domingo, 5 de junho de 2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Terror real

Mergulho em águas subterrâneas, em busca da caverna mais profunda

Muita gente não gosta do escuro. A ideia de estar em lugares apertados é desconfortável para outros. Acrescente o fato de que sua respiração depende de um aparelho, um protótipo que pode falhar. Junte tudo à realidade de estar nadando em uma área alagada, sob a terra, sem saber ao certo o que vai encontrar pela frente. Uma saída ou um salão fechado.

Apavorante? Essa é a realidade enfrentada por exploradores de cavernas, especialmente os que elegem as supercavernas como objetivo de suas pesquisas. Ou conquistas. É também o tema de Blind descent - The quest to discover the deepest place on Earth, livro que beira o incrível de James M. Tabor, escritor e também praticamente de aventuras extremas.

Tabor coloca o leitor em cada situação que um espeleólogo - explorador de caverna - tem de enfrentar: a escuridão permanente, descidas por paredões sob água fria, mergulhos em canais subterrâneos, arrastar-se por túneis apertados. A descrição é precisa, pois o autor viveu várias dessas situações. Me senti tenso com frequência durante a leitura, talvez porque durante alguns anos vivi a emoção de passar horas dentro de cavernas no vale do Ribeira (SP).

Mas nunca cheguei perto dos desafios enfrentados pelos personagens de Blind descent, cuja meta é atingir o ponto mais profundo do planeta Terra. Tabor descreve uma história similar à de Scott e Amundsen, na corrida para quem chegava primeiro ao Pólo Sul do planeta, no começo do século passado. No livro, em lugar de um inglês contra um norueguês, é uma equipe norte-americana contra ucranianos. Uns exploram a caverna Cheve, no México, outros Krubera, na Geórgia.

A narrativa cobre um longo período, até o desfecho, em 2004. E é eletrizante. Pena que nenhuma editora brasileira tenha descoberto o potencial dessa aventura, disponível para ler - ou ouvir - em inglês.

domingo, 29 de maio de 2016

Leitura de férias

Duas caras bem conhecidas do público nerd


Até entre as pessoas que não gostam de livros e leitura, Sherlock Holmes é um nome e uma imagem: o detetive sabichão, de cachimbo na boca e o amigo e auxiliar que vivia ouvindo a afirmação pouco modesta: “Elementar, meu caro Watson!”.

O fato é que o médico e companheiro John Watson – narrador das aventuras de Holmes - jamais ouviu essa frase, que se tornou tão popular quanto o detetive. Não importa: ao resolver cada caso com seu método de observação e dedução, o detetive sempre fazia quem estava acompanhando as investigações se sentir “menos”.

Afinal, a solução sempre era óbvia, desde o princípio; testemunhas, Watson e a própria Scotland Yard é que não enxergavam. Elementar.

Arthur Conan Doyle criou Sherlock Holmes no fim do século 19, e o detetive protagonizou romances e aventuras por décadas. Algumas resvalaram pelas fronteiras do sobrenatural, como a ótima O Cão dos Baskervilles.

Mas alguma coisa tornou-se quase repetitiva, como este As aventuras de Sherlock Holmes que me acompanhou em minhas últimas férias. O detetive sempre solicita a presença de Watson com o mesmo argumento, sempre resolve o mistério, mas nem sempre a trama é criativa.

Exceção nesse livro de 12 contos é Um escândalo na Boêmia. A narrativa é curta, mas cria e sustenta a intriga. Vale a leitura e depois conferir a versão produzida pela britânica BBC na série  Sherlock. A dupla principal é interpretada por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman. 

Holmes não é nem um grau menos arrogante nesta adaptação – uma de muitas feitas para o teatro, cinema e TV -, mas a interpretação do personagem e sua interação com o “doutor Watson” é impagável.

Desafio moleza para nerds: Cumberbatch e Freeman têm algo em comum na obra de outro inglês famosíssimo. Essa é mais fácil que resolver um dos mistérios de Sherlock Holms.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

"O cão é que morreu"

A obra foi adaptada três vezes para o cinema

O texto de Somerset Maugham é fluido e elegante. Adultério, mentiras, falsidade e amores frustrados cercam os personagens principais. As fortes emoções que envolvem Kitty Fane são descritas com apuro, e fazem do leitor um refém da angústia que afeta não só a protagonista da trama, mas todos que estão ao seu redor.

Em meio a decisões extremas e uma epidemia de cólera que dizima a população na China rural, a bondade – segundo o autor – parece sobreviver apenas em um convento de devotadas freiras que cuidam dos pobres chineses doentes.

O véu pintado é uma história de arrependimento, com passagens de folhetim que justificam o fato de ter sido adaptada três vezes para o cinema. Como pano de fundo para o drama, valem as descrições vívidas que o autor faz da paisagem e das pessoas. Já um escritor de sucesso, Maugham pôde viajar para o oriente, no momento em que o Império Britânico dominava a Índia e várias regiões da China, como Hong Kong. É lá que a trama começa, temperada com sexo de uma maneira que chocava a sociedade de 90 anos atrás, quando o livro foi lançado.

O véu pintado vale a leitura, especialmente para quem aprecia um bom drama. Mas está longe de ser a melhor obra do autor. Atente para a citação “The dog it was that died”, colocada com talento na boca de um personagem em um momento trágico. O melhor momento do livro.


