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domingo, 16 de dezembro de 2018

The Eggs from Lake Tanganyika: A Short Science Fiction StoryThe Eggs from Lake Tanganyika: A Short Science Fiction Story by Curt Siodmak
My rating: 4 of 5 stars

Um conto de ficção científica cheio de clichês, mas certamente a origem de situações que inspiraram livremente escritores e roteiristas por décadas.
Alemão de nascimento, Curt Siodmak antecipou muito o cine-paranóia que iria se tornar comum na década de 1950. Já em 1926, ano de seu lançamento, "Os ovos do lago Tanganyka" (minha tradução livre) traz o pânico diante a ameaça de moscas gigantescas.
Não é spoiler, elas estão na capa do conto!


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sábado, 11 de agosto de 2018

A letra escarlate

O clássico lançado em 1850 teve adaptações para o cinema
Logo nas páginas iniciais de "A letra escarlate", Hester Prynne é indultada da pena de morte em troca de ser exposta por algumas horas à execração pública em um pelourinho, antes de ir para a cadeia na cidade de Salem, no século 17. O crime pelo qual é acusada é o adultério.

Hester, uma bela mulher, tem uma criança nos braços durante o interrogatório do clero da cidade, um assentamento de puritanos. Exigem que ela revele o nome do pai da menina, uma vez que seu marido está desaparecido há anos. A jovem recusa-se a dizer, e é 
presa.

Recebe a visita de um médico na prisão, a quem também não revela o nome. O homem anuncia que vai descobrir quem é o responsável pelo adultério, e jura vingança. Hester e sua filha, que recebe o nome de Pearl, são liberadas da prisão meses depois, e banidas da cidade. A jovem ainda deve usar a letra A vermelha pregada sobre o peito.

"A letra escarlate" que dá nome à obra é um A vermelho que remete a adúltera. Hester torna-se exemplo do pecado, um comportamento a não ser seguido, vergonha a ser evitada, objeto de olhares de reprovação. Vive isolada com sua filha em uma casa abandonada e afastada, e costura para os habitantes da cidade como subsistência.

Pearl vai crescendo, apresenta sinais de grande talento para aprender e começa a questionar a mãe sobre o A vermelho no peito. Um dos momentos mais tensos da narrativa é quando os líderes políticos e religiosos da cidade querem tirar a guarda da menina de Hester. O reverendo Arthur Dimmesdale intervém com uma forte argumentação teológica, e mãe e filha voltam juntas para casa.

Discursos, teologia e moralismo, aliás, marcam esse livro lançado em 1850. Foi um enorme sucesso de vendas, considerado um clássico da literatura, para alguns a melhor obra dos Estados Unidos. Nathaniel Hawthorne, ele mesmo um puritano, era neto de um dos juízes que participaram do julgamento do caso que ficou conhecido como "As bruxas de Salem". Seu texto é típico da literatura norte-americana do século 19, com longas descrições e poucos diálogos.

Na obra, o autor elabora extensas reflexões sobre questões morais, filosóficas, religiosas e comportamentais. O tema central é sempre o pecado, a culpa. O clima é de melancolia, e os três principais personagens adultos sofrem com seus fantasmas. Pela profundidade  das ideias e dos protagonistas, "A letra escarlate" é considerado um livro precursor do romance psicológico.

Falar em fantasmas na obra de Hawthorne, aliás, não é mera figura de linguagem. Há um toque de fantástico na aparição de um meteoro com o formato da letra A, uma doença misteriosa, suspeitas de experiências demoníacas, mulheres com aspecto de bruxas e um homem de negro com um livro sob o braço que vaga pela floresta. Cenas noturnas e situações sombrias temperam a trama.

Hester fica à margem da sociedade entre 1642 e 1649, quando sua sina começa a caminhar para um desfecho. A história ganha um ritmo de aventura que precede a grande revelação.

Nathaniel Hawthorne foi autor também de muitos contos e romances, como "O fauno de mármore" e o gótico "A casa das sete torres". A edição mais recente de "A letra escarlate" no Brasil saiu pelo selo Penguin Companhia, da Companhia das Letras. Há também uma edição de bolso da Best Seller.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sodoma e Gomorra

Quarto volume de "Em busca do tempo perdido"
Sexo passa a ser mais presente na vida do narrador de "Em busca do tempo perdido", e ocupa boa parte do desenvolvimento desse quarto volume da extensa obra de Marcel Proust. E o título "Sodoma e Gomorra" é mais do que uma mera sugestão do conteúdo da narrativa, uma vez que o homossexualismo incorpora-se às preocupações sociais e existenciais do jovem protagonista, alter-ego do autor.

