêntrico, genial e generoso inventor dos quadrinhos. A vida de Nikola Tesla, que nasceu na Sérvia e adotou os Estados Unidos como morada, parece mesmo uma obra de ficção.

Em seus 86 anos de vida, Tesla criou mais de 200 inventos, entre eles o uso da corrente alternada que mudou a indústria, patentes que viabilizaram a criação do rádio, do raio-x e sistemas de iluminação eficientes. Suas soluções para o uso produtivo da eletricidade poderia ter feito de Tesla um milionário, mas trocou tudo para dedicar-se à paixão de sua vida, a ciência.

Com um texto saboroso, fluido e leve, Margaret Cheney faz um resumo da vida e do trabalho de Tesla. Ouvindo o audiolivro na voz do bom narrador Arthur Morey, em alguns momentos parecia estar em uma aula de Física. Mas, no geral, a narrativa dos momentos de tensão, em que Tesla luta por patrocínio para seus projetos, alternam-se com traços de sua personalidade, que iam da obsessão pelos números divisíveis por três ao seu amor pela poesia e a frustrada vida amorosa.  

"Tesla: Man out of Time" é uma boa biografia para conhecer a vida de um inventor genial que sonhava em melhorar a vida da humanidade oferecendo eletricidade de graça, comunicação de longa distância sem fios e até acabar com as guerras. Chamado por Thomas Edison - seu patrão por seis meses, de "poeta da ciência", acabou esquecido por quase todos que não são ligados ao estudo da Física. Hoje é lembrado por um dos projetos mais ousados de carro elétrico que homenageia seu nome.

https://soundcloud.com/autoesporte/tesla

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Fragmentos do HorrorFragmentos do Horror by Junji Ito
My rating: 4 of 5 stars

Leitura legal para um Dia do Orgulho Nerd. Tem sua pegada "Contos da Cripta", mas as tramas vão muito além da vingança-que-vem-do-túmulo da publicação norte-americana. O japonês Junji Ito vai fundo nos pesadelos, alucinações e ilustra com muito talento as situações perturbadoras que envolvem os personagens.
A bela edição encadernada da Darkside que reúne as oito narrativas só tem como problema não permitir abrir muito o livro. Isso atrapalha um pouquinho a leitura dos textos junto à costura central.


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"Como escrever bem"

As dicas preciosas de redação valem para profissionais de todas as áreas

"Como escrever bem" foi pensado e escrito principalmente para quem escreve ou pretende escrever não ficção. Mas a obra do jornalista e professor norte-americano William Zinsser é uma coleção de textos preciosos para quem precisa se comunicar por escrito com clareza. Ou seja, praticamente todos, sejam profissionais de comunicação ou não.

O livro tem tradução de Bernardo Ajzenberg, com ótima adequação de palavras e expressões que só fariam sentido no original em inglês. Alguns capítulos da obra, porém, foram suprimidos dessa edição. Perguntei sobre essa ausência à editora Três Estrelas, que rapidamente respondeu que a exclusão foi feita porque os capítulos "eram muito referidos à língua inglesa, sem possível adaptação às questões que enfrenta um um redator em português". É pena, gostaria de conhecê-los.

Zissner, morto em 2015 aos 92 anos, deixou em "Como escrever bem" e em toda a sua obra um elogio aos bons textos. Mais do que isso, um convite a todos que queiram compartilhar experiências ou memórias, mesmo sem a pretensão de publicar um livro.

Uma só ressalva: é uma pena que Zissner cite apenas textos e autores norte-americanos. Naturalmente, os melhores, mas sem nenhuma referência de grandes textos fora dos EUA.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

"Aniquilação": entre livros e filme, fique com ambos


A versão para o cinema explica mais, e conta com sequências assustadoras

Convergência dos dois primeiros livros, "Aniquilação" e "Autoridade", a trama de "Aceitação" envolve mais personagens e se passa em várias lugares. O problema nesse livro que encerra a trilogia é que Jeff Vandermeer dá muitas voltas, perde muito tempo na descrição de sequências que pouco acrescentam à história.

O leitor é convidado a testemunhar o desfecho do mistério através de um texto sinestésico, em que o autor vai nos conduzindo nas mesmas situações desconcertantes que envolvem os personagens. Nós, leitores, sabemos tanto quanto os protagonistas principais, eventualmente alguns detalhes a menos. Como eles, não somos poupados da rede perturbadora formada por fenômenos biológicos, genéticos, seres improváveis, alucinações e mesmo espionagem presente nos três livros.

Apesar das quase mil páginas da trilogia, no entanto, o leitor não vai escapar de uma sensação de estranheza após sua jornada através da Área X. Como os personagens que saem de lá, os leitores também vão deixar para trás muitas perguntas sem resposta.

O filme "Aniquilação" é muito bom, pena que reduza a menos de duas horas a sucessão de episódios descritos nos livros. Poderia facilmente justificar a produção de uma série de televisão, e ser tudo aquilo que "Lost" perdeu a chance de concretizar. Difícil será não se impressionar com uma sequência assustadora que não é descrita nos livros.


Um detalhe que pode passar despercebido por muita gente é o livro que a bióloga interpretada por Natalie Portman aparece lendo junto ao marido. Em "A vida imortal de Henrietta Lacks", como foi lançado em português pela Companhia das Letras, Rebecca Skloot relata a vida de Loretta Pleasant. Descendente de escravos, em 1950, aos 30 anos de idade, descobriu um câncer no útero, que logo se espalhou pelo corpo.