Para quem optar pelo audiolivro, a narração de Sophie Ward é impecável. 

sábado, 23 de abril de 2016

Fundação me conquistou

Surge a primeira mulher na trama

Não havia ficado muito impressionado com “Fundação”, o primeiro título da festejada trilogia de Isaac Asimov. Terminei a leitura com uma sensação de confusão, sentindo saudades dos dilemas sobre inteligência artificial apresentados nos contos do autor sobre robôs.

Mas gostei de “Fundação e Império”, onde a trama político-social que envolve a galáxia ganha corpo e sentido. As forças se movimentaram e o poder está em jogo, uma disputa que motiva à leitura do terceiro volume, “Segunda Fundação”.


Sim, e em “Fundação e Império” finalmente surge uma mulher, e ela tem um papel decisivo na trama. Mas ainda é preciso que ela cumpra tarefas domiciliares. Asimov previu muita coisa, mas ao contrário de seu profeta científico Hari Seldon, foi humanamente incapaz de antever todo o futuro.

domingo, 10 de abril de 2016

"Os miseráveis" vale cada minuto do seu tempo

A última adaptação da obra de Victor Hugo para o cinema
Um inverno rigoroso compromete o acesso de um francês a seu único trabalho, o de podar árvores. O desespero para alimentar a irmã viúva, mãe de sete filhos, o leva a roubar um pão. O homem é pego, e condenado a cinco anos de trabalhos forçados. Começa aí a sina de Jean Valjean e de seu antagonista Javert, o implacável representante da lei em um estado onde o abismo social é cultivado pela indiferença das classes dominantes.

Os miseráveis é um obra grandiosa, no tamanho físico e em sua amplitude. Victor Hugo dedicou mais de dez anos de sua vida à sua realização, o que resultou o retrato de um sistema carcerário desumano em meio a uma França em ebulição social e política. Publicado há exatos 154 anos – com lançamento simultâneo no Brasil –, o livro chega a ter mais de duas mil páginas em algumas edições. Destaque para a tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros feita para a editora Cosac & Naify em 2012, com mais de 800 notas de rodapé que localizam o leitor ao apresentar personagens históricos, lugares e episódios que serviram como referência para o autor.

E por que ler um livro que vai tomar ao menos três meses de sua vida, quando há dezenas de versões no cinema e impressas de forma condensadas? Porque o livro original extrapola totalmente a mera sensação passada pelas mídias, digamos, mais populares, de ser uma obra de aventura, a luta do bem contra o mal temperada com alguma crítica sobre as injustiças sociais. Os miseráveis contém tudo isso, e até momentos de pura comédia, mas também é uma portentosa aula de história que permite compreender muitos dos conflitos enfrentados até hoje pela sociedade humana.

Os dilemas de Jean Valjean têm como pano de fundo as convulsões sociais e políticas da França no século 19, quando Paris abrigava uma enorme população marginalizada, assolada pela pobreza e uma epidemia de cólera. O autor oferece até uma extensa descrição dos esgotos da capital francesa. Por que isso? É um dos motivos que valem cada minuto dedicado à leitura dessa obra.

Victor Hugo investiu um bom tempo na região de Waterloo, onde o exército de Napoleão sofreu uma derrota decisiva para a França Imperial. Suas descrições para essa batalha e, mais tarde, as barricadas nas ruas de Paris, nada ficam a dever aos textos dos melhores correspondentes de guerra. O leitor é colocado em meio à angústia de soldados e generais.

Mesmo após cumprir sua pena, Jean Valjean é rejeitado pela sociedade. Muda de nome e consegue tornar-se um industrial muito bem sucedido, que oferece emprego e prosperidade para uma cidade inteira. É quando toma para si a responsabilidade pelo destino da filha de uma mãe solteira levada a se prostituir para garantir o sustento da menina. Origem da trama romântica de Os miseráveis, Fantine e Cosette retratam a extrema vulnerabilidade da mulher naquela sociedade.

Nada incomoda nessa obra? Sim, e não são as extensas reflexões de Victor Hugo sobre o momento político e social. Me arrisco levantando um questionamento em um clássico da literatura mundial, mas há momentos em que o autor lembra o roteirista de uma novela de TV, e coloca personagens exatamente no lugar em que ouvem uma conversa que “explica tudo”, ou promove encontros improváveis em uma cidade que já abrigava quase 800 mil habitantes.

Essas “coincidências” se repetem muitas vezes e, claro, ajudam a desenvolver a trama. Era um recurso comum a autores da época, como Alexandre Dumas, em que romances históricos como Os três mosqueteiros eram publicados como folhetins nos jornais. Não tira o menor brilho da obra de Victor Hugo, mas fica registrada a curiosidade.


Vale a leitura? Não pense duas vezes. Serão três meses inesquecíveis de sua vida de leitor.


terça-feira, 29 de março de 2016

Clima sombrio

O autor fica devendo um desfecho mais original


The Haunted, de Bentley Little, começa como uma novela sobrenatural comum mas promissora. Comum porque se apoia em elementos recorrentes em histórias do gênero, como a família composta por pai, mãe e um casal de filhos, que vai viver em uma pequena cidade.

Naturalmente, a casa é antiga e tem um porão, de onde emana um cheiro ruim. O autor consegue criar um clima sombrio e assustador, porém a trama vai se desenvolvendo sem muita coerência e criatividade. Por vezes, Bentley Little parece não saber muito bem como resolver e partir para um desfecho.