On the Road, na estrada com os livros, traz resenhas, comentários, lançamentos, indicações de leitura e audiolivros, além de dicas gerais sobre o fascinante mundo da literatura. E uma pitada de seriados de TV e cultura pop.
Mergulho em águas subterrâneas, em busca da caverna mais profunda
Muita gente não gosta do escuro. A ideia de estar em lugares apertados é desconfortável para outros. Acrescente o fato de que sua respiração depende de um aparelho, um protótipo que pode falhar. Junte tudo à realidade de estar nadando em uma área alagada, sob a terra, sem saber ao certo o que vai encontrar pela frente. Uma saída ou um salão fechado. Apavorante? Essa é a realidade enfrentada por exploradores de cavernas, especialmente os que elegem as supercavernas como objetivo de suas pesquisas. Ou conquistas. É também o tema de Blind descent - The quest to discover the deepest place on Earth, livro que beira o incrível de James M. Tabor, escritor e também praticamente de aventuras extremas. Tabor coloca o leitor em cada situação que um espeleólogo - explorador de caverna - tem de enfrentar: a escuridão permanente, descidas por paredões sob água fria, mergulhos em canais subterrâneos, arrastar-se por túneis apertados. A descrição é precisa, pois o autor viveu várias dessas situações. Me senti tenso com frequência durante a leitura, talvez porque durante alguns anos vivi a emoção de passar horas dentro de cavernas no vale do Ribeira (SP). Mas nunca cheguei perto dos desafios enfrentados pelos personagens de Blind descent, cuja meta é atingir o ponto mais profundo do planeta Terra. Tabor descreve uma história similar à de Scott e Amundsen, na corrida para quem chegava primeiro ao Pólo Sul do planeta, no começo do século passado. No livro, em lugar de um inglês contra um norueguês, é uma equipe norte-americana contra ucranianos. Uns exploram a caverna Cheve, no México, outros Krubera, na Geórgia. A narrativa cobre um longo período, até o desfecho, em 2004. E é eletrizante. Pena que nenhuma editora brasileira tenha descoberto o potencial dessa aventura, disponível para ler - ou ouvir - em inglês.
Até entre as pessoas que não gostam de
livros e leitura, Sherlock Holmes é um nome e uma imagem: o detetive sabichão,
de cachimbo na boca e o amigo e auxiliar que vivia ouvindo a afirmação pouco
modesta: “Elementar, meu caro Watson!”.
O fato é que o médico e companheiro John Watson
– narrador das aventuras de Holmes - jamais ouviu essa frase, que se tornou tão
popular quanto o detetive. Não importa: ao resolver cada caso com seu método de
observação e dedução, o detetive sempre fazia quem estava acompanhando as
investigações se sentir “menos”.
Afinal, a solução sempre era óbvia, desde o
princípio; testemunhas, Watson e a própria Scotland Yard é que não enxergavam.
Elementar.
Arthur Conan Doyle criou Sherlock Holmes no
fim do século 19, e o detetive protagonizou romances e aventuras por décadas.
Algumas resvalaram pelas fronteiras do sobrenatural, como a ótima O Cão dos
Baskervilles.
Mas alguma coisa tornou-se quase
repetitiva, como este As aventuras de Sherlock Holmes que me acompanhou em
minhas últimas férias. O detetive sempre solicita a presença de Watson com o mesmo
argumento, sempre resolve o mistério, mas nem sempre a trama é criativa.
Exceção
nesse livro de 12 contos é Um escândalo na Boêmia. A narrativa é curta, mas
cria e sustenta a intriga. Vale a leitura e depois conferir a versão produzida
pela britânica BBC na série Sherlock.
A dupla principal é interpretada por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman.
Holmes
não é nem um grau menos arrogante nesta adaptação – uma de muitas feitas para o
teatro, cinema e TV -, mas a interpretação do personagem e sua interação com o “doutor
Watson” é impagável.
Desafio
moleza para nerds: Cumberbatch e Freeman têm algo em comum na obra de outro inglês
famosíssimo. Essa é mais fácil que resolver um dos mistérios de Sherlock Holms.
O texto de Somerset Maugham é
fluido e elegante. Adultério, mentiras, falsidade e amores frustrados cercam os
personagens principais. As fortes emoções que envolvem Kitty Fane são descritas
com apuro, e fazem do leitor um refém da angústia que afeta não só a
protagonista da trama, mas todos que estão ao seu redor.
Em meio a decisões extremas e uma
epidemia de cólera que dizima a população na China rural, a bondade – segundo o
autor – parece sobreviver apenas em um convento de devotadas freiras que cuidam
dos pobres chineses doentes.
O véu pintado é uma história de
arrependimento, com passagens de folhetim que justificam o fato de ter sido
adaptada três vezes para o cinema. Como pano de fundo para o drama, valem as
descrições vívidas que o autor faz da paisagem e das pessoas. Já um escritor de
sucesso, Maugham pôde viajar para o oriente, no momento em que o Império
Britânico dominava a Índia e várias regiões da China, como Hong Kong. É lá que a
trama começa, temperada com sexo de uma maneira que chocava a sociedade de 90
anos atrás, quando o livro foi lançado.
O véu pintado vale a leitura, especialmente
para quem aprecia um bom drama. Mas está longe de ser a melhor obra do autor. Atente
para a citação “The dog it was that died”, colocada
com talento na boca de um personagem em um momento trágico. O melhor momento do
livro.
