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sábado, 28 de março de 2020

Viagens no Tempo e O Cachimbo do Vovô JoeViagens no Tempo e O Cachimbo do Vovô Joe by Alan Lightman
My rating: 5 of 5 stars

O conhecimento cientifico avança num período de 25 anos, mas essa obra de Alan Lightman continua valendo a leitura. O autor já havia mostrado seu talento em "Os sonhos de Einstein", e volta a oferecer seu texto agradável. Físico de formação, Lightman escreve como poucos. E nesses 26 textos curtos traduz conceitos de ciência para experiências do cotidiano a fim de tornar compreensíveis desde as infinitesimais partículas do átomo aos profundos mistérios do universo.
A tradução de Carlos Afonso Malferrari fez a curiosa opção do título original - "Dance for two" - para o escolhido pela Companhia das Letras no lançamento da obra, em 1996.


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sábado, 21 de março de 2020

ReportagensReportagens by Joe Sacco
My rating: 5 of 5 stars

Nascido em Malta, Joe Sacco vive nos EUA mas tem uma visão particular de conflitos ao redor do mundo. Põe especial atenção nos efeitos que guerras, hostilidades emigrações têm nas camadas mais vulneráveis da população.
E faz jornalismo em quadrinhos, o que contribui para centralizar o foco na população civil que mais sofre com os efeitos dos conflitos e nos campos de refugiados. Pessoas que recorrem à vida militar como única alternativa de obter recursos financeiros também têm a atenção de Joe Sacco.
Enfim, um jornalista que dá voz aos que sofrem os efeitos de conflitos e rivalidades. Impressionante é contatar que muito dos graves problemas tem origem em crenças religiosas e apartheid social.
"Reportagens" traz coberturas feitas pelo jornalistas em diferentes partes do mundo, incluindo sua terra natal. Elas foram publicadas em periódicos que abrem espaço para essa linguagem de quadrinhos, vista por muita gente como voltada para crianças. No caso de Joe Sacco e outros autores, porém, não há nada de infantil. É preciso ler aos poucos, porque desperta emoções duras.


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sábado, 15 de dezembro de 2018

Um retrato cru e feminino da guerra


Mulheres ucranianas das forças de resistência na antiga União Soviética

Esqueça aquelas imagens de guerra que são mostradas na TV, exibindo explosões a distância, ou sequências estilo videogame em que algum prédio é enquadrado por um avião a grande altitude, e o alvo vira fumaça nas imagens em baixa definição. A guerra revelada por Svetlana Aleksiévitch está mais próxima das campanhas por fundos da Cruz Vermelha ou dos Médicos sem Fronteira.

Mais do que isso, a jornalista e escritora bielorrussa mostra o ponto de vista das mulheres na Segunda Guerra Mundial. Cerca de um milhão delas, muitas ainda adolescentes, foram convocadas ou buscaram alistamento, e não raro brigaram para se juntar ao Exército Vermelho e às forças de resistência contra a invasão do exército nazista.

"Quando as mulheres falam, não aparece nunca, ou quase nunca, aquilo que estamos acostumados a ler e escutar: como umas pessoas heroicamente mataram outras e venceram. Ou perderam. Qual foi a técnica e quais eram os generais. Os relatos femininos são outros e falam de outras coisas. A guerra 'feminina' tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental. Suas próprias palavras. Nelas, não há heróis nem façanhas incríveis  Há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa desumanamente humana", escreve a autora. 

Svetlana, que ainda não havia nascido à época da guerra, intercala reflexões sobre o papel da mulher no conflito, e seu impacto na sociedade em geral. Motivadas por vingança de pais e irmãos mortos logo no começo da invasão e pelo senso de dever de proteger seu país contra os fascistas, como chamam a todo momento, as mulheres eram quase que invariavelmente rejeitadas por superiores, por paternalismo ou por não acreditarem que dariam conta.

