quinta-feira, 15 de junho de 2017

Clube da LutaClube da Luta by Chuck Palahniuk
My rating: 4 of 5 stars

Perturbadora visão da sociedade de consumo, com altas doses de violência e comportamento antissocial como veículo de crítica ao american way of life. Por extensão, também aos padrões obsessivamente adotados em países emergentes.


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sábado, 3 de junho de 2017

Trama envelhecida

Livro hoje só é encontrado em sebos
Um romance de espionagem de muito sucesso por ocasião de seu lançamento, nos anos 1970, mas que ficou datado. A trama até convence e cria um bom clima de suspense, mas o herói e seus inimigos são inconsistentes, e o romance que nasce no meio da obra beira os folhetins baratos de banca de jornal.

Celebração da natureza

A obra é posterior à publicação de On the road

Três gêneros de leitores podem apreciar "The Dharma bums", traduzido para o português e lançado pela L&PM como "Os vagabundos iluminados". Fãs da literatura beat, seguidores e interessados pelo budismo e adeptos do montanhismo. Saraus, bebedeiras, orgias, caronas, caminhadas, escaladas e noites ao relento alternam-se com meditação e reflexões sobre correntes filosóficas e tradições que chegavam do Oriente para os Estados Unidos na década de 1950 e eram abraçadas pela geração beat.

Jack Kerouac relata suas experiências entre São Francisco, México estradas, uma passagem pela casa da mãe, a escalada do pico Matterhorn e uma temporada como guarda-parque no Desolation Peak na pele de Ray Smith. Também estão presentes na obra Neal Cassady - parceiro das viagens de "On the road" -, com o nome de Cody Pomeray, e os poetas Gary Snyder, como Japhy Ryder, e Allen Ginsberg, como Alvas Goldbook.

Uma leitura na velocidade das rodovias e longas jornadas de Kerouac/Smith, uma bela celebração da natureza, aventura e vida ao ar livre.

Um bom romance de estreia

A obra é a estreia do autor como romancista

Retrato sem filtros da sociedade e da degradação da cidade de São Paulo em um romance muito bem escrito.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Jack London, autor de vida e obra intensas

Jack London age 9 - crop
Jack London aos 9 anos, com seu cão Rollo, em foto de 1885
Há quem diga que a ideia de viver grandes experiências, fazer longas viagens e conhecer muitos lugares não é essencial para alguém se tornar um bom escritor. Mas Jack London viajou muito, foi de trabalhador infantil a vagabundo viajante clandestino em trens, pirata, marinheiro e presidiário, militante socialista e apoiador da Lei Seca, ele mesmo vítima dos abusos do álcool.

Se essas experiências já não bastassem para inspirar muitas obras, London ainda participou da corrida do ouro no fim do século 19, foi correspondente de guerra no conflito entre a Rússia e o Japão, em 1904, teve dois casamentos. Uma vida tão intensa combinou-se com a inclinação para o estudo e o autoaprendizado e uma grande dose de talento para fazer dele um dos escritores mais importantes dos Estados Unidos. Se não é essencial viver intensamente para escrever, London fez de suas aventuras o ingrediente de uma obra extensa e palpitante. Ao longo dos apenas 40 anos que viveu.

Durante muito tempo sua obra foi reduzida pelos críticos a "livros sobre cachorros", referência a títulos como "O apelo da selva" e "Caninos brancos". Com  adaptações para o cinema, TV e quadrinhos, essas emocionantes obras que falam de lealdade e sobrevivência tornaram London conhecido no mundo inteiro.

Aventuras em situações e ambientes hostis são uma constante nos romances, contos e memórias do autor. Impossível não se sentir na pele de um homem que luta pela sobrevivência, tentando acender fogo no frio extremo do Ártico, sob as vistas de um lobo velho e faminto que o espreita, na narrativa breve "Fazer uma fogueira".