Loretta morreu no ano seguinte no Hospital Johns Hopkins onde, sem seu conhecimento ou de sua família, teve uma amostra do colo do útero extraída pela equipe de George Gey, chefe da cultura de tecidos do hospital. Com a amostra, Gey demonstrou que as células cancerígenas continuavam se multiplicando, tornando-se na prática imortais.

Não se sabe em que momento Loretta passou a ser chamada de Loretta, mas o certo apurado pela autora do livro é que sua família não recebeu qualquer satisfação ou recompensa moral ou financeira por conta do que passou a ser conhecido como a linhagem HeLa de células. Uma linha de pesquisa determinante para, entre outros avanços da bilionária indústria farmacêutica, tratamentos contra o câncer e as vacinas contra poliomielite e HPV.

Em uma das primeiras cenas do filme a bióloga está dando uma aula em que demonstra a reprodução de células cancerígenas. A versão das telas revela mais, enquanto os livros fazem muito mistério. As respostas podem estar na genética, e não necessariamente da maneira mais favorável para a humanidade.



Ratos mutantes


Livro tem terror, sexo e crítica social

O inglês James Herbert ficou conhecido como o "Stephen King britânico". Era admirado pelo best-seller norte-americano, que cita exemplos de seu trabalho em "Dança Macabra", livro onde lista e comenta referências de sua obra. Resolvi dar uma chance para "The Rats", que achei em uma versão audiolivro. 

Sua obra de estreia, "The Rats" foi lançado em 1974, e tornou-se um sucesso imediato. Hoje a fórmula parece datada, e ficou mesmo, quase 50 anos depois. Ratos mutantes começam a atacar pessoas e animais com agressividade e frequência progressivas, e um professor acaba tomando a frente para combatê-los. É a historia recorrente de uma mutação em um animal que normalmente já causa repulsa, como o rato, e uma pessoa comum acaba por se tornar o herói.

A descrição da violência dos ataques é crua e detalhada. Como também são detalhadas as cenas de sexo, elemento comum na literatura popular da década de 1970. O autor alterna essas cenas com os ataques que se sucedem em ambientes diferentes e uma nada sutil crítica ao chamado  poder público, indiferente às populações pobres marginalizadas vivendo em áreas degradadas com acúmulo de lixo.

Ouvi o audiolivro (são apenas 6 horas e 14 minutos) em uma semana de idas e vindas no trânsito. O narrador David Rintou capricha na dramatização da história, colocando dinâmica nas sequências mais tensas e movimentadas. Um guilty pleasure que vale como passatempo no anda-e-para dos congestionamentos. Mas não sei se dedicaria tempo para ler como livro impresso.




domingo, 22 de abril de 2018

"Autoridade"

AutoridadeAutoridade by Jeff VanderMeer
My rating: 4 of 5 stars

Nesse segundo volume da trilogia "Comando Sul", Jeff VanderMeer muda o ponto de vista da bióloga de "Aniquilação" para o posto de observação externo à Área X. Mais personagens, mais fragmentos da história e poucas respostas. O autor consegue manter o clima de suspense e horror no melhor estilo de H. P. Lovecraft.
Com a estreia do filme "Aniquilação" no Netflix fui "obrigado"a partir para a leitura imediata de "Aceitação", que fecha a história intrigante da Área X. Será que fecha? O filme aparenta resumir a trilogia em apenas um longa de menos de duas horas. Tem imagens fascinantes, situações assustadoras e algumas alterações em relação aos livros. E não diminuiu em nada a vontade de lê-los, ao contrário.
Bela ficção cientifica!


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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Arquivo X nas montanhas

Dead Mountain: The Untold True Story of the Dyatlov Pass IncidentDead Mountain: The Untold True Story of the Dyatlov Pass Incident by Donnie Eichar
My rating: 4 of 5 stars

Relato sobre um mistério absolutamente intrigante prestes a completar 60 anos sem uma explicação conclusiva. Nove jovens estudantes russos, experientes em longas caminhadas na natureza, morreram em circunstâncias estranhas no Passo Dyatlov, montes Urais, uma cadeia de montanhas na Sibéria, na noite de 2 de fevereiro de 1959. Foram encontrados dias depois, em grupos separados, alguns parcialmente vestidos, outros com ferimentos graves.

A causa da morte principal foi o frio, estimado entre 20 e 30 graus Celsius negativos naquela noite. Aberturas feitas com faca dentro da barraca, olhos e parte da língua faltando em um dos corpos e a falta de calçados em algumas da vitimas - sete rapazes e duas moças - deram margem a especulações sobre a causa da tragédia. O grupo teria sido vitima de uma tribo da região, de alienígenas, de prisioneiros fugidos do complexo de prisões que ficou conhecido como Gulag, ou de agentes do próprio governo soviético, por terem inadvertidamente presenciado testes de armas secretas - o mundo vivia o auge da Guerra Fria.

A reação das autoridades, na ocasião, contribuiu para aprofundar o clima de dúvidas e mistério. O inquérito concluiu de forma lacônica que o grupo havia sido morrido por conta de uma "força desconhecida". Mesmo o fim da União Soviética e a revelação de documentos da época contribuiu pouco para esclarecer o caso.

Donnie Eichar pesquisou, entrevistou pessoas que tiveram contato com o grupo de estudantes e percorreu seus passos até o local da tragédia. O livro, lançado em 2013, traz como conclusão uma teoria que poderia explicar a tragédia. A possibilidade é fascinante, mas o autor não leva em conta fenômenos como o vento andino Zonda ou o Foehn dos Alpes. E fica faltando uma comprovação local da teoria levantada pelos especialistas ouvidos.

Uma leitura magnética, um verdadeiro Arquivo X das montanhas.


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