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sábado, 6 de julho de 2019

Os despossuídosOs despossuídos by Ursula K. Le Guin
My rating: 4 of 5 stars

O livro nem precisaria ser classificado como ficção cientifica, gênero que fez de Ursula K. Le Guin uma escritora conhecida do grande público. A narrativa traz uma clara alegoria da divisão da politica global durante o período da Guerra Fria, entre o capitalismo e o socialismo/comunista.

A ciência, representada por Shevek, um físico genial, pacifista e ingênuo, viagens interplanetárias e alienígenas, é pano de fundo para o conflito entre dois regimes. De um lado, desigualdades sociais, do outro, um anarco-comunismo que também traz suas mazelas.

Em paralelo à discussão politica, a autora aborda com arrojo temas como feminismo, liberdade sexual e homossexualismo. Lembrando que a obra - premiada com várias distinções - foi lançada em 1974.


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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Ninguém nasce heróiNinguém nasce herói by Eric Novello
My rating: 4 of 5 stars

Entre as melhores revelações da safra recente de jovens escritores, Éric Novello oferece, com "Ninguém nasce herói", uma obra atualíssima que retrata uma sociedade distópica regida por um regime apoiado por ideias de fundamentalismo religioso. Sim, distopias estão na moda, e está aí o sucesso de Margaret Atwood e seu "Conto da aia" para provar.

Na linha de "qualquer semelhança com pessoas e situações reais é mera coincidência", porém, Novello ambienta seus bens construídos personagens em uma cidade de São Paulo onde um "escolhido" impõe doutrinas políticas e comportamentais retrógradas. Em todo o país, o regime é apoiado por grupos paramilitares que reprimem grupos de ativistas políticos com violência.

A trama é centrada na personalidade algo confusa de Chuvisco. Em alguns momentos, o protagonista perde-se entre a realidade e a interpretação de sua imaginação e criatividade exacerbadas, em uma narrativa recheada de toques de quadrinhos e cultura pop.

O autor leva a trama com tensão crescente, ação física e bons diálogos. O ritmo é quebrado em alguns momentos por longas discussões para resolução de “conflitos internos” do grupo de amigos. Trechos em que a obra se caracteriza por ser muito “jovial” e pouco “adulta”.

Vale a leitura desse romance atual. Até o leitor menos atento vai identificar situações, personagens e atitudes muito familiares. Que Eric Novello seja tão bom em suas previsões quanto na escrita.


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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Olhar sem ver

Perturbadora fábula em que não se pode ver quem está ao lado  

Os verbos "desver", "desouvir" e "dessentir" são usados com frequência nessa obra do escritor e ativista político britânico China Tom Miéville. E querem dizer exatamente o que sugere sua leitura: você vê, mas não pode enxergar o que está vendo, escuta sem ouvir, sente, mas não apreende. Alguma familiaridade com relação ao motorista que "desvê" o pedinte tanto à janela de seu carro parado no semáforo?

Para não correr o risco de estragar a experiência da leitura de "A cidade e a cidade", isso é mais do que o bastante para falar da experiência de viver em Beszel ou Ul Qoma. As duas cidades que justificam o título do livro ocupam o mesmo espaço geográfico, mas são separadas por idiomas, culturas e administrações diferentes. Ver algo ou alguém da outra cidade é um grave delito.

O assassinato de uma jovem estudante envolve o inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Hediondos de Beszel. É o começo de uma trama policial com traços de distopia, no cenário desconcertante das cidades vigiadas pela misteriosa e onipresente Brecha, capaz de interferir ao mínimo deslize dos cidadãos. 

Adendo da editora Boitempo lembra que "A cidade e a cidade" foi publicado no Brasil em 2014, ano em que se celebrou o aniversário de 25 anos da queda do Muro de Berlim. E também fazia 20 anos que os EUA começaram a construir seu muro na fronteira do México e 12 que Israel fazia o mesmo na Cisjordânia, entre outras obras de separação física em curso no mundo.

Assim como as duas cidades imbricadas, a leitura desse livro oferece várias interpretações. Chamar de ficção científica ou distopia urbana é pouco, até porque a tecnologia retratada na obra é quase toda contemporânea. Miéville tem sido enquadrado na categoria de um autor de weird fiction, ou ficção estranha. Mas, querendo, basta pensar um pouco e olhar em volta para enxergar muitos paralelos na cidade onde você mesmo vive.

"A cidade e a cidade" foi lançado originalmente em 2009. Para chegar ao Brasil, passou pela tradução desafiadora e competente de Fábio Fernandes.

sábado, 20 de agosto de 2016

A antologia reúne 22 contos escolhidos pelo autor


Trinta anos da obra do autor britânico são cobertos pela antologia Man in his time: the best science fiction stories of Brian W. Aldiss, que reúne 22 contos escolhidos pelo próprio escritor. A seleção cobre vários temas visitados por Aldiss, da ciência presente ao futuro, distopias, alienígenas e até um toque de humor.

A qualidade das tramas é desigual, a começar de Super-toys las all summer long, conto que Stanley Kubrick programou fazer mas foi executado por Steven Spielberg. O filme Inteligência artificial é melhor do que o texto.

Entre outras narrativas, gostei de All the World's Tears, mas minha história preferida nessa antologia é Last orders. Divertidíssimo, o conto acompanha um policial encarregado de evacuar uma cidade - Londres? - diante da iminência do fim do planeta Terra, que será atingida por um fragmento desprendido da Lua. Encontra um casal bebendo tranquilamente em um bar, e a urgente retirada é a todo momento adiada em um diálogo intercalado por "mais uma dose".

Curiosamente, Arthur Dent e o alienígena Ford Prefect, de Guia do mochileiro das galáxias, dedicam os últimos minutos de sua permanência na Terra - antes de sua destruição - em um pub. A famosa obra de Douglas Adams foi veiculada primeiro como série transmitida pela rádio BBC 4, em 1978. No ano seguinte, foi publicada como livro, transformado em filme em 2005. O conto Last orders foi publicado em 1977.

Minha opção por conhecer a antologia por audiolivro não foi muito boa: a dicção, clareza, entonação e ritmo do narrador Arthur Blake não são dos melhores. Há suspiros no meio da leitura, vazamento de ruídos de páginas viradas e até de Blake engolindo.