Mais uma vez, Proust divide a narrativa entre os salões aristocráticos de Paris e os cenários bucólicos da cidade litorânea de Balbec. O autor transmite fascínio pelas relações entre os nobres, mas não deixa de destilar uma mordacidade por vezes nada sutil para com as intrigas temperadas com altas doses de esnobismo.

Em um ato de extrema indiscrição, o herói constata o homossexualismo de um integrante da alta sociedade. Mas o tema vai afetá-lo visceralmente quando passa a suspeitar das tendências homossexuais de Albertine, com quem mantém uma amizade que resvala para o romance e permite cogitar um casamento.

Em um dos trechos mais tocantes da obra, o personagem extravasa o doloroso sofrimento pela perda da avó, fortemente associada ao cenário e rotina da cidade litorânea para onde costuma viajar com o propósito de cuidar da saúde frágil. É para essa região também que se desloca praticamente toda a corte de nobres e pretendentes à nobreza, com toda a rede de intrigas de quem está qualificado a frequentar os salões.

"Sodoma e Gomorra" também contempla o caso Dreyfuss, que dividiu a opinião pública na França e mesmo em outras partes do mundo - inclusive o Brasil - no debate sobre se um oficial do exército, de ascendência judaica, teria ou não cometido traição. Igreja, militares e direita de um lado, políticos progressistas, intelectuais - incluindo Proust e Émile Zola - de outro, promoveram uma polêmica que se arrastou por anos, até o oficial acusado ser "perdoado". A inocência de Dreyfus seria reconhecida apenas um século depois dos fatos, em 1995.

Nessa obra extensa - são mais de 600 páginas - Proust destila muita ironia e humor em seu texto rebuscado. Exemplos são a descrição de um prostíbulo de luxo que lembra um pregão de bolsa de valores ou situações como o empenho do gerente do hotel em trinchar pessoalmente um peru para agradar famílias ilustres.

Retrato da sociedade na virada do século 19 para o século 20, o autor relata situações que ressaltam o papel servil das mulheres e as atitudes machistas dos personagens masculinos. 

domingo, 10 de abril de 2016

"Os miseráveis" vale cada minuto do seu tempo

A última adaptação da obra de Victor Hugo para o cinema
Um inverno rigoroso compromete o acesso de um francês a seu único trabalho, o de podar árvores. O desespero para alimentar a irmã viúva, mãe de sete filhos, o leva a roubar um pão. O homem é pego, e condenado a cinco anos de trabalhos forçados. Começa aí a sina de Jean Valjean e de seu antagonista Javert, o implacável representante da lei em um estado onde o abismo social é cultivado pela indiferença das classes dominantes.

Os miseráveis é um obra grandiosa, no tamanho físico e em sua amplitude. Victor Hugo dedicou mais de dez anos de sua vida à sua realização, o que resultou o retrato de um sistema carcerário desumano em meio a uma França em ebulição social e política. Publicado há exatos 154 anos – com lançamento simultâneo no Brasil –, o livro chega a ter mais de duas mil páginas em algumas edições. Destaque para a tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros feita para a editora Cosac & Naify em 2012, com mais de 800 notas de rodapé que localizam o leitor ao apresentar personagens históricos, lugares e episódios que serviram como referência para o autor.

E por que ler um livro que vai tomar ao menos três meses de sua vida, quando há dezenas de versões no cinema e impressas de forma condensadas? Porque o livro original extrapola totalmente a mera sensação passada pelas mídias, digamos, mais populares, de ser uma obra de aventura, a luta do bem contra o mal temperada com alguma crítica sobre as injustiças sociais. Os miseráveis contém tudo isso, e até momentos de pura comédia, mas também é uma portentosa aula de história que permite compreender muitos dos conflitos enfrentados até hoje pela sociedade humana.

