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terça-feira, 7 de abril de 2020

Coração das trevasCoração das trevas by Joseph Conrad
My rating: 5 of 5 stars

A viagem de uma embarcação ao longo do rio Congo traça um terrível retrato dos efeitos do colonialismo europeu no continente africano. Charles Marlow, capitão do velho navio a vapor, é encarregado do resgate de Kurtz, um comerciante de marfim quase mítico isolado centenas de quilômetros rio acima. Lenta e cheia de dificuldades, a jornada vai adentrando a selva sombria, e os recantos mais escuros do ser humano.

Narrado por Marlow, com raros diálogos e longas reflexões, "Coração das Trevas" é um romance curto e impressionante. A narrativa publicada em 1899 foi transposta 80 anos no futuro, e adaptada do cenário da selva no Congo para a guerra do Vietnã pelo cineasta Francis Ford Coppola no filme "Apocalypse Now".

Li "Coração das Trevas" na edição da Ubu Editora, com tradução de Paulo Schiller e quase metade das 226 páginas com belíssimas intervenções artísticas de Rosângela Rennó. A edição tem ainda posfácio de Bernardo Carvalho e textos de Paulo Mendes Campos, Virginia Woolf e Walnice Nogueira Galvão.


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sábado, 9 de novembro de 2019

EmmaEmma by Jane Austen
My rating: 3 of 5 stars

Reconheço a importância de Jane Austen para a Literatura e que "Emma" seja um clássico, mas entendo que o livro envelheceu mal. Talvez por ter percebido nele a raiz de inúmeras tramas de amor, a história me pareceu repetitiva e aborrecida.

É, de fato, o retrato do tempo da autora, escritora extraordinária. A Inglaterra enriquecia explorando colônias mundo afora e mão de obra miserável em jornadas desumanas no princípio da industrialização. Sobrava tempo para uma elite se entediar e preencher seu tempo trocando visitas e, no caso das mulheres, torcendo por um bom casamento.

A obra de Jane Austen se destaca aqui, além de seu texto fluido, pela defesa de um protagonismo para as mulheres. Mas mesmo em livros como "Emma" os empregados são meras sombras que mantêm tudo limpo e funcionando sem sequer ter direito a um nome além de "serviçais".

Destaque nesse audiolivro para a Emma Thompson como narradora na produção impecável dos estádios da Audible.


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sábado, 29 de dezembro de 2018

The House on the BorderlandThe House on the Borderland by William Hope Hodgson
My rating: 2 of 5 stars

Leitura vale como curiosidade, uma vez que inspirou autores como H. P. Lovecraft e Terry Pratchett. Mistura de ficção científica, horror e fantasia, inovou no que se tornou conhecido como "horror cósmico", muito explorado mais tarde por autores como Clark Ashton Smith e o próprio Lovecraft.
Mas se perde quando o manuscrito encontrado por dois aventureiros em uma remota, esquecida e decadente mansão sai do relato do encontro hostil com seres alienígenas para uma viagem pelo universo. A longa descrição dessa jornada pelo tempo, espaço e diferentes dimensões é, em muitos trechos, um delírio astronômico repetitivo e enfadonho.
Personagens como a irmã e um antigo amor do anônimo autor do manuscrito têm participação dispersa. Enfim, um texto por vezes confuso em que, sem aviso, pode surgir um alienígena, uma mulher ou um animal de estimação ainda não apresentado ao leitor.


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A morte de Hercule Poirot

A morte do detetive teve obituário no New York Times
É possível manter o interesse quando já se sabe que o personagem principal estará morto no desfecho de um romance policial? Se a vítima é Hercule Poirot e a autora é Agatha Christie, sem dúvida. Embora anunciada na capa como "o último caso" do famoso detetive belga,  a trama atraiu a atenção dos incontáveis fãs da escritora inglesa - uma dos autores mais vendidos do mundo -, interessados em saber como seria a despedida de seu herói.

A trama é narrada por Arthur Hastings, velho companheiro de Poirot. Ambos voltam ao local de um antigo crime, descrito em "O misterioso caso de Styles", novela de estreia de Agatha Christie, publicada em 1920. 

O romance tem os exageros característicos da obra de Agatha Christie, como a concentração de assassinatos em uma só lugar, múltiplos suspeitos e motivações. Mas, embora não seja a obra preferida da própria autora, é interessante porque ela teve a coragem de matar seu famoso detetive Hercule Poirot, coisa que o contrariado Arthur Conan Doyle, seu conterrâneo, não pode fazer com Sherlock Holmes. Doyle tornou-se um escritor a serviço de um personagem. 

"Cai o pano" foi escrito em 1940, mas os originais ficaram trancados em um cofre de banco por mais de três décadas. autora  tinha medo de morrer durante a Segunda Guerra Mundial e deixar seus leitores sem um desfecho para seu herói. Agatha Christie autorizou a publicação de "Cai o pano" apenas em setembro de 1974. O livro foi lançado no Brasil no ano seguinte, em edição da Nova Fronteira traduzida por Clarice Lispector.

Lida em mais de 100 idiomas, Agatha Christie morreu em janeiro de 1976, meses após a publicação de seu último livro em vida, justamente "Cai o Pano". Os leitores lamentaram a morte de Hercule Poirot e, logo em seguida, de sua criadora. Ambos eram celebridades, e a perda não foi sentida apenas pelos fãs: o New York Times publicou o obituário do detetive belga na primeira página, com direito a foto.