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sábado, 23 de abril de 2016

Fundação me conquistou

Surge a primeira mulher na trama

Não havia ficado muito impressionado com “Fundação”, o primeiro título da festejada trilogia de Isaac Asimov. Terminei a leitura com uma sensação de confusão, sentindo saudades dos dilemas sobre inteligência artificial apresentados nos contos do autor sobre robôs.

Mas gostei de “Fundação e Império”, onde a trama político-social que envolve a galáxia ganha corpo e sentido. As forças se movimentaram e o poder está em jogo, uma disputa que motiva à leitura do terceiro volume, “Segunda Fundação”.


Sim, e em “Fundação e Império” finalmente surge uma mulher, e ela tem um papel decisivo na trama. Mas ainda é preciso que ela cumpra tarefas domiciliares. Asimov previu muita coisa, mas ao contrário de seu profeta científico Hari Seldon, foi humanamente incapaz de antever todo o futuro.

terça-feira, 29 de março de 2016

Clima sombrio

O autor fica devendo um desfecho mais original


The Haunted, de Bentley Little, começa como uma novela sobrenatural comum mas promissora. Comum porque se apoia em elementos recorrentes em histórias do gênero, como a família composta por pai, mãe e um casal de filhos, que vai viver em uma pequena cidade.

Naturalmente, a casa é antiga e tem um porão, de onde emana um cheiro ruim. O autor consegue criar um clima sombrio e assustador, porém a trama vai se desenvolvendo sem muita coerência e criatividade. Por vezes, Bentley Little parece não saber muito bem como resolver e partir para um desfecho.





domingo, 20 de dezembro de 2015

Se você é impressionável, não leia sozinho

Entre outras obras, livro inspirou de Arquivo X a Prometheus

Nem todo texto de Howard Phillips Lovecraft seduz o leitor que se dispõe a conhecer sua obra, que passou por fases bem oníricas. A fim de apreciar melhor as “viagens” do autor, vale começar por um título como Nas montanhas da loucura, publicado em fascículos em revistas populares em 1931.

O livro traz o relato, feito em primeira pessoa, de uma expedição científica à Antártica. Bem ao estilo do autor, é um sobrevivente que relata os resultados da incursão a territórios antes inexplorados, e que, defende o narrador, devem se manter assim para o bem da humanidade.

O tom de alerta se justifica porque os pesquisadores que voaram em direção ao pólo sul se defrontam com montanhas gigantescas, guardiãs de segredos de civilizações que antecederam a humanidade em milhões de anos. Depois que os contatos por rádio silenciam, o narrador vai em busca do local do acampamento, onde encontra morte e destruição em meio a montanhas e construções arquitetônicas titânicas.

A exploração de túneis colossais vai revelando vestígios de civilizações ancestrais. Enquanto a interpretação das obras arquitetônicas e esculturas vai revelando a terrível guerra entre alienígenas que chegaram ao planeta e se dividiram entre o fundo dos oceanos e a terra firme, odores e galerias misteriosas permitem descobrir o trágico destino dos exploradores desaparecidos.

O clima criado pela narrativa de Lovecraft mais do que justifica o fato de tantos autores de livros e filmes se inspirarem livremente em sua obra. No ambiente gelado e desértico das regiões mais remotas do continente antártico, surge boa parte da mitologia criada pelo autor. Criaturas de formas, tamanhos  e organismos desconcertantes como Mi-gos, Cthulhu, Celephais e Innsmouth são apresentados ao leitor.

Se você gosta de ficção científica e admira a obra de Lovecraft, não perca mais tempo. Essa história é um deleite. Se você é muito impressionável não deixe para ler Nas montanhas da loucura quando a família inteira viajou e está sozinho em casa.





sexta-feira, 5 de junho de 2015

Fantasmas reais

A autora inspirou de Neil Gaiman a Stephen King

Shirley Jackson tornou-se conhecida por conta de sua novela The haunting of hill house, traduzida como Assombração da casa da colina. Publicada em 1959, foi adaptada para o cinema em 1963 e 1999. Narra a história de pessoas reunidas em uma casa com reputação sobrenatural por um pesquisar que quer investigar fenômenos aparentemente inexplicáveis, até que cosias começam a acontecer. Um roteiro explorado muitas vezes, em outros livros e filmes.

The lottery reúne 25 contos, incluindo o que dá título à antologia. São histórias sem fantasmas, monstros ou eventos sobrenaturais. Talvez por isso, mais assustadoras. O mal não vem de fora, está no próprio ser humano, capaz de atitudes cruéis. Não há violência física entre os personagens, mas opressão psicológica por vezes apenas sugerida, mas que cria uma atmosfera de opressão.

Uma curiosidade é que todos os contos giram em torno de mulheres. Solidão, abandono, dúvida, preconceito e machismo se revezam ao redor das protagonistas. Em um diálogo, a jovem grávida recém-casada argumenta: “Penso que um casamento bem-sucedido é responsabilidade da mulher.”

Em algum momento, as tramas são quase repetitivas, fazendo de Nova York um cenário que pode ser fascinante, mas também opressivo. Um dos contos, porém, até agora foi a melhor descrição de um ataque de síndrome do pânico que já li. A autora cria uma forte empatia com a personagem, mas você não pode fazer nada por ela.

