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sábado, 13 de janeiro de 2018

Bom para matar saudade

Dança MacabraDança Macabra by Stephen King
My rating: 3 of 5 stars

Longa análise de Stephen King sobre como filmes, seriados e livros influenciaram sua obra. A questão do porquê escrever histórias de horror está sempre presente. É divertido lembrar e ler sobre seriados dos anos 1950 e 60, e os filmes do período da paranóia da ficção cientifica. Boas também as análises dos livros escolhidos como referência por King. O senão é o texto por vezes palavroso e repetitivo, um dos pecados do autor.


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domingo, 17 de dezembro de 2017

Stephen King não ficou bom em HQ

Histórias viraram um filme de George Romero

Os roteiros são assinados por Stephen King, mas apenas duas das seis histórias são razoáveis. Como passatempo vale uma horinha por conta dos desenhos de Bernie Wrightson, nos estilo dos clássicos quadrinhos de horror dos anos 1950 e 1960.


sábado, 16 de julho de 2016

Crime, culpa e castigo

O livro tem uma bela - e muito adequada - edição
Um livro todo negro, um título que remete à ausência de luz e quatro contos que falam sobre crime e culpa. Um pacote bem feitinho para os fãs de Stephen King, mas vale saber que de sobrenatural essa obra tem pouco, e esse pouco é justamente a narrativa mais fraca de Escuridão total sem estrelas

O melhor conto é o primeiro, 1922. O título se refere à data em que se passam os episódios envolvendo uma família de agricultores - mãe, pai e filho. O cenário é  uma propriedade rural que a mulher deseja deixar para trás, à revelia de seu marido, que acaba levando o filho à cumplicidade em um plano criminoso.

O que se desenrola é um crescendo de alucinação e culpa, que resulta em uma espiral de mais crimes e remorso. King sugere o sobrenatural, mas o horror está no mundo real, no interior da mente dos personagens.

Gigante do volante também é um bom conto, mas o autor cai no seu defeito de se enrolar um pouco na narrativa. Perdendo fluidez em alguns momentos, a leitura ainda assim se segura porque King consegue manter a expectativa pelo que virá a seguir. Como os personagens vão agir, quais serão as transformações no comportamento das pessoas. E, claro, o leitor se pega pensando no que faria no lugar dos envolvidos na trama.

A narrativa de vingança resvala um tanto para o inverossímil, mas funciona. King só abusa do cacoete de contrapor, com algumas palavras após o que seria o ponto final, o que acaba de afirmar nas últimas linhas. É um recurso de estilo que torna o texto um tanto chato e previsível. Você sabe que ao final de quase todo parágrafo ele vem com esse contraponto.

Extensão justa é o conto mais curto, o único de conteúdo sobrenatural e destoa do livro. Não chega a comprometer muito a experiência da leitura, uma vez que também é a narrativa mais curta. Mas é um conto que qualquer fã bem treinado do autor poderia ter escrito.

Em Um bom casamento King também não recorre ao sobrenatural e volta ao tema de violência contra a mulher. No posfácio do livro, o autor fala de onde tirou inspiração para os quatro contos, esse último deles praticamente a reprodução de um caso real. King faz uma crítica nada velada que poderia muito bem ter sido inspirada nos recentes fatos ocorridos no brasil, em que a mulher é a primeira suspeita de uma violência que sofreu. Mas o autor está falando de seu próprio pais, os Estados Unidos, e o livro foi lançado em 2009.

Escuridão total sem estrelas tem 390 página e tradução de Viviane Diniz. Foi lançado em edição muito bem feita da Suma de Letras: o título é impresso em verniz cinza-escuro sobre a capa preta, mesma cor das lombadas. Nada mais apropriado ao autor e ao título do livro.

domingo, 20 de setembro de 2015

Pinhead está nas livrarias

Pinhead, um dos personagens mais assustadores da literatura de horror

Vampiros, lobisomens, mortos-vivos e múmias frequentam a imaginação das pessoas muito antes de a literatura fantástica se popularizar. Mitos antigos, esses seres ganharam relevância com a obra de Bram Stocker, Mary Shelley e o cinema. Mas os Cenobitas de Clive Barker, com suas cicatrizes, mutilações e perversidade, inovaram o gênero horror. "Eu vi o futuro do Horror... E seu nome é Clive Barker", disse Stephen King, em uma declaração muitas vezes citada.

O responsável por todo esse impacto é Pinhead, pálido, grotesco e cruel líder dos Cenobitas em The hellbound heart, novela que acabou originando uma série de filmes. O primeiro deles, Hellraiser - Renascido do Inferno, teve roteiro e direção do próprio Clive Barker. Assistir ao filme de 1987 hoje é estranhar roupas e penteados, mas Hellreiser é uma história que não envelhece.

A trama gira em torno de um cubo sugestivamente conhecido como Configuração do Lamento. Em troca da alma do interessado, decifrar o enigma do cubo abre portais para prazeres sem limites. Abre também caminho para a entrada dos Cenobitas, em uma dimensão onde dor e prazer, sensualidade e sadomasoquismo se confundem. Queira a pessoa que manipulou o cubo ou não. Não há espaço para arrependimentos.