Mas elas cumpriram rigorosamente todas as atividades militares, incluindo as que envolvem grande força física, como tirar um homem ferido de dentro de um tanque em chamas e arrastá-lo ao longo de horas pelo campo de batalha. Em outros momentos, confessam sua feminilidade, a saudade de se maquiar, vestir e usar joias.

população civil não foi poupada pela violência da guerra. Atrocidades, tortura e assassinatos afetaram não-militares, incluindo idosos e crianças. Parte das pessoas passou a integrar o movimento de resistência, mantendo vínculos nas cidades e vilarejos. Atuavam como mensageiros, na observação e anotação de movimento e abastecimento de tropas.

Fruto de centenas de entrevistas e anos de trabalho, A guerra não tem rosto de mulher foi publicado em 1983, mas ganhou notoriedade internacional quando a obra de Svetlana ganhou o Nobel de Literatura em 2015. Através da Companhia das Letras, sua obra tornou-se conhecida e sucesso entre os leitores do Brasil.

Não espere um texto primoroso. Svetlana escreve bem, mas o valor de sua obra é o resgate sem filtros da memória dessas muitas mulheres por meio das entrevistas. Os relatos em geral são breves, alguns pouco mais longos, praticamente sem edição da autora, que se limita a incluir alguns pensamentos e impressões.

Mas prepare-se para um livro forte e emocionante. Há sequências duras, em que o que se vê de longe pela TV é mostrado de muito perto. Alguns episódios são especialmente trágicos, e as descrições dos efeitos dos bombardeios e dos combates corpo a corpo são impressionantes. As testemunhas da época descrevem, e quase é possível ouvir o som de ossos quebrando.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Aula magna de cidadania


Livro vai muito além de uma simples história de amor

Imaginava ter a mínima noção sobre a chamada "questão racial", e, ao fim da leitura de "Americanah", a conclusão foi que - sim - minha noção  era mínima. Do alto de suas tranças elaboradas, Chimamanda Ngozi Adichie dá uma aula sobre o tema, falando sobre cultura, culinária, música, política, trabalho, relacionamentos e... cabelos!

A jovem estudante Ifemelu parte de uma Nigéria envolta em tramoias políticas e corrupção para encarar uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Mas deve trabalhar e ganhar dinheiro para custear sua permanência, um desafio que se torna ainda maior por ela não querer abrir mão de suas convicções e raízes culturais. E por rapidamente perceber que, em questões básicas de cidadania, o negro africano é "diferente" do afro-americano, que por sua vez não é igual aos latinos e seus descendentes que convivem nos Estados Unidos.

"Americanah" retrata o período que antecede a primeira eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos. A sensação de quase incredulidade dos estrangeiros que, como Ifemelu, acompanham as etapas finais de sua chegada à Casa Branca. A vivência de Chimamanda resultou uma obra tocante e esclarecedora até para quem se dá por informado e bem intencionado.

Como estarão se sentido e o que vão escrever as "Ifemelus" vivendo hoje sob a era Trump? 


domingo, 22 de novembro de 2015

Nabokov não é só Lolita

O livro foi publicado no Brasil com essa bela capa, e o título em uma cinta

Vladimir Nabokov nasceu russo, tornou-se cidadão norte-americano e morreu na Suíça. É sempre lembrado por Lolita, seu romance que se torna mais polêmico à medida que o tempo passa. Mas Nabokov escreveu muito, textos sensíveis e sempre encantadores como nos contos reunidos em Detalhes de um pôr do sol, coletânea lançada pela Companhia das Letras em 2002. 

Os 13 contos foram escritos no período em que o autor viveu como um emigrado em Berlim, entre os anos 1924 e 1935. A antologia foi organizada pelo próprio Nabokov, a partir de suas narrativas curtas publicadas em jornais de imigrantes na cidade alemã, e também em Paris e Riga. 

Em Detalhes de um pôr-do-sol (como é grafado na capa no ano de sua publicação, antes da reforma ortográfica), o ainda jovem escritor - um a mais entre tantos emigrantes - desenvolve situações e temas melancólicos, como um marido apaixonado surpreendido pela viuvez em plena lua de mel.

Como o acaso cruza e determina os rumos da vida de uma pessoa - ou seu fim - aliás, é tema recorrente ao longo das narrativas. Exemplo é o belíssimo conto Natal, em que a dor pela perda de um filho é confrontada pela força da natureza na véspera da principal festa dos cristãos.