Shirley Jackson morreu cedo, aos 48 anos, em 1965. The lottery, o conto mais perturbador dessa antologia, foi publicado originalmente na revista The New Yorker, em 1948. Causou uma repercussão enorme no público, o que levou a autora a publicar uma resposta, um mês depois:

“Explicar exatamente o que eu esperava com a história é muito difícil. Imagino que, definindo um rito antigo particularmente brutal no presente e em meu próprio vilarejo, chocaria os leitores com uma dramatização gráfica da violência sem sentido e desumanidade geral em suas próprias vidas.”

domingo, 24 de maio de 2015

O sombrio rei de amarelo

A leitura do texto da peça leva as pessoas à loucura

Uma das piores coisas que podem ocorrer a uma obra de arte é o esquecimento. As editoras podem deixar de investir em novas edições de um título, os lançamentos se sucedem e o livro perde espaço nas estantes mais visíveis das livrarias. Ao longo de décadas, ele desaparece, ou fica limitado a círculos restritos de leitores. Até que um "acaso" o resgata. Foi o que aconteceu com O rei de amarelo, do norte-americano Robert W. Chambers, lançado em 1895 e citado na festejada série de TV True detective.

O livro foi lançado no Brasil há um ano pela Intrínseca, com tradução de Edmundo Barreiros e ótima introdução de Carlos Orsi. O rei de amarelo na verdade é uma peça teatral cuja leitura leva as pessoas à loucura. Qualquer semelhança com o Necromicon, de H. P. Lovecraft não é merca coincidência: o escritor de Providence leu Chambers. Sua influência é reconhecida também por Raymond Chandler a Neil Gaiman, passando pelo onipresente Stephen King. Chambers, por sua vez, toma emprestado vários nomes e termos criados pelo escritor Ambrose Bierce.

O rei de amarelo é um "personagem" dos primeiros contos do livro, tramas distintas mas interligadas ao menos pela citação da obra maldita. As narrativas transitam entre o gótico, o fantástico, o romance e a ficção científica, numa intrigante atmosfera de mistério e viagens oníricas. O primeiro conto envolve um sr. Wilde, que remete diretamente a Oscar Wilde, como um "reparador de reputações".

Já na que pode ser considerada a segunda parte do livro, Chambers inspira-se livremente em seu passado como pintor de quadros, e ambienta suas narrativas em Paris, particularmente no Quartier Latin povoado de estrangeiros estudantes de arte. A vida libertina e amores impossíveis são tema recorrente, com um leve toque de fantasia e a influência da pintura: há momentos em que o autor "pinta" cenas em seus textos.

Esses contos também são interligados, com várias e repetidas referências internas. Em "A rua da primeira bomba", Chambers envolve o leitor na angústia de uma Paris sob cerco do exército da Prússia e no desespero de um personagem que se lança ao front de batalha.

Chambers morreu em 1933, rico e famoso por romances água-com-açúcar dos quais ninguém se lembra mais. Nem fazem falta. Mas a volta de O rei de amarelo para as prateleiras das livrarias é um verdadeiro prêmio para quem aprecia literatura fantástica.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Fantástico circo mecânico

A capa é intrigante. A hisória também
Desconcertante é um adjetivo que traduz bem O circo mágico Tresaulti, romance de estreia da norte-americana Genevieve Valentine. A jovem escritora norte-americana (completa 34 anos em primeiro de julho) investe no tema steampunk em um universo pós-apocalíptico em que pessoas e mecanismos vivem uma relação, digamos, metálica e carnal.

A trama se desenvolve de maneira fragmentada, onde a magia do circo, a relação entre os artistas e Boss, sua chefe, salvadora e protetora, o público e a sugestão de uma misteriosa ameaça estão sempre envoltos em um clima fantástico. Os limites entre máquina e corpo podem se confundir e nem ser muito claros para o leitor, mas isso acaba não sendo importante. O humano é o que ainda move os personagens: ciúme, inveja, ansiedade, paixão e medo. Muito medo.

Como toda atração mambembe, o circo está sempre em movimento por estradas e cidades de um território não identificado, sob uma atmosfera opressiva. Mas em busca de novos públicos ou à fuga da ameaça invisível? A dúvida e a tensão se mantêm ao longo da narrativa até o desfecho que pode até não surpreender, mas é melhor que você não chegue nesse trecho se precisa acordar cedo no dia seguinte. O final é garantia de só largar o livro na última página.

O circo mágico Tresaulti foi lançado no Brasil em 2013 pela Dark Side Books, com a mesma capa da edição original dos EUA, e que atraiu minha atenção na livraria. Os leitores brasileiros da tradução feita por Dalton Caldas, no entanto, tiveram como bônus as belas ilustrações do quadrinista e animador Wesley Rodrigues.

Mitologia de duas culturas em uma embalagem atraente
A editora anuncia para abril mais um romance fantástico de outra norte-americana. Golem e o Gênio, de Helene Wecker, é uma fantasia histórica na Nova York da virada do século XX, envolvendo seres mitológicos das culturas árabe e judaica. A criatura feita de barro e o gênio liberado de uma antiga garrafa de cobre dão título ao livro de capa dura com 460 páginas.

Golem e o Gênio tem recebido elogios no exterior. Vale conferir se a trama e o textos serão tão atraentes em português quanto a capa. O desafio da tradução ficou para Cláudia Guimarães.