On the Road, na estrada com os livros, traz resenhas, comentários, lançamentos, indicações de leitura e audiolivros, além de dicas gerais sobre o fascinante mundo da literatura. E uma pitada de seriados de TV e cultura pop.
domingo, 29 de maio de 2016
quinta-feira, 19 de maio de 2016
"O cão é que morreu"
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| A obra foi adaptada três vezes para o cinema |
O texto de Somerset Maugham é
fluido e elegante. Adultério, mentiras, falsidade e amores frustrados cercam os
personagens principais. As fortes emoções que envolvem Kitty Fane são descritas
com apuro, e fazem do leitor um refém da angústia que afeta não só a
protagonista da trama, mas todos que estão ao seu redor.
Em meio a decisões extremas e uma
epidemia de cólera que dizima a população na China rural, a bondade – segundo o
autor – parece sobreviver apenas em um convento de devotadas freiras que cuidam
dos pobres chineses doentes.
O véu pintado é uma história de
arrependimento, com passagens de folhetim que justificam o fato de ter sido
adaptada três vezes para o cinema. Como pano de fundo para o drama, valem as
descrições vívidas que o autor faz da paisagem e das pessoas. Já um escritor de
sucesso, Maugham pôde viajar para o oriente, no momento em que o Império
Britânico dominava a Índia e várias regiões da China, como Hong Kong. É lá que a
trama começa, temperada com sexo de uma maneira que chocava a sociedade de 90
anos atrás, quando o livro foi lançado.
O véu pintado vale a leitura, especialmente
para quem aprecia um bom drama. Mas está longe de ser a melhor obra do autor. Atente
para a citação “The dog it was that died”, colocada
com talento na boca de um personagem em um momento trágico. O melhor momento do
livro.
Para quem optar pelo audiolivro,
a narração de Sophie Ward é impecável.
sábado, 23 de abril de 2016
Fundação me conquistou
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| Surge a primeira mulher na trama |
Não havia ficado muito impressionado com “Fundação”,
o primeiro título da festejada trilogia de Isaac Asimov. Terminei a leitura com
uma sensação de confusão, sentindo saudades dos dilemas sobre inteligência artificial
apresentados nos contos do autor sobre robôs.
Mas gostei de “Fundação e Império”, onde a
trama político-social que envolve a galáxia ganha corpo e sentido. As forças se
movimentaram e o poder está em jogo, uma disputa que motiva à leitura do terceiro
volume, “Segunda Fundação”.
Sim, e em “Fundação e Império” finalmente
surge uma mulher, e ela tem um papel decisivo na trama. Mas ainda é preciso que
ela cumpra tarefas domiciliares. Asimov previu muita coisa, mas ao contrário de
seu profeta científico Hari Seldon, foi humanamente incapaz de antever todo o futuro.
domingo, 10 de abril de 2016
"Os miseráveis" vale cada minuto do seu tempo
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| A última adaptação da obra de Victor Hugo para o cinema |
Um inverno rigoroso compromete o acesso de
um francês a seu único trabalho, o de podar árvores. O desespero para alimentar
a irmã viúva, mãe de sete filhos, o leva a roubar um pão. O homem é pego, e
condenado a cinco anos de trabalhos forçados. Começa aí a sina de Jean Valjean
e de seu antagonista Javert, o implacável representante da lei em um estado
onde o abismo social é cultivado pela indiferença das classes dominantes.
Os miseráveis é um obra grandiosa, no tamanho
físico e em sua amplitude. Victor Hugo dedicou mais de dez anos de sua vida à
sua realização, o que resultou o retrato de um sistema carcerário desumano em
meio a uma França em ebulição social e política. Publicado há exatos 154 anos –
com lançamento simultâneo no Brasil –, o livro chega a ter mais de duas mil
páginas em algumas edições. Destaque para a tradução de Frederico Ozanam Pessoa
de Barros feita para a editora Cosac & Naify em 2012, com mais de 800 notas
de rodapé que localizam o leitor ao apresentar personagens históricos, lugares
e episódios que serviram como referência para o autor.