"A insensatez do acaso é a lógica do destino. Como não acreditar no destino, na infabilidade de suas insinuações, na teimosia de seus desígnios, quando suas linhas linhas negras aparecem insistentemente sob a caligrafia da vida?" - reflete o autor em Um homem ocupado.

Mas nem tudo é tristeza, como se pode constatar no interessantíssimo diálogo entre escritor e crítico, em O passageiro. Nabokov localiza cada conto no tempo e no espaço de sua criação e localização. E ainda dá saborosas informações sobre seus métodos de escrita: "... de fato usei uma caneta (pois nunca aprendi a escrever à máquina, e o longo reinado do lápis 3B, com uma borrachinha na ponta, só teve início muito depois - em motéis e carros estacionados)...".

Doze das treze narrativas de Detalhes de um pôr do sol foram traduzidas do russo para o inglês pelo próprio autor com a colaboração de seu filho, Dimitri Nabokov. A tradução para o português é de Jorio Dauster.



domingo, 19 de julho de 2015

Mistérios do cérebro

O livro relata desconcertantes manifestações da mente humana

Se ser "normal" já é tão difícil, um acidente ou disfunção mental pode tornar tudo muito complicado para o paciente e as pessoas que o cercam. Mas pode ser, também, que o paciente nem sequer tenha consciência de ser "diferente". E, afinal, o que é ser "normal"? Esse é o tema do neurologista inglês Oliver Sacks em O homem que confundiu sua mulher com um chapéu - e outras histórias clínicas. Lançado em 1985, o livro reúne 24 ensaios sobre casos de perda parcial ou total da memória e problemas mentais como o autismo. 

Os casos são desconcertantes, como a da mulher de 27 anos e dois filhos que perdeu a consciência do próprio corpo: se estivesse sentada e fechasse os olhos, caía da cadeira. Só conseguia se mover com segurança se estivesse olhando para os pés ou para as mãos. Não tinha a capacidade de perceber o próprio corpo, sua localização no espaço, a posição de cada parte em relação às outras. Perdera a propriocepção.

Sem ser sensacionalista ou cair na armadilha do pieguismo, Sacks relata as histórias e tratamentos de pacientes que passaram por seu consultório. Como o caso da mulher de 89 anos que passou a viver uma euforia com a vida, e foi diagnosticada com "a doença do cupido", manifestação de sífilis neurológica contraída 60 anos antes. Ela pede para não ser curada, pois está feliz. 

"Investigamos os problemas físicos e mentais de nossos pacientes, não os seus talentos", comenta o autor no caso da moça alienada criada pela avó. Após a morte de sua tutora, quando tudo poderia dar errado, a jovem já em tratamento se revela excelente atriz de teatro.

O neurologista e autor vive nos EUA há muitos anos. Além de grande médico e pesquisador, é excelente escritor; transforma as histórias clínicas não em curiosidades mórbidas, mas em relatos tocantes que, muitas vezes, questionam a própria ciência e instigam a reflexão. De sua vasta obra, li e recomendo muito também Um antropólogo em Marte, de 1995, que reúne mais casos clínicos extraordinários e contribui para demolir preconceitos. Você pode precisar confiar sua vida a um cirurgião, e gostaria que ele fosse um dos melhores, certo? E se soubesse que ele sofre de uma síndrome que o acomete de tiques mentais e físicos?

A obra de Sacks vem inspirando roteiristas e adaptações para o cinema. Tempo de despertar (1990), com Robin Williams e Robert De Niro, foi adaptado de seu livro lançado em 1997 que tem o mesmo título em português.


Oliver Sacks em foto de 2009 © Luigi Novi / Wikimedia Commons
Oliver Sacks, que completou 82 anos de idade em 9 de julho, recebeu no começo deste ano a notícia de que tem apenas alguns meses de vida. Sofre com a metástase de um câncer em estágio avançado no fígado. Em 19 de fevereiro, publicou um artigo de despedida no jornal The New York Times, em que admite sentir medo, mas afirma que seu maior sentimento é de gratidão:

"Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero, no tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus aos que amo, escrever mais, viajar, se eu tiver forças, alcançar novos níveis de compreensão e entendimento."

Vale conferir a bela homenagem a Oliver Sacks feita por Maria Popova em seu site Brain Pickings.