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sábado, 20 de abril de 2019

Outubro: História da Revolução RussaOutubro: História da Revolução Russa by China Miéville
My rating: 5 of 5 stars

O que leva um escritor de ficção-científica à aventura de escrever sobre a maior revolução socialista da história? É fácil entender quando se conhece um pouco mais sobre China Miéville. O inglês não é apenas um criativo autor de ficção weird, ou bizarra, mas também professor, acadêmico, político e militante de esquerda.

A partir de extensa documentação e bibliografia, em "Outubro: História da Revolução Russa" Miéville repassa os episódios a partir de abril de 1917, quando o czar Nicolau II é levado a renunciar diante da revolta de vários setores da sociedade - e seu irmão Miguel recusa-se a assumir em seu lugar. Seguem-se os capítulos que levam os nomes dos meses até outubro, quando os bolcheviques finalmente assumem o poder na Rússia.

Como em "Dez dias que abalaram o mundo", de John Reed, o autor relata o que acontece nas ruas e no interior de salões esfumaçados. Formam-se comitês de trabalhadores, soldados e representantes de diferentes etnias e de regiões remotas da Rússia. É um período absolutamente conturbado, em que o poder é disputado por várias correntes políticas e ao menos uma importante tentativa de contrarrevolução. No lado externo , o país sofre e perde centenas de milhares de soldados nas frentes de batalha da Segunda Guerra Mundial.

As semanas e meses se arrastam, com passeatas e manifestações mais ou menos violentas, encontros, reuniões, assembleias e conspirações. A violência política, a criminalidade e a fome avançam. Mas há registros pitorescos, como o relato sobre Lenin disfarçado com peruca e roupas de bêbado para evitar ser preso - ou pior - nas mãos de inimigos políticos, o poderoso cruzador Aurora impossibilitado de disparar em um momento crítico na revolução por falta de munição ou ainda uma decisiva lanterna vermelha que ninguém consegue encontrar.

"Outubro: História da Revolução Russa" resume um período fascinante da história. Como em "Dez dias que abalaram o mundo", de John Reed, muito se passa no interior de grandes salas e reuniões intermináveis, envolvendo muitos personagens. Longos trechos do relato se arrastam de um comício para uma assembleia e de lá para o encontro de um comitê. Mas não dá para parar de ler, ainda que o desfecho seja conhecido há um século.

Ajuda muito no fluxo da leitura o livro trazer ainda uma breve biografia de homens e mulheres que desempenharam diferentes papéis na disputa pelo poder, fotos de alguns dos protagonistas da revolução e extensa bibliografia para quem quiser se aprofundar no assunto.

Obra indispensável para conhecer esse período da história.

Em tempo: não consegui achar o livro impresso em várias livrarias (não cheguei a procurar em sebos). Mas a obra publicada pela editora Boitempo, com tradução de Heci Regina Candiani, está disponível no formato eletrônico.


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domingo, 11 de setembro de 2016

Dinastia de mais de três séculos teve desfecho trágico

Em contraste com um império empobrecido, a família Romanov e a aristocracia da Rússia de um século atrás viviam em meio a uma opulência difícil de conceber. As primeiras cenas de The family Romanov - não há título em português - descrevem um baile em que os vestidos eram cobertos com tantos diamantes que as mulheres mal podiam se mover. Nas zonas rurais, mães faziam seus filhos dormir com cantigas cujas letras aceitavam a morte como um destino muitas vezes melhor para as crianças.

A autora Candice Fleming é bem-sucedida no cuidado de se manter imparcial ao relatar a vida e a morte da família do último czar da Rússia, destituído pela Revolução Bolchevique. The family Romanov é uma obra adotada nas escolas. Mas mesmo quando ela é apenas descritiva os dados chocam: a família desfrutava de dezenas de palácios, iates e até trens. Os Romanov viajavam durante o ano inteiro, mas em sua principal habitação - o Palácio de Inverno em Petrogrado - havia 500 empregados e praticamente um zoológico de animais de estimação, que incluía um elefante.

O livro é baseado em testemunhos - parte deles transcritos - como o do jornalista John Reed, autor de Os dez dias que abalaram o mundo. E contém erros de localização geográfica, resultado da desatenção da autora, que se localiza mal em relação a Leste e Oeste. Sua leitura, porém, nos apresenta a personagens intrigantes como Rasputin, reporta a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a entrada da Rússia no conflito e revela didaticamente a escalada da insatisfação do povo com seu imperador.

Mostra, também, a total inabilidade de Nicolau II em lidar com a revolução que se anunciava. A ponto de sua Guarda Imperial abrir fogo contra uma multidão que pretendia entregar uma petição ao imperador em seu palácio, ostentando ícones religiosos e cantando hinos em homenagem ao czar. O episódio em 9 de janeiro de 1905 resultou na morte de centenas de pessoas, e ficou conhecido como Domingo Sangrento.

A admiração por Nicolau II começou a fraquejar, juntando-se aos fracassos militares na guerra, a enorme perda de vidas e o aumento acelerado na penúria do povo. A insatisfação popular foi o combustível da Revolução. O czar acabou sendo obrigado a abdicar. Sua família vai perdendo privilégios até terminar em uma casa-prisão na Sibéria.

A dinastia Romanov não conhecia outro modo de vida há séculos. Ainda assim, Nicolau, sua esposa Alexandra, as quatro filhas e o filho foram se adaptando às privações até o trágico desfecho. As meninas mantinham seu espirito jovial e comunicativo mesmo em meio a um ambiente cada vez mais hostil. O que só torna a crua descrição de Candice Fleming, baseada no que foi registrado pelas testemunhas na ocasião, ainda mais chocante.

The family Romanov é um excelente resumo dos episódios históricos que antecederam o fim do czarismo e a Revolução Bolchevique. E um relato dramático da extinção de uma família.