E por que ler um livro que vai tomar ao
menos três meses de sua vida, quando há dezenas de versões no cinema e
impressas de forma condensadas? Porque o livro original extrapola totalmente a
mera sensação passada pelas mídias, digamos, mais populares, de ser uma obra de
aventura, a luta do bem contra o mal temperada com alguma crítica sobre as
injustiças sociais. Os miseráveis
contém tudo isso, e até momentos de pura comédia, mas também é uma portentosa
aula de história que permite compreender muitos dos conflitos enfrentados até
hoje pela sociedade humana.
Os dilemas de Jean Valjean têm como pano de
fundo as convulsões sociais e políticas da França no século 19, quando Paris
abrigava uma enorme população marginalizada, assolada pela pobreza e uma
epidemia de cólera. O autor oferece até uma extensa descrição dos esgotos da
capital francesa. Por que isso? É um dos motivos que valem cada minuto dedicado
à leitura dessa obra.
Victor Hugo investiu um bom tempo na região
de Waterloo, onde o exército de Napoleão sofreu uma derrota decisiva para a França
Imperial. Suas descrições para essa batalha e, mais tarde, as barricadas nas
ruas de Paris, nada ficam a dever aos textos dos melhores correspondentes de
guerra. O leitor é colocado em meio à angústia de soldados e generais.
Mesmo após cumprir sua pena, Jean Valjean é
rejeitado pela sociedade. Muda de nome e consegue tornar-se um industrial muito
bem sucedido, que oferece emprego e prosperidade para uma cidade inteira. É
quando toma para si a responsabilidade pelo destino da filha de uma mãe
solteira levada a se prostituir para garantir o sustento da menina. Origem da
trama romântica de Os miseráveis, Fantine e Cosette retratam a extrema
vulnerabilidade da mulher naquela sociedade.
Nada incomoda nessa obra? Sim, e não são as
extensas reflexões de Victor Hugo sobre o momento político e social. Me arrisco
levantando um questionamento em um clássico da literatura mundial, mas há
momentos em que o autor lembra o roteirista de uma novela de TV, e coloca
personagens exatamente no lugar em que ouvem uma conversa que “explica tudo”,
ou promove encontros improváveis em uma cidade que já abrigava quase 800 mil
habitantes.
Essas “coincidências” se repetem muitas
vezes e, claro, ajudam a desenvolver a trama. Era um recurso comum a autores da
época, como Alexandre Dumas, em que romances históricos como Os três mosqueteiros
eram publicados como folhetins nos jornais. Não tira o menor brilho da obra de
Victor Hugo, mas fica registrada a curiosidade.
Vale a leitura? Não pense duas vezes. Serão
três meses inesquecíveis de sua vida de leitor.
terça-feira, 29 de março de 2016
Clima sombrio
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| O autor fica devendo um desfecho mais original |
The Haunted, de Bentley Little, começa como uma novela sobrenatural comum mas promissora. Comum porque se apoia em elementos recorrentes em histórias do gênero, como a família composta por pai, mãe e um casal de filhos, que vai viver em uma pequena cidade.
Naturalmente, a casa é antiga e tem um porão, de onde emana um cheiro ruim. O autor consegue criar um clima sombrio e assustador, porém a trama vai se desenvolvendo sem muita coerência e criatividade. Por vezes, Bentley Little parece não saber muito bem como resolver e partir para um desfecho.
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Visão obscura do automóvel
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| O romance foi levado ao cinema por David Cronenberg |
Décadas antes de começar a discussão sobre se o automóvel será o "novo cigarro" - algo a ser banido num futuro próximo como nocivo à sociedade - J. G. Ballard escreveu Crash, uma visão que vai além do pessimismo.
O livro lançado em 1973 deu origem ao filme de David Cronenberg, 23 anos depois. Mas o texto original é muito mais perturbador. Perversão, escatologia, morte, sexo, drogas e crueldade se misturam. O tempo todo os personagens estão trocando fluidos corporais entre si e com automóveis, e por sua vez sendo manchados por combustível e lubrificante do motor.
Ballard, personagem homônimo do autor, sofre um grave acidente de carro, em que um ocupante do outro automóvel morre. A partir daí, ocorre a aproximação de Robert Vaughan, um homem marcado por cicatrizes de acidentes, fascinado por desastres que vitimaram celebridades como James Dean, Albert Camus e Jayne Masfield. Vaughan dirige um decrépito Lincoln, mesmo modelo em que foi assassinado o presidente John Kenned, dos EUA, e persegue obsessivamente a ideia de se envolver em uma batida mortal com a atriz Elisabeth Taylor.