Renascido do inferno resultou uma sequência de sete filmes no total, várias histórias em quadrinhos, inspirou outros artistas, personagens de cinema e bandas de rock. Mas, surpresa, a novela original só consegui achar em inglês. A editora Civilização Brasileira lançou os Livros de Sangue de Barker nos anos 1990, mas só agora a editora Darkside põe no mercado Hellraiser - Renascido do Inferno, no trigésimo aniversário do lançamento do título.

A "edição para colecionador" tem capa dura e custa R$ 49,90
Como tem sido característico da editora, o livro de 160 páginas chega em duas apresentações, brochura e capa dura, com tradução de Alexandre Callari. 

Ouvi recentemente uma entrevista com Clive Barker, recuperado após um longo período em coma, resultante de uma ida ao dentista. Voz abatida, traduzindo um enorme esforço para falar, o inglês de 62 anos de idade que elegeu Los Angeles como casa, mantém uma coleção de cobras, aranhas e ratos. Quanto dessas excentricidades alimentam sua imaginação eu não sei, mas quem gosta do gênero Horror precisa ler sua obra.

domingo, 15 de março de 2015

Como Anne Hathaway leu O mágico de Oz para mim

São 3 horas e 52 minutos de diversão
Eu ainda não havia lido O mágico de Oz quando a Audible lançou o título com locução de Anne Hathaway. Ótima oportunidade para preencher uma lacuna em minhas leituras, saber como ficaria a obra interpretada pela atriz e, claro, forçar uma melhora na compreensão do inglês. O resultado foi ótimo.

O primeiro audiolivro que ouvi foi lançado nos idos dos anos 1980 pela Audiocultural: Os melhores contos de Stephen King do livro Sombras da noite trazia em fitas cassete O fantasma, O homem do cortador de grama e A máquina de passar roupa dramatizados por 19 locutores em 2 horas. Era divertido de ouvir, mas acabava muito rápido e a a Audiocultural lançou poucos títulos.


A locução, feita pelo próprio autor, faz toda a diferença
Dando um salto no tempo, o segundo título que "li" foi Vale tudo, a biografia de Tim Maia escrita por Nelson Motta. Aqui a experiência já foi de um nível muito superior, e não apenas porque essa versão lançada pela editora Plugme em CD, em 2007, tinha mais de 14 horas de duração: a ótima e emocionante locução é do próprio Nelson Motta, que foi amigo pessoal do cantor e compositor. 

Mais alguns anos, e a digitalização facilitou tudo. Se antes era preciso estar em casa ou no carro para ouvir o CD, arquivos digitais ficaram muito acessíveis e portáteis em mp3. E livros tornaram-se companheiros para mim em muitas outras atividades, como correr ou cuidar do quintal. Não entendeu bem alguma parte? Tudo bem, volte alguns segundos ou minutos e ouça novamente.

Fiz uma assinatura mensal da Audible, que conta com um time enorme de locutores e atores. Descobri Thérèze Raquin, de Émile Zola, na voz de Kate Winslet, e ouvi/li O mágico de Oz com Anne Hathaway. Se a experiência de ouvir uma obra com os profissionais de narração já é muito boa, entreter-se com a interpretação de vozes e entonações de uma atriz vale cada minuto. No vídeo, uma canja da performance de Anne Hathaway.



Parece que aquelas fitas cassete com os três contos de Stephen King tornaram-se uma raridade. As minhas eu dei para o Caio Peroni, sobrinho-fã do autor. A propósito, quando liguei para ele a fim de revisar as informações sobre aquela publicação, ele me lembrou uma extra. Em Rose Madder, obra de Stephen King em que uma mulher foge do marido agressor, a personagem começa a reestruturar sua vida abraçando a profissão de... locutora de audiolivros.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O mestre do indizível

A capa da biografia entrega muito de Lovecraft, um autor totalmente misturado à sua obra