Os dilemas de Jean Valjean têm como pano de fundo as convulsões sociais e políticas da França no século 19, quando Paris abrigava uma enorme população marginalizada, assolada pela pobreza e uma epidemia de cólera. O autor oferece até uma extensa descrição dos esgotos da capital francesa. Por que isso? É um dos motivos que valem cada minuto dedicado à leitura dessa obra.

Victor Hugo investiu um bom tempo na região de Waterloo, onde o exército de Napoleão sofreu uma derrota decisiva para a França Imperial. Suas descrições para essa batalha e, mais tarde, as barricadas nas ruas de Paris, nada ficam a dever aos textos dos melhores correspondentes de guerra. O leitor é colocado em meio à angústia de soldados e generais.

Mesmo após cumprir sua pena, Jean Valjean é rejeitado pela sociedade. Muda de nome e consegue tornar-se um industrial muito bem sucedido, que oferece emprego e prosperidade para uma cidade inteira. É quando toma para si a responsabilidade pelo destino da filha de uma mãe solteira levada a se prostituir para garantir o sustento da menina. Origem da trama romântica de Os miseráveis, Fantine e Cosette retratam a extrema vulnerabilidade da mulher naquela sociedade.

Nada incomoda nessa obra? Sim, e não são as extensas reflexões de Victor Hugo sobre o momento político e social. Me arrisco levantando um questionamento em um clássico da literatura mundial, mas há momentos em que o autor lembra o roteirista de uma novela de TV, e coloca personagens exatamente no lugar em que ouvem uma conversa que “explica tudo”, ou promove encontros improváveis em uma cidade que já abrigava quase 800 mil habitantes.

Essas “coincidências” se repetem muitas vezes e, claro, ajudam a desenvolver a trama. Era um recurso comum a autores da época, como Alexandre Dumas, em que romances históricos como Os três mosqueteiros eram publicados como folhetins nos jornais. Não tira o menor brilho da obra de Victor Hugo, mas fica registrada a curiosidade.


Vale a leitura? Não pense duas vezes. Serão três meses inesquecíveis de sua vida de leitor.


domingo, 31 de maio de 2015

Matar um rouxinol

Lançado em 1960, o livro ganha uma sequência este ano

Semanas antes de completar 89 anos (foi em 28 de abril), a escritora norte-americana Harper Lee reapareceu na mídia anunciando que a sequência de O sol é para todos, escrita há 60 anos, chegaria finalmente às livrarias ainda em 2015. Bastou para que uma nova onda de interesse promovesse sua obra lançada em 1960, premiada com o Pulitzer no ano seguinte e com o Oscar de melhor roteiro adaptado em 1962, ao ser levada para o cinema.

Em meados dos anos 1930, na pequena cidade fictícia de Maycomb, Alabama, sul dos Estados Unidos, Scout, uma garota de oito anos de idade, vive com seu irmão Jem e o pai viúvo, o advogado Atticus Finch, sob a tutela de Calpúrnia, uma empregada negra. A memória da Guerra da Secessão ainda é presente e o preconceito racial, muito forte.

Scout (na verdade, Jean Louise) narra sua visão do mundo, da pobreza, da velhice e da questão racial pelo olhos de uma criança. O sol é para todos começa leve, divertido, mas vai surgindo a impressão, a princípio sutil, de que a harmonia entre os habitantes não é boa.

Com a evolução da trama, questões como fazer justiça, dignidade humana e honra profissional se impõem aos irmãos. Muito da inocência vai ficando para trás, mas eles ainda são crianças, e o alívio cômico das travessuras faz um contraponto com os momentos de maior dramaticidade. O texto de Lee Harper faz sentir saudades da infância.

Após mais de meio século, O sol é para todos continua sendo uma obra incrivelmente atual. Especialmente no momento em que a questão racial volta à pauta nos Estados Unidos, a Europa se vê às voltas com o problema da imigração, a intolerância religiosa se converte em violência no mundo e temas como a criminalidade e a maioridade penal são discutidos no Brasil, abrindo espaço para propostas grotescas e medievais.

Ainda sem título em português, Go set a watchman foi oferecido pela autora às editoras antes até de To kill a mockinbird, nome original de O sol é para todos. A obra narra a vida pessoal de profissional de Scout cerca de 20 anos após os eventos que marcaram sua infância em Maycomb.

A versão em português do novo livro deve chegar ao Brasil no segundo semestre.