Crash é um livro datado, pois houve evolução do automóvel. Os efeitos da segunda colisão - quando os ocupantes do carro são jogados contra superfícies internas - foram muito reduzidos com a evolução dos itens de segurança. Não é mais comum bater contra o volante, menos ainda contra o painel - claro, desde que se esteja usando cinto de segurança.
O vidro laminado do automóvel não estilhaça sobre as pessoas. Mesmo a referência à Varig - a maior parte da história se passa nas imediações do aeroporto de Londres - denuncia a idade do livro.
Crash poderia ser um livro mais curto. O texto por vezes torna-se repetitivo e cansativo. Pelo grotesco, seria uma história improvável. Mas basta pensar nas pessoas que insistem em não usar cinto de segurança, ultrapassam em alta velocidade pela direita, levam crianças soltas no banco dianteiro, dirigem em estado de embriaguês avançada. Os Vaugahn estão por aí.
J. G. Ballard nasceu na China de pais ingleses. E passou parte de sua infância em um campo de prisioneiros, até o fim da Segunda Guerra Mundial. Suas lembranças desse período resultaram no romance autobiográfico Império do Sol, transformado em filme por Steven Spielberg.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
O caminho de Guermantes
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| A edição traz notas de rodapé que ajudam na leitura |
Neste terceiro volume de Em busca do tempo perdido, Marcel Proust substitui seus amores passados pelo fascínio pela duquesa de Guermantes, dama da alta aristocracia francesa, linda, culta, esnobe. Mais velha do que o jovem admirador, ela o ignora nos "encontros" tramados por ele nas ruas de Paris.
Boa parte da narrativa, porém, é ambientada nos suntuosos salões da elite parisiense, disputado por aristocratas de toda a Europa. Proust consegue ser aceito nas recepções da duquesa, que vive um casamento fracassado mas não perde a pose no ambiente fútil de seus chás e jantares.
Fofocas, intrigas, bastidores do mundo dos teatros e das cortesãs, maneira elegante de chamar as prostitutas, como hoje se fala em garota de programa. Nada escapa ao autor, atento ao rococó dos olhares e gestos, à arrogância, inveja e despeito que permeava as relações nas grandes recepções.
O autor dedica uma página e meia à descrição do gestual quase ritualístico para os Guermantes apenas cumprimentarem alguém. Havia como que uma coreografia de maneiras afetadas para cada "subgrupo" da família, que envolvia passos, olhares e gestos de diferentes variações de esnobismo.
A leitura de O caminho de Guermantes fluiu melhor para mim do que nos dois primeiros livros, possivelmente por estar mais habituado ao estilo de Proust e vários dos personagens já serem conhecidos. As notas de rodapé da edição da Editora Globo ajudam a contextualizar pessoas reais citadas pelo autor, ou aquelas que lhe serviram de referência. Há frequentes alusões a memórias de escritores e aristocratas do passado, citações e referências a textos literários, principalmente Victor Hugo. E um bom espaço dedicado à discussão sobre o caso Dreyfus, célebre episódio de acusação de traição e uma onda anti-semita na França. A tradução é de Mario Quintana.
Além de dissecar alma e exterior dos personagens, Proust põe sua sensibilidade e capacidade descritiva a serviço de obras de arte - principalmente pinturas - que surgem ao longo de O caminho de Guermantes. Suas observações acerca de um quadro equivalem a uma aula sobre arte. Curioso também como o tempo passa, a tecnologia oferece novas alternativas, mas os hábitos não mudam. Na referência a uma pintura, o autor fala como o personagem fica feliz apenas porque jantou com alguém cujo antepassado foi retratado em quadro.
Há momentos tocantes, como a doença da avó do autor, uma de suas pessoas mais queridas. Ela também dá ensejo para Proust falar sobre uma novidade, o telefone. A tentativa de conversar com a avó pelo aparelho, um canal ainda precário, não é nada fácil, mas a descrição da nova tecnologia é poética.
Se gostei de O caminho de Guermantes? Muito. Ainda não cheguei à metade de Em busca do tempo perdido, mas já deu para sentir porque os leitores se deixam fascinar pela obra de Marcel Proust.
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