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domingo, 22 de novembro de 2015

Nabokov não é só Lolita

O livro foi publicado no Brasil com essa bela capa, e o título em uma cinta

Vladimir Nabokov nasceu russo, tornou-se cidadão norte-americano e morreu na Suíça. É sempre lembrado por Lolita, seu romance que se torna mais polêmico à medida que o tempo passa. Mas Nabokov escreveu muito, textos sensíveis e sempre encantadores como nos contos reunidos em Detalhes de um pôr do sol, coletânea lançada pela Companhia das Letras em 2002. 

Os 13 contos foram escritos no período em que o autor viveu como um emigrado em Berlim, entre os anos 1924 e 1935. A antologia foi organizada pelo próprio Nabokov, a partir de suas narrativas curtas publicadas em jornais de imigrantes na cidade alemã, e também em Paris e Riga. 

Em Detalhes de um pôr-do-sol (como é grafado na capa no ano de sua publicação, antes da reforma ortográfica), o ainda jovem escritor - um a mais entre tantos emigrantes - desenvolve situações e temas melancólicos, como um marido apaixonado surpreendido pela viuvez em plena lua de mel.

Como o acaso cruza e determina os rumos da vida de uma pessoa - ou seu fim - aliás, é tema recorrente ao longo das narrativas. Exemplo é o belíssimo conto Natal, em que a dor pela perda de um filho é confrontada pela força da natureza na véspera da principal festa dos cristãos.

"A insensatez do acaso é a lógica do destino. Como não acreditar no destino, na infabilidade de suas insinuações, na teimosia de seus desígnios, quando suas linhas linhas negras aparecem insistentemente sob a caligrafia da vida?" - reflete o autor em Um homem ocupado.

Mas nem tudo é tristeza, como se pode constatar no interessantíssimo diálogo entre escritor e crítico, em O passageiro. Nabokov localiza cada conto no tempo e no espaço de sua criação e localização. E ainda dá saborosas informações sobre seus métodos de escrita: "... de fato usei uma caneta (pois nunca aprendi a escrever à máquina, e o longo reinado do lápis 3B, com uma borrachinha na ponta, só teve início muito depois - em motéis e carros estacionados)...".

Doze das treze narrativas de Detalhes de um pôr do sol foram traduzidas do russo para o inglês pelo próprio autor com a colaboração de seu filho, Dimitri Nabokov. A tradução para o português é de Jorio Dauster.



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Detalhes de um pôr do sol

"Acho que aí reside o sentido da criação literária: retratar objetos triviais tal como se refletirão nos espelhos benévolos dos tempos futuros; encontrar nos objetos a nosso redor a ternura perfumada que só a posteridade saberá discernir e apreciar nos dias longínquos em que cada insignificância de nossa vida cotidiana se tornará estranha e festiva: a época em que um homem envergando o mais ordinário paletó de hoje estará pronto para participar de um elegante baile a fantasia."

Vladimir Nabokov, Guia de Berlim, 1925  

sábado, 17 de outubro de 2015

Pense fora da caixa

Receitas para ser mais criativo
Qual seria a maneira mais eficaz de converter a cobrança de um pênalti em gol?

Mesmo quem só vê futebol em Copa do Mundo sabe que a "penalidade máxima" pode decidir campeonatos (Zico, Roberto Baggio e Palhinha que o digam). Olhando pela perspectiva de quem tem de evitar o gol, O medo do goleiro diante do pênalti é um filme de Wim Wenders de 1971, baseado em roteiro do escritor austríaco Peter Handke.

Lamento pelos goleiros, mas queremos fazer o gol. E Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner baseiam-se na análise dos fatos bem à maneira "freak" que os consagrou para concluir que o ideal é, friamente, chutar a bola no centro do gol, onde o goleiro aguarda. Ele não vai estar mais lá, e a bola entra.

O jornalista e escritor Dubner e seu parceiro, o economista Levitt, seguem a linha de Freaknomics e SuperFreaknomics em Pense como um Freak - Como pensar de maneira mais inteligente sobre quase tudo, seu lançamento mais recente. Como no livro de estreia, em 2005, o subtítulo "O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta" já resume a proposta da obra da dupla.

Quem acompanha o trabalho dos dois pode não se animar muito com a leitura do novo título. Vários dos temas vem sendo explorados pela dupla em publicações no blog e podcasts. As ideias não surpreendem como quando ouvidas ou lidas pela primeira vez.

A proposta de Pense como um Freak, no entanto, é mais a de orientar o leitor sobre como sair do lugar comum, evitar as conclusões óbvias e ser mais criativo. Sim, lembra autoajuda em muitos momentos, mas o fato é que Levitt e Dubner são originais, criativos e, não raro, polêmicos, ao abordar questões como o aborto ou levantar a discussão sobre se os jovens deveriam pagar de volta aos pais a educação que receberam.

Logo no começo do livro, os autores alertam para a armadilha de nos apegamos ao que acreditamos, nos fechando para as novas ideias que contrariam nossas crenças e certezas. É sempre bom ser lembrado disso. "Divertir-se no trabalho" e "ver os problemas de perspectivas diferentes" são "dicas" da dupla que você já pode ter lido ou ouvido muitas vezes.

O livro se torna mais saboroso quando sugere estarmos atentos à "hora de desapegar", nos lembra quão eficiente pode ser "contar histórias" ou pensar e agir como as crianças. Elas, afirmam os autores, não têm medo de sizer "não sei", pensar no óbvio, não reagem a dogmas como os adultos e são naturalmente curiosas.

Em tempo: Albert Camus e Vladimir Nabokov, dois escritores muito admirados por mim, foram goleiros em algum momento de suas vidas. Melhor que tenham se tornado referência por seu talento na escrita, e não pela habilidade com a bola. Prefiro contar com seus livros na estante.