Escritores que morrem antes de serem reconhecidos fora de seu círculo de amigos mais próximos e chegam a passar fome, para anos ou décadas depois seu trabalho se converter em uma mina de dinheiro nas mãos de desconhecidos, são personagens comuns na história da literatura. Howard Phillips Lovecraft não escapou a essa sina.
Muito do que se vê hoje no cinema e na TV, lê nos livros, quadrinhos e mangás, ouve na música ou mesmo joga em games nasceu em sua mente intrigante. Autores como Alan Moore e Stephen King confessam inspiração livre no trabalho sombrio de Lovecraft, que ganhou uma biografia assinada por S.T. Joshi. Nascido na Índia e radicado nos Estados Unidos, Sunand Tryambak Joshi é um estudioso e admirador da obra do autor. A vida de H. P. Lovecraft foi lançada no final do ano passado em português pela editora Hedra, com venda exclusiva na Livraria Cultura.
Trabalho competente, a biografia é toda referenciada com notas ao fim de cada capítulo. Em alguns trechos, o texto aprofunda o relato da vida de Lovecraft com um tom um tanto acadêmico, mas embora a fluência da leitura perca o ritmo, a construção psicológica e social do autor ganha muito em consistência.
Garoto mimado pela mãe e pelas tias em sua amada cidade de Providence, Lovecraft foi precoce em muitas coisas: na perda do pai, na alfabetização e interesse pela poesia, nas leituras de Edgar Allan Poe e da Balada do Velho Marinheiro aos 6 anos de idade, na rejeição à educação religiosa e ao ensino formal.
Ainda menino, o autor produzia, imprimia e vendia pequenas publicações com artigos e poesias. O que se converteu nos fanzines dos anos 1970 e 1980, e nos blogs de hoje, Lovecraft e seus amigos praticavam nos idos de 1900. Ao longo de sua breve vida, ele participou de ativos grupos de imprensa amadora que promoviam a impressão e publicação de trabalhos com recursos caseiros.
Lovecraft gostava tanto de Química que montou um laboratório em casa. E se apaixonou pela Astronomia: frequentou um observatório por um tempo, escreveu sobre o assunto e chegou a ter três telescópios em casa. Quanto dessa observação, o estudo do cosmos e revelações científicas como as teorias da Relatividade e Quântica influenciaram sua obra vai sendo revelado no atento e documentado retrato que Joshi traça.
O autor sentia-se insignificante diante do universo, sentimento que transferia para toda a humanidade. Daí resultam perturbadoras sequências oníricas e criaturas indescritíveis que transcreve de sua imaginação para o papel em histórias ora recusadas, ora remuneradas por centavos de dólar por palavra.
Quando recebia alguma coisa pela venda para revistas populares - as pulp fictions - Lovecraft mal conseguia pagar suas contas. Mas não abria mão de seu maior prazer: viajar e fazer longas caminhadas por bairros e cidades de arquitetura colonial.
A obra do autor, morto em 1937 aos 46 anos, foi descoberta aos poucos. E, embora composta por contos de qualidade desigual, vem ganhando antologias, edições ilustradas e comentadas. No Brasil, nos anos 1980, antologias foram publicadas pela editora Francisco Alves; a editora Iluminuras publicou outras nos anos 2000. Agora a Hedra vem lançando vários títulos. 
Caprichadas edições especiais, publicadas principalmente nos EUA, têm chegado às boas livrarias daqui. Mas procure. Num domingo, vi um exemplar de The new annotated H. P. Lovecraft, com prefácio do Alan Moore, na vitrine da Livraria Cultura no Bourbon shopping. A qualidade do livro me chamou a atenção, o preço era ótimo, mas parecia haver apenas aquele, com uma etiqueta colada que rasgaria a capa. A atendente da loja bem que tentou. Mas havia outro exemplar, a moça atenciosa descobriu. Estaria na seção Geek, ali mesmo, no mezanino. Loja cheia, me aventurei sozinho, e fui descobrir o volume escondido atrás de uma fileira de mangás, na prateleira junto ao piso, invisível para quem estava de pé.
Procurem, leitores contemporâneos. Esse é um privilégio nosso.
Lovecraft não chegou a ver um livro seu encadernado em capa dura. 


Este eu quase não encontro


sábado, 31 de janeiro de 2015

Stephen King, sobre escrever

O próprio autor faz a locução do livro em 8 horas e 5 minutos

Depois de "Carrie" e "O iluminado", estava meio que rompido com Stephen King desde que insisti em ler "Insônia" até o fim. Livros grandes não me metem medo, mas a trama desse nunca se desenrolava. Mas decidi encarar "On writing: A memoir of the craft" no formato audiolivro, narrado pelo próprio autor. Foi uma ótima surpresa.
O livro é um misto de autobiografia e sugestões para quem pensa em escrever. Vai da infância do autor, com episódios como uma folha de urtiga usada de forma errada, passa pelas leituras e filmes que fizeram sua formação, até o atropelamento que quase o matou, em 1999.
Como era a vida antes da internet e dos blogs? King imprimia seus contos de forma artesanal para vender na escola. Levou tempo para emplacar como escritor. Hoje escreve, religiosamente, 2 mil palavras por dia. Está nas prateleiras de livrarias, no cinema e em séries de TV, como "Sob a redoma". Para chegar lá, recomenda muita leitura e muita escrita. E dedicação: King conta que reescreve seus romances algumas vezes, sempre enxugando o texto. Fico imaginando que tamanho teriam os tijolos se os originais fossem publicados.
Apesar da popularidade do autor, "On writing" ainda não tem tradução para o português. O livro traz um capítulo especial que mostra seu processo de escrita para o conto "1408", transformado em um bom filme, em 2007, com John Cusack e Samuel L. Jackson. A versão inicial da história, com as anotações e emendas feitas pelo escritor, é reproduzida nas páginas impressas de "On writing".
O audiolivro não traz esse capítulo, nem as listas de leitura de Stephen King, que foram atualizadas na edição de dez anos da primeira publicação. Em compensação, sua locução é ótima, divertidíssima em alguns episódios, sem pieguice nos momentos mais dramáticos.
Preciso dizer que eu e Stephen King temos duas coisas em comum: nascemos no mesmo dia e gostamos muito de ler. Quem sabe um dia ainda escrevo ficção como ele.