Em seu romance curto "A praga escarlate", já em 1912 London antecipa um gênero hoje muito popular, a ficção científica distópica. Em um futuro então distante, no século 21, um avô, o professor Smith, conta a seus três netos fatos sobre a vida que eles desconhecem, como a epidemia que dizimou a população do planeta.

Quando ele fala em bilhões de habitantes, e as crianças não sabem sequer o que é um milhão, o velho professor pega um punhado de areia na praia e faz a analogia. Pela voz do personagem, London dá uma aula às crianças sobre germes, doenças e epidemias. Elas têm dificuldade de compreender como é possível acreditar em algo que não se vê, como bactérias. Uma dificuldade que muitas pessoas ainda tinham há um século.

sábado, 1 de abril de 2017

Pílulas azuisPílulas azuis by Frederik Peeters
My rating: 5 of 5 stars

Quem se considera muito bem informado sobre o vírus HIV e como é a vida de um soropositivo talvez não precisasse ler essa obra. O suíço Frederik Peeters lança mão de seu talento como quadrinista para relatar sua relação com Cati e seu pequeno filho, ambos portadores do vírus da Aids.
O cotidiano, as dúvidas sobre os riscos de transmissão, o tratamento com as tais pílulas azuis, reflexões sobre a vida e a morte são relatados com leveza na narrativa e os traços grossos do autor. Mesmo quem se acredita suficientemente esclarecido sobre o tema pode e deve ler essa obra autobiográfica, acima de tudo uma belíssima história de amor.


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domingo, 19 de março de 2017

O marciano


O título em português é inadequado, mas o livro é ótimo

Talvez você se canse de ler sobre cálculos, raciocínios complexos e batatas. Mas, não duvide, Mark Watney ficou muito mais enjoado. É do tubérculo - entre outras coisas essenciais à vida, como água e ar - que depende a sobrevivência do astronauta-botânico deixado no planeta vermelho. A condição não planejada faz dele "O marciano", título original substituído em português por "Perdido em Marte". 

E perdido é o que Mark não chega bem a ficar. Deixado para trás, abandonado, até pode ser. Mas, apesar de ferido, ele se vira muito bem com seus conhecimentos científicos, espírito de improvisação e vontade de viver, contrariando os piores prognósticos.

Leitor voraz e admirador de ficção e divulgação científica, o ex-programador Andy Weir batalhou muito a fim de conseguir uma editora para seu primeiro romance, divulgado inicialmente como um seriado em seu site. História comum: foi recusado por várias editoras, até decidir publicar "The martian" como livro eletrônico, oferecido por 99 centavos de dólar. A menos que você tenha vivido os últimos anos em Marte, sabe que a trama acabou chegando aos cinemas.

Andy Weir foi cuidadoso para tornar o mais cientificamente verossímil seu trabalho. É verdade que, em muitas situações, Mark Watney lembra o personagem Macgyver do seriado de TV, aquele que conseguia escapar das situações impossíveis com recursos improváveis. Mas o fato é que, apesar de algumas concessões, o romance não abusa da ciência real.

Mais do que isso, cria muita tensão e aquela deliciosa necessidade para o leitor saber o que ocorrerá a seguir. E há um clima de suspense constante também na nave Hermes, em viagem de retorno à Terra após a missão abruptamente interrompida, e nas agências espaciais sobre o que e como fazer diante da inédita situação de uma pessoa que se acreditava morta sozinha em Marte.

Tanto no livro como na adaptação boa e fiel dirigida por Ridley Scott para o cinema, "Perdido em Marte" homenageia a ciência, estimula a curiosidade e mantém a atenção até o fim. Mas, no fim do livro, Mark diz que, caso um montanhista se perca na montanha, as pessoas se organizam para resgatá-lo. Em termos: em situações extremas, em que a vida de outras pessoas pode ser sacrificada, pode-se decidir friamente não fazer o socorro. Caso Mark fosse um alpinista no Everest, é provável que ele não tivesse chance.