Para quem optar pelo audiolivro,
a narração de Sophie Ward é impecável.
Não havia ficado muito impressionado com “Fundação”,
o primeiro título da festejada trilogia de Isaac Asimov. Terminei a leitura com
uma sensação de confusão, sentindo saudades dos dilemas sobre inteligência artificial
apresentados nos contos do autor sobre robôs.
Mas gostei de “Fundação e Império”, onde a
trama político-social que envolve a galáxia ganha corpo e sentido. As forças se
movimentaram e o poder está em jogo, uma disputa que motiva à leitura do terceiro
volume, “Segunda Fundação”.
Sim, e em “Fundação e Império” finalmente
surge uma mulher, e ela tem um papel decisivo na trama. Mas ainda é preciso que
ela cumpra tarefas domiciliares. Asimov previu muita coisa, mas ao contrário de
seu profeta científico Hari Seldon, foi humanamente incapaz de antever todo o futuro.
A última adaptação da obra de Victor Hugo para o cinema
Um inverno rigoroso compromete o acesso de
um francês a seu único trabalho, o de podar árvores. O desespero para alimentar
a irmã viúva, mãe de sete filhos, o leva a roubar um pão. O homem é pego, e
condenado a cinco anos de trabalhos forçados. Começa aí a sina de Jean Valjean
e de seu antagonista Javert, o implacável representante da lei em um estado
onde o abismo social é cultivado pela indiferença das classes dominantes.
Os miseráveis é um obra grandiosa, no tamanho
físico e em sua amplitude. Victor Hugo dedicou mais de dez anos de sua vida à
sua realização, o que resultou o retrato de um sistema carcerário desumano em
meio a uma França em ebulição social e política. Publicado há exatos 154 anos –
com lançamento simultâneo no Brasil –, o livro chega a ter mais de duas mil
páginas em algumas edições. Destaque para a tradução de Frederico Ozanam Pessoa
de Barros feita para a editora Cosac & Naify em 2012, com mais de 800 notas
de rodapé que localizam o leitor ao apresentar personagens históricos, lugares
e episódios que serviram como referência para o autor.
E por que ler um livro que vai tomar ao
menos três meses de sua vida, quando há dezenas de versões no cinema e
impressas de forma condensadas? Porque o livro original extrapola totalmente a
mera sensação passada pelas mídias, digamos, mais populares, de ser uma obra de
aventura, a luta do bem contra o mal temperada com alguma crítica sobre as
injustiças sociais. Os miseráveis
contém tudo isso, e até momentos de pura comédia, mas também é uma portentosa
aula de história que permite compreender muitos dos conflitos enfrentados até
hoje pela sociedade humana.
Os dilemas de Jean Valjean têm como pano de
fundo as convulsões sociais e políticas da França no século 19, quando Paris
abrigava uma enorme população marginalizada, assolada pela pobreza e uma
epidemia de cólera. O autor oferece até uma extensa descrição dos esgotos da
capital francesa. Por que isso? É um dos motivos que valem cada minuto dedicado
à leitura dessa obra.
Victor Hugo investiu um bom tempo na região
de Waterloo, onde o exército de Napoleão sofreu uma derrota decisiva para a França
Imperial. Suas descrições para essa batalha e, mais tarde, as barricadas nas
ruas de Paris, nada ficam a dever aos textos dos melhores correspondentes de
guerra. O leitor é colocado em meio à angústia de soldados e generais.
Mesmo após cumprir sua pena, Jean Valjean é
rejeitado pela sociedade. Muda de nome e consegue tornar-se um industrial muito
bem sucedido, que oferece emprego e prosperidade para uma cidade inteira. É
quando toma para si a responsabilidade pelo destino da filha de uma mãe
solteira levada a se prostituir para garantir o sustento da menina. Origem da
trama romântica de Os miseráveis, Fantine e Cosette retratam a extrema
vulnerabilidade da mulher naquela sociedade.
Nada incomoda nessa obra? Sim, e não são as
extensas reflexões de Victor Hugo sobre o momento político e social. Me arrisco
levantando um questionamento em um clássico da literatura mundial, mas há
momentos em que o autor lembra o roteirista de uma novela de TV, e coloca
personagens exatamente no lugar em que ouvem uma conversa que “explica tudo”,
ou promove encontros improváveis em uma cidade que já abrigava quase 800 mil
habitantes.
Essas “coincidências” se repetem muitas
vezes e, claro, ajudam a desenvolver a trama. Era um recurso comum a autores da
época, como Alexandre Dumas, em que romances históricos como Os três mosqueteiros
eram publicados como folhetins nos jornais. Não tira o menor brilho da obra de
Victor Hugo, mas fica registrada a curiosidade.
Vale a leitura? Não pense duas vezes. Serão
três meses inesquecíveis de sua vida de leitor.
The Haunted, de Bentley Little, começa como uma novela sobrenatural comum mas promissora. Comum porque se apoia em elementos recorrentes em histórias do gênero, como a família composta por pai, mãe e um casal de filhos, que vai viver em uma pequena cidade.
Naturalmente, a casa é antiga e tem um porão, de onde emana um cheiro ruim. O autor consegue criar um clima sombrio e assustador, porém a trama vai se desenvolvendo sem muita coerência e criatividade. Por vezes, Bentley Little parece não saber muito bem como resolver e partir para